Maria Lília Silva Diniz, mais conhecida como Lília Diniz, é atriz, poetisa e autora, tem 37 anos e é natural de Tuntum (MA). É avó de Morgana de dois anos e meio e mãe de três filhos, Victor de 20 anos, Valéria de 19 anos (mãe de Morgana) e Alice de 14 anos. Já lançou três livros: Babaçu, Cedro e outras Poéticas em Tramas (poesia); Miolo de Pote da Cacimba de