Imperatriz Notícias

Sex05182012

Last update12:29:13

A Universidade Pública forma jornalista competente

  • PDF

Palavras - chave: Jornalismo, Mercado, Formação

Bonner penhaBonner penha

O romance Memorial de Aires foi o último livro publicado por um dos mestres da literatura brasileira, Machado de Assis, conhecido também como o Bruxo do Cosme Velho, tradicional bairro histórico do Rio de Janeiro, por onde o genial escritor caminhava, sombriamente. A publicação aconteceu no início do século XX, mas precisamente em 1908, ano da morte de Machado e abordava os idílios amorosos e as futilidades de personagens pertencentes à elite brasileira no final do século XIX. Os estudiosos afirmam que foi nesse livro que o escritor mais expôs os seus valores subjetivos, fugindo a sua característica mais marcante: a isenção narrativa.

O Conselheiro Aires tinha uma característica específica de personalidade e dizia: “Sofro de tédio a controvérsia”. Essa é uma máxima interessante hoje, num mundo em que as pessoas adoram polemizar. Em várias situações ensino aos meus alunos na graduação a agir de acordo com a premissa de Aires, mas quando, uma diferença precisa ser esclarecida, sinto-me obrigada a esgrimir argumentos. Como lembra o filósofo, escritor e jornalista Leandro Konder, professor titular da PUC do Rio de Janeiro, no livro Memórias de um Intelectual Comunista, o esclarecimento não pode se resumir a cascudos e pancadas. É necessário desenvolver uma arte específica para discutir, reconhecendo as complicações. E a dialética é mestra em criar situações nas quais as diferenças proliferam e os esclarecimentos resvalam na ambiguidade.

No mês de fevereiro de 2010 o ‘telejornalista’ William Bonner - como ele se definiu na GNT-, numa entrevista à Marília Gabriela, falou sobre vários assuntos, desde o processo da pauta até a apresentação do JN, passando pelas questões da vida pessoal, como é comum nesses programas. A emissora reprisou o programa que foi exibido, em setembro de 2009, na época do lançamento do livro de sua autoria: Jornal Nacional – Modo de Fazer, com selo da Editora Globo. Com a desenvoltura e carisma que são necessárias para quem está todos os dias na bancada de um telejornal, que faz parte da história da televisão brasileira e está no ar desde 1965, ou seja, há 45 anos, a entrevista despertava a curiosidade dos assinantes, principalmente para nós que somos jornalistas e professores dos cursos de comunicação.

William Bonner, disse no programa que ”As universidades públicas formam pessoas de esquerda e que deveriam formar melhores profissionais”. Segundo ele, a argumentação é baseada na sua experiência com os “coleguinhas” recém-formados que chegam às redações da rede globo diariamente. É uma afirmação para se pensar, repensar, ler e escrever sobre o assunto. Afinal, uma categoria não exclui a outra. Sabemos que a identidade do jornalista como analista social vive uma crise e que estamos também nesse fórum para refletirmos sobre essa e outras questões. É importante lembrar que Wiliam Bonner é formado pela Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo. Porém, essa não é a primeira vez que o editor-chefe do Jornal Nacional faz afirmações equivocadas e que podem comprometer a história do jornalismo brasileiro.

Há cinco anos, em dezembro de 2005, durante uma reunião de pauta do JN, para a qual foram convidados professores da ECA, da USP, o ex-aluno dessa escola esqueceu que estava diante também de jornalistas experientes, entre eles Laurindo Lalo Leal Filho. Na redação do Jardim Botânico, na zona sul do Rio, onde funciona a sede da TV Globo, William Bonner, comparou o telespectador do Jornal Nacional ao Homer Simpson, simpático, mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

O preço da ingenuidade custa caro; Lalo escreveu uma matéria para a Carta Capital, a repercussão foi imensa nas redações, nos sites e no meio acadêmico, com discussão nas principais universidades do país. Em segundos, o texto circulava na internet. Enquanto isso, segundo depoimentos de ex-alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde lecionei durante três anos, funcionários da TV Globo foram orientados à recolher os exemplares da revista nas bancas próximas ao prédio da emissora na arborizada rua Lopes Quinta.

