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Mídia e o espetáculo no Rio de Janeiro

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Carros blindados, camburões, pessoas correndo, balas perdidas e muito desespero. Estas são as cenas que assistimos nos últimos dias nas emissoras de televisão. Imagens que revelam a violência assustadora vivenciada no Rio de Janeiro.

As dúvidas que rondam são imensas, afinal, todos vislumbram um Rio de Janeiro entregado ao caos. Mas até onde as imagens revelam a realidade? Ou será apenas uma versão do que realmente está ocorrendo? Um espetáculo?

Ao entrar nos sites de notícias e nas redes sociais, percebe-se que só há espaço para a tal “guerra civil” instaurada pelos marginais e multiplicada pelas ações do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar. Não se quer aqui amenizar as dramáticas ações de violência vividas no Rio de Janeiro, elas realmente estão acontecendo; a questão é a forma como são veiculadas na mídia.

 Agora, como dizem no Twitter, estamos assistindo ao vivo ao “Tropa de Elite 3”, fazendo uma comparação ao filme lançado recentemente que mostra as atividades do BOPE no Rio de Janeiro. Mas, a verdade é que não se sabe até que ponto é correto mostrar ao vivo a trajetória dos policiais e militares nestas ações; pois dessa forma, pode-se antecipar aos marginais de que forma se defender da polícia.

O escritor francês Guy Debord em sua obra Sociedade do Espetáculo nos explica de que forma o espetáculo é construído pelos meios de comunicação e de que forma atua na sociedade; assim:

“O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada. O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.” (Debord, Guy /1992)

E mais:

O espetáculo que inverte o real é produzido de forma que a realidade vivida acaba materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, refazendo em si mesma a ordem espetacular pela adesão positiva. A realidade objetiva está presente nos dois lados. O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.” (Debord, Guy /1992)


Pensando sobre as formas de construção da narrativa jornalística, li o site de Luis Carlos Azenha, Vi o mundo e encontrei um texto sobre “As 10 estratégias de manipulação midiática”, que consiste em: distração, criar problemas e depois oferecer soluções, gradualidade, diferir, dirigir-se ao público como se fossem menores de idade, utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão, manter o público na ignorância e na mediocridade, estimular o público a ser complacente com a mediocridade, reforçar a autoculpabilidade e conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

Analisando a forma como se instaurou o espetáculo midiático sobre o Rio de Janeiro, percebemos a forte presença do poder dos meios de comunicação na perpetuação daquilo que é selecionado como primordial, assim questiono: Sobre o que você tem mais informação: a violência no Rio de Janeiro ou a equipe econômica escolhida por Dilma Roussef? Dentre esses dois qual ocupa mais tempo no noticiário nacional? Cabe a nós criticamente percebemos tais formas de manipulação, perpetuação e leitura dos diversos recortes da realidade.

Assim, a cidade maravilhosa, tantas vezes cenário dos sonhos de todos os brasileiros, quando vemos as imagens belíssimas do Leblon nas novelas de Manoel Carlos; se torna palco de uma guerra civil que provoca conseqüências terríveis no cotidiano de todos.

De acordo com o site da Editora Abril, “Oito dos noves assuntos mais comentados entre brasileiros no Twitter na manhã de domingo fazem referência à operação da PM carioca contra traficantes do Rio. Neste momento, “Complexo” é o tema mais citado no trending topics Brasil. Os internautas comentam a invasão da polícia carioca e das forças armadas ao Conjunto de Favelas do Alemão. Os outros assuntos de destaque no microblog são: paznorio, BOPE, rio, vozdacomunidade, Marinha, Polícia Civil, Invasão e Fuvest, este último o único assunto sem qualquer relação com o confronto entre polícias e bandidos no Rio”.

Segundo o mesmo site, O BOPE do Rio de Janeiro tem utilizado o Twitter para criticar as emissoras Globo e Record na tarde deste domingo. Equipes das duas emissoras apresentavam ao vivo a operação que o grupo realizava na Vila Cruzeiro, na zona norte da cidade, para coibir a onda de violência.

Dessa forma, compreende-se que: “Os meios de comunicação de massa criam a partir daí uma realidade própria para que a sociedade se solidarize e crie novos critérios de julgamento e justiça conforme seus conceitos manipuladores”, explica José Alouise Bahia no site Observatório da Imprensa.

Por isso, assistir a violência instaurada nas favelas do Rio de Janeiro é ver um espetáculo midiatizado, com o intuito de coordenar a maneira de pensar e agir de toda a sociedade que é induzida pelos meios de comunicação de massa.

E, em todo o discurso construído e veiculado sobre a violência no Rio de Janeiro, onde entra a ética jornalística? Até onde os conceitos de objetividade e imparcialidade estão sendo utilizados? De que forma estão sendo selecionadas as imagens e conteúdos veiculados? Quais são os critérios e valores notícias utilizados?

Perguntas freqüentes, afinal, aprendemos que independente de qualquer fato ou situação, fazer jornalismo que é mostrar a realidade e devemos trabalhar constantemente a favor da sociedade. Nesse sentido, fazer jornalismo em uma época onde o sensacionalismo é que vende jornal e dá dinheiro não é fácil. Os conceitos de ética, imparcialidade e objetividade têm a cada dia se tornado conceitos e abordagens mitificadas nas salas e corredores das faculdades, a prática se afirma desvinculada da teoria.

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Última atualização em Ter, 30 de Novembro de 2010 09:09

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