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Reabilitação não é religião

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Neste semestre estou ministrando a disciplina de Laboratório de Assessoria de Comunicação na UFMA. A turma foi dividida em grupos de trabalho e cada um está assessorando uma organização sem fins lucrativo.

Semana passada visitamos a Casa de Davi, entidade associada à Igreja Protestante Nova Vida voltada para a reabilitação de dependentes químicos situada no bairro Vila Machado periferia de Imperatriz/MA. Fazendo parte do processo avaliativo, solicitei aos alunos que fizessem uma resenha crítica do que foi visto e ouvido. Selecionei as melhores e decidi fazer uma “colcha de retalhos” e “montar” esse artigo. Cabe salientar que, para quem não sabe, resenha crítica é um texto que, além de resumir o objeto estudado, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica, apontando os aspectos positivos e/ou negativos. Trata-se, portanto, de um texto de informação e de opinião, também denominado de recensão crítica. Leremos a seguir o resultado do trabalho e o que os alunos transcreveram:

“O mundo das drogas tem invadido à sociedade e destruído muitas famílias. Pessoas, a maioria jovens, acabam se deixando levar por uma falsa sensação que a vida está ‘de boa’. Trabalhos de socialização são sempre bem vistos por todos e encarados como a última saída por aqueles que desejam deixar os vícios".

Segundo o Dicionário Aurélio, reabilitação é o ato ou efeito de reabilitar-se, ou seja, restaurar a normalidade ou o mais próximo dela. Sabe-se que em nossa sociedade, não há muitos projetos de reabilitação para condenados pela justiça ou de dependentes químicos. Nas penitenciárias, por exemplo, o apenado ao invés de receber um tratamento que realmente o ajude a retornar à convivência social, acaba aprendendo com o ‘colega de cela’ práticas ilícitas de como aperfeiçoar o crime que ele já praticava.

Trabalhos desenvolvidos por instituições religiosas, que conseguem ajudar muitos jovens através de projetos de reabilitação, são muito bem vindos. O modo como é feito o tratamento é que faz toda a diferença. Tratamentos realizados apenas com base na religião tem seus prós e contras, pois na maioria das vezes é imposto ao recuperando que ‘aceite a Jesus’ junto à orientação religiosa dos coordenadores do projeto e isso pode implicar em um impedimento na realização de um tratamento bem mais eficaz.

É necessário mais do que a ‘Palavra de Deus’ e ocupações diárias em reabilitações como essa. Não que a Bíblia Sagrada e as orações sejam desprezíveis, mas nesse caso envolve também outras áreas, como a psicológica e a estrutura física. Percebe-se que a metodologia desenvolvida pela Casa de Davi só terá resultado se o ex-dependente químico se engajar na igreja coordenadora do projeto. Lá dentro no confinamento é uma coisa; cá fora, é outra. Mesmo que o discurso seja de que não há pressão para ‘aceitar Jesus’, o tratamento induz a uma vida evangelizada; caso contrário, não conseguirão ‘permanecer na benção’.

Analisando cientificamente as raízes que deram origem à entidade (a Comunidade Nova Vida, na qual a grande parte dos seguidores são pessoas de alto poder aquisitivo na cidade de Imperatriz) podemos afirmar que a Casa de Davi poderia ter uma estrutura física e psicológica bem melhor. Os ‘membros da igreja’ poderiam juntar a fé que dizem realmente sentir com um trabalho de cunho bem mais social, voltado para os anseios pós-recuperação dos participantes do projeto. Mas o que parece é que a corrente religiosa está muito mais preocupada em aumentar o número de membros para a igreja com o argumento de que fazer parte da religião é ‘aceitar Jesus’.

Ou seja, existe e é possível a reabilitação sem a religião. A última pode até ajudar nesses casos, mas afirmar que ela é a salvadora da pátria... Agora Binhaí! Trechos das resenhas críticas dos alunos Adriane Barreto, Douglas Aguiar e Rayza  Machado.

*Gilbert Angerami é Doutor em Comunicação e Cultura, Mestre em Marketing, jornalista, publicitário, ator e professor Adjunto III da UFMA - Campus Imperatriz. Mande seus comentários para o e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

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