Outro deslize da vaidade do “coleguinha” aconteceu durante um debate eleitoral em que mediava em 2006 com candidatos à Presidência da República. O tom do apresentador de “tio repressor”, instigou o jornalista e escritor, Mauricio Dias a escrever um artigo sobre os “pitos” do Tio Bonner. Mais uma vez a polêmica estava em todos os setores da mídia.

Nas eleições de 2010 para a Presidência da República que teve também na disputa duas mulheres candidatas ao cargo – Dilma Roussef e Marina Silva – durante as entrevistas o apresentador William Bonner passou longe da polidez como define o filósofo francês André Comte-Sponville, no livro Pequeno Tratado das Virtudes. E, Bonner não fez nenhuma questão de disfarçar seu autoritarismo quando foi realizado o debate no segundo turno entre Dilma Roussef e José Serra. Ao candidato tucano pedia desculpas com cordialidade e sensatez, enquanto com a futura Presidenta era truculento e arrogante.  Mas, as redes sociais estão aí e desempenham seu papel na informação democrática. Rapidamente o editor-chefe do JN passou a ser chamado na internet de Pitbonner.

O pesquisador Muniz Sodré, da Escola de Comunicação da UFRJ, enfatiza que é somente a partir do século XIX que registramos o emprego da palavra “jornalista” para designar o profissional da informação pública. Na perspectiva dos pensadores liberais seria conspícua a missão do jornalista na promoção da cultura e da liberdade de expressão.

A instituição jornalística zela, assim, pela pedra de toque das relações de confiança entre o público e o jornal e, portanto, o principal capital do jornalista – a credibilidade. Esta decorre de um pacto implícito entre o profissional da informação e o leitor. E um pacto produzido pela bandeira da objetividade, fincada no solo da cultura jornalística desde meados do século XIX, quando se começa a fazer uma distinção entre texto opinativo e notícia, certamente com um rescaldo da fé iluminista no conhecimento objetivo. (M.S)

No artigo A deriva dos factóides, Sodré analisa o imenso número de páginas e páginas de jornal sobre várias coberturas, como o caso da guerra do Iraque, pelo New York Times em que o beneficiado foi o então presidente norte-americano, George Bush, para justificar a invasão das tropas dos Estados Unidos do país adversário em 2004. Nesses e outros casos os editores argumentam que “não fomos tão rigorosos como deveríamos”. O texto mostra também que o factóide - algo que parece, mas não constitui um fato – não é apenas uma característica do jornalismo. O filósofo francês, Bernard-Henry Levy, autor de 34 livros admitiu no jornal Le Monde, recentemente, ter “chutado”, a propósito da citação de um autor que não existe. Parece que a modernidade acentuou a leviandade das pessoas nas mais diferentes áreas de atuação.

Se pensarmos historicamente a imprensa brasileira encontramos nomes importantes de profissionais competentes e progressistas como Perseu Abramo, Cláudio Abramo, Silvio Júlio Nassar, entre outros. Silvio Júlio, ou Julinho, como era conhecido entre os coleguinhas do país, morreu precocemente, aos 49 anos. Tive o privilégio de aprender com ele nas redações da TV Globo e TV Manchete, no Rio. Formado em filosofia e jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro conhecia televisão como poucos jornalistas no Brasil. Foi editor do Jornal Nacional, Jornal Hoje, Fantástico, entre várias outras funções de chefia que exerceu na emissora do Jardim Botânico e é citado com respeito em todas as publicações das Organizações Globo, como no livro Jornal Nacional- A notícia faz história.

Erudito e dono de um humor refinado, escreveu o livro Mil Perguntas Sobre Televisão e na década de oitenta passou a conciliar o jornalismo das redações com a profissão de professor nos Curso de Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e na PUC – Rio. O ofício de formar futuros jornalistas o apaixonou e ele instigou esse sentimento em alguns colegas, como essa autora que foi amiga dele até o final da vida.

