Quinta-feira, 31. O rock ‘underground’ anunciou-se pelos arranjos bem entrosados de Anderson e sua banda, Projeto Plano B, que contou com as participações de Jairo, Samuel, e outros vocalistas que se arriscaram a contribuir com o set list da apresentação. Além disso, Rubão, o tocador de gaita e grafiteiro, pintava um banner simultaneamente ao show. Apesar do vocal não estar dos melhores, pois a equalização dos microfones não estava boa, as músicas foram executadas com muita agressividade, energia, vibração e entusiasmo, principalmente no momento que eles tocaram Strokes e Pink Floyd. Momentos marcantes da segunda noite cultural da Semana do Calouro, na UFMA.
A festa na universidade tinha hora para começar e acabar. Por isso, eu e meus amigos, combinamos de ir ao Boteco do Frei depois. Às 23h, meu tio Zé* apareceu no local, ficou por alguns minutos e avisou que seguiria para o bar, me chamando para ir logo com ele. Disse que eu ia só depois da noite cultural, junto com o pessoal, e então, nos encontraríamos lá mais tarde.
Foi aí que, mal acabara a apresentação na UFMA, nós já nos mobilizamos para ir para o bar. A noite prometia. Na quarta já tínhamos ido ao Boteco do Frei e foi tão bom que decidimos ir de novo. Despedi-me dos amigos “caretas”, pois estes não quiseram ir conosco e ainda tirei sarro deles por isso.
Estavam indo pro bar Maria*, Leo*, K.Saraiva*, Jef* e eu, a pé, pois o estabelecimento fica a quatro quarteirões da universidade. De moto, R.André* e Vytal*, foram na frente. Ao cruzarmos a avenida Godofredo Viana, passou uma moto com dois caras montados, que subiam a rua em alta velocidade. Olhei para eles, e percebi que o carona estava com a mão dentro da calça. Logo imaginei serem ladrões. Contudo, mesmo sendo criminosos, ainda tive esperança de não sermos assaltados. Nessa hora, Maria* disse: “Eles estão voltando”. Olhei para trás e de fato eles estavam fazendo o “balão”. Continuamos andando, só esperando saber o que eles queriam, pois não podíamos nos arriscar a correr, e de repente, sermos alvejados. Andávamos em cima de uma estreita calçada, portanto, praticamente em fila indiana, e eu era o último desta. Os bandidos se aproximaram de moto e disseram calmamente para pararmos, pois eles iam dar um “baculejo” na gente. Desceram, assim, da moto sem tirar o capacete, para justamente não serem reconhecidos.
Nessa hora eu vi um filme na minha frente.
“Hugo, já vou indo. Vamos logo pro boteco?” disse meu tio Zé*
Em casa, antes de sair, minha avó, disse:
“Você vai voltar como?”
Respondi que arranjaria carona.
Minha mãe, que mora em Marabá, me ligara na universidade por volta de 22h30 e também fez a mesma pergunta que minha avó, obtendo, assim, a mesma resposta.
Também me lembrei das recomendações que sempre recebi da minha mãe, sobre o que fazer no momento de um assalto. “Nunca reaja, entregue tudo a eles, aja com calma, pois se você ficar nervoso, os bandidos também ficarão e aí eles podem se descontrolar e atirar em você”.
Isso tudo em um lapso de segundos.
O bandido que pilotava a moto era alto, magro, negro, e estava desarmado, tenho certeza disso. Já seu parceiro era baixinho, forte, negro, e, apesar de andar em cima da moto com a mão por dentro da calça, indicando que ele estava armado, na hora do “baculejo”, suas duas mãos estavam livres, e em sua cintura não tinha nenhum volume de arma.
Eu fui o primeiro a ser revistado. Levantei os dois braços, e os coloquei esticado, horizontalmente ao meu corpo. O ladrão revistou meu bolso de trás, onde minha carteira se encontrava, e perguntou sobre meu celular, que estava no bolso da frente de minha calça. Apontei pra ele o local que guardei o aparelho telefônico móvel, e então, ele meteu a mão e pegou. Ao vasculhar minha carteira, o mesmo a abriu com lado onde ponho as cédulas para baixo, e, com intuito de colaborar com eles e desejando que aquilo acabasse logo, além de evitar levar um tiro, disse a ele que estava invertida e que o dinheiro encontra-se em baixo. Fui ridicularizado pelos meus amigos, após o assalto, por ter feito isso, no entanto, só segui as recomendações de minha mãe. Fiz um pedido ao assaltante que só deixasse meus documentos, e este disse pra eu ficar tranquilo quanto a isso. Então, ele retirou os 40 reais que tinha e me devolveu a bolsa.
Ao meu lado estava Maria*, vestida com um logo vestido vermelho com detalhes em azul, e sem algum bolso para guardar objetos. Por isso, os bandidos nem tocaram nela, assim como em K.Saraiva*, que se protegia por trás de Leo. Este parecia atônito na situação, e com as mãos no bolso, resistia para não entregar seus pertences. O assaltante mais alto estava se irritando com a atitude dele, e esboçou, inclusive, retirar o capacete, para usar de arma, mais uma prova de que eles não portavam revolver, faca ou congêneres. Foi aí que os professores da UFMA, Gehlen e Túlio e mais um amigo, passaram em um carro e pararam na esquina, mais à frente do local onde estávamos sendo assaltados. O rapaz, que não conheço, sentado no banco do carona, olhava para trás, talvez querendo saber o que estava acontecendo. Maria* fez um sinal sutil, com medo de chamar atenção dos assaltantes, para que fossem embora, mas eles não viram. E, então, também sinalizei, e os mestres, só assim, se foram.