O último trabalho em televisão de Silvio Júlio foi como editor-chefe do Programa de Domingo, na TV Manchete, que disputava audiência com o Fantástico, apresentando uma revista eletrônica com qualidade, informação e sofisticação nas noites de domingo, sob a direção geral de Jayme Monjardim. Julinho driblava a linha editorial das organizações Bloch com a argumentação de que era preciso informar o telespectador. Sempre com a ironia elegante que só os sábios possuem, como escreveu Mário Quintana. Certa vez me confidenciou que na morte de Mao Tse Tung, em 1976, Armando Nogueira, o competente e então jornalista responsável pelo JN, mudou o texto que foi escrito da seguinte maneira: “Morre o grande líder do povo chinês: Mao Tse Tung”.

Armando Nogueira achou mais prudente fazer cortes. Primeiro riscou grande, depois líder e a seguir povo chinês. A lauda foi para o apresentador com essa manchete: Morre Mao Tse Tung. Julinho falou para o chefe que sua mãe não sabia quem era Mao Tse Tung. E sempre discutia com os alunos de jornalismo e colegas iniciantes nas redações que lidar com a revisão dos textos e mudanças nas edições é uma prática cotidiana.

O jornalista, pesquisador e professor Perseu Abramo, autor dos livros Padrão de Manipulação na Grande Imprensa e Trabalhador da Notícia, fez parte da implantação da UNB, lecionou na UFBA e na PUC – SP, no curso de Jornalismo. Como jornalista trabalhou na Folha de São Paulo e no O Estado de São Paulo, Editora Abril, TV Globo, Revista Visão, entre outros. Pertenceu aos quadros do Partido dos Trabalhadores até o fim da vida e hoje dá nome a Fundação Perseu Abramo. Seus alunos que hoje estão no mercado de trabalho e alguns em Universidades afirmam que tiverem verdadeiro Mestre na formação profissional, sem doutrinar politicamente.

O paulista Claudio Abramo é descendente de uma família com influência na arte, na política e na imprensa brasileira. Morreu em 1987 aos 64 anos, e um ano mais tarde a família publicou o livro A Regra do Jogo, uma autobiografia com alguns artigos sobre política assinados por ele e tido, hoje, como um dos manuais nas escolas de jornalismo do país. Foi o jornalista responsável por mudanças no estilo e formatação de dois importantes jornais do país: O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, onde foi também correspondente internacional e assinou uma das mais lidas colunas sobre política. Estudou na Escola de Altos Estudos Sociais e Políticos, de Paris, mas não concluiu. Foi professor da Pós-Graduação do Departamento de Jornalismo e Editoração, da ECA, da USP. Os “herdeiros” formados por Cláudio têm profundo respeito e admiração. Embora William Bonner tenha estudado nesta escola parece não conhecer o trabalho de Cláudio Abramo.

As reformas que implantou na Folha influenciaram os rumos do jornalismo nacional na década de 70. Por conta do seu perfil de homem de esquerda foi afastado do jornal em 1979, a pedido do Ministro do Exército, General Silvio Frota. Para os que conviveram com ele ficaram as marcas intensas de um grande mestre do jornalismo, sem a imposição dos dogmas que acreditava.

Em versão mais atualizada temos nomes de jornalistas competentes e com compromisso social: temos Mino Carta, Mauricio Dias e Gilberto Nascimento entre outros na imprensa escrita. Em televisão, especificamente na reportagem da TV Globo e canais por assinatura como GloboNews e GNT, alguns coleguinhas nos orgulham como Sandra Passarinho – primeira correspondente internacional da emissora com a cobertura da Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974 - Edney Silvestre, Caco Barcellos, André Trigueiro e outros.

Por conta dos rumos que o mundo e o jornalismo tomam nesse momento da história, fazem-se necessárias reflexões sobre uma nova ordem mundial – como escreveu em uma canção o compositor Caetano Velloso – com o fracasso do neoliberalismo como nos apresenta a autora do livro Sem logo - A tirania das marcas em um planeta vendido de Noami Klein. O livro denuncia em mais detalhes os efeitos nocivos do branding, além das práticas de extorsão e exploração no trabalho de corporações como Nike, The Gap, Microsoft e McDonalds. A obra tornou-se rapidamente um dos maiores manifestos do movimento antiglobalização.

A jornalista canadense e doutora em Direitos Civis pela Universidade King’s College de Nova Soctia, Noami Klein afirma que a propaganda neoliberal procura em pessoas livres o que eles chamam de mercado livre. A teoria do mercado livre está baseada na ideia de que as sociedades devem ser organizadas de tal maneira, a permitir que as pessoas que defendem alguns interesses específicos, como melhoria de trabalho, manutenção de serviços públicos, entram em ação as medidas de exceção.

Segundo Klein, a democracia e neoliberalismo entram diretamente em conflito. A autora do livro A Doutrina do Choque – Ascensão do Capitalismo de Desastre analisa a relação dessas reações com a teoria de choques econômicos, propostas por Milton Friedman, sua teoria tem semelhanças terríveis com as técnicas de torturas da CIA descobertas recentemente.
A terceira obra da jornalista Noami Klein discute a história recente dos golpes militares da América Latina, em especial o Chile do governo Pinochet, onde ocorreu o “laboratório vivo” e a implantação das ideias radicais de Friedman. Klein sugere no livro que a alternativa para o neoliberalismo pode surgir com os governos progressistas da América Latina, inclusive no Brasil.

Os exemplos citados nesse texto apresentam a reflexão teórica sobre o jornalismo e a trajetória de importantes profissionais, pesquisadores e professores do curso de Jornalismo na graduação e na pós-graduação, nas mais diferentes universidades. Pelo visto, eles nunca esconderam e nem pretendem, a sua opção política e seus valores humanistas. São profissionais competentes que fizeram história na imprensa nacional e deixaram uma obra. Por isso, a afirmação do editor chefe do Jornal Nacional de que as universidades públicas formam pessoas de esquerda e deveriam formar melhores profissionais é “infeliz”; como escreveu o poeta Cazuza: “Suas ideias não correspondem aos fatos”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Ed. Martins Fontes.1996. São Paulo.
KLEIN, Noami. A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo do Desastre. Ed. Nova Fronteira. 2008. Rio de Janeiro.
___________ Sem Logo. A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido. Ed. Record. 2001. Rio de Janeiro.
KONDER, Leandro. Memórias de um intelectual comunista. Ed. Record. 2008. Rio de Janeiro
LEAL FILHO, Laurindo Leal. De Bonner para Homer. O editor chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como espectador padrão do Jornal nacional. Carta Capital, Revista, nº 371, 7 de dez. 2005. São Paulo.
MOREIRA, Sônia Virgínia. (org.) Mídia, ética e sociedade. Coleção INTERCOM de comunicação. Vol. 18. 2004. São Paulo.
SOCHA, Eduardo. Resistindo ao choque. Cult, Revista, nº125, 2008. São Paulo.
SODRÉ, Muniz. A Deriva dos Factóides. Observatório da Imprensa. 23/02/2010
acessado: 25 de fev. de 2010. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=578JDB002
ZAHAR, Jorge. Jornal Nacional – A notícia faz história. Memória Globo. Ed. Zahar. 2004. Rio de Janeiro.

* Penha Rocha, jornalista, pesquisadora e professora adjunta da Universidade Federal do Maranhão. “As estratégias de comunicação da Igreja Universal do Reino de Deus” é a pesquisa de doutorado da Escola de Comunicação da UFRJ.

Adicionar comentário


Última atualização em Ter, 30 de Agosto de 2011 10:56

O Imperatriz Notícias é um projeto de extensão vinculado ao Curso de Comunicação Social - Jornalismo da UFMA de Imperatriz
jornalismo.ufma.br/itz/