Depois de ouvir conselhos de Maria* e K.Saraiva*, Leo entregou os 350 reais que tinha, distribuídos em vários bolsos, além de seu celular. Jef* foi o único que teve sorte, pois os bandidos não encontraram grana alguma em sua carteira, apesar desta conter 50 reais, escondido em um outro bolso e não no local onde tradicionalmente guardamos as cédulas. Seu celular também não foi encontrado, pois estava dentro de sua cueca.
Foi então que os bandidos, satisfeitos, nos mandaram ‘vazar’, sem nem olhar pra trás. E assim fizemos. O maior alívio que tive foi escutar o ronco do motor da moto ir gradativamente ficando menos intenso, indicando que eles já estavam longe. Fomos caminhando rumo à Beira Rio, ainda sem saber pra onde ir. K.Saraiva estava muito nervosa e chorava e Leo tentava lhe acalmar. A reação de Maria* foi atípica (apesar de para mim já não ser tão estranho assim, pois já a vi assim antes em situações parecidas). Ela sorria, ainda tentando entender a situação. Estava muito nervosa e dizia achar que conhecia um dos assaltantes.
Na esquina da academia Imperatrizense de Letras, encontramos um jovem, que se vestia modernamente, com calça jeans apertada, cabelo liso, penteado de lado, com uma leve queda sobre a testa, além de uma jaqueta preta sem mangas e camisa, por dentro, cor de salmão. Este dizia ter sido assaltado há poucos minutos e perguntou se também tínhamos sido. Respondemos que sim. O jovem disse que havia chamado a polícia e que sabia a placa da moto. Seus amigos, que foram assaltados juntos com ele, estavam mais à frente no quarteirão. Nos reunimos para esperar a ronda. Logo em seguida os professores da UFMA retornaram, perguntando se já tínhamos chamado a policia. Dissemos que sim, mas eles acharam melhor chamar a polícia do bairro, pois ela chega mais rápido. E então foi feito.
Em 10 minutos, mais menos, chegou a policia. Contamos a eles os detalhes mais relevantes, e demos o número do Jef* caso fossem encontrados os nossos pertences. E, depois de colherem os dados, foram embora. Em seguida chegou a policia do bairro. Fizemos outra denúncia, já pra reforçar a operação. Eles informaram que já sabem de várias ocorrências, só naquela noite, destes assaltantes, e que eles escolheram a região pelas inúmeras casas de show que tem, aproveitando a saída das pessoas das baladas, e realizarem os assaltos.
Voltamos a UFMA para arrumar carona, e não havia quase ninguém mais lá. Maria* ainda conseguiu, mesmo assim, alguém pra levar a K.Saraiva de moto. Leo foi pra casa a pé. Maria, Jef* e eu fomos para a praça de Fátima pegar um mototáxi. Ao chegarmos lá, tinha exatamente, três mototaxistas. Jef*, que era o único que tinha dinheiro, pagou os motoqueiros, que cobrou sete reais de cada um. Maria* achou caro, e disse que, inclusive, era um ‘roubo’ aquele preço. Que ironia não?! Mas, Jef* e eu, entendemos o preço e convencemos Maria* a aceitar ir por esse valor. Depois de muita luta ela aceitou ir.
No caminho para casa, o motoqueiro me contou uma história parecida sobre um jovem, que saía da Texana, e também teve a mesma reação de Maria* ao saber do preço da corrida. Este achou tão caro o preço que resolveu ir a pé para casa. E, a vida lhe reservou uma surpresa, pois, uns assaltantes apareceram e lhe roubaram dinheiro, celular e relógio. Logo depois do assalto, o mototaxista, passou, e o rapaz levantou a mão pedindo, desesperadamente, que o levasse em casa. O motoqueiro atendeu ao pedido, e lembrou-lhe de sua atitude mais cedo, quando o acusou de estar roubando.
Ao chegar em casa, agradeci ao mototaxista, pedi desculpas pela atitude de Maria*, dizendo que ela só estava nervosa com tudo que aconteceu. O motoqueiro entendeu e se foi.
O mais incrível nisso tudo, é que, no dia seguinte, 1 de abril, Maria*, quando ia para a UFMA, por volta de 14h20, foi novamente assaltada. Sua reação no momento deste segundo assalto foi, mais uma vez de sorrir perante o desespero e a ironia da situação. Os bandidos questionaram qual seria a piada. Ela contou que tinha sido assaltada no dia anterior. No fim, dessa vez, levaram dela 14 reais, e felizmente, não houve danos maiores.
Sobre essa situação caótica, (sobre) vivemos, e enquanto as instituições competentes não reforçarem a segurança na região, que clama por proteção e paz, que a sorte esteja ao nosso lado.
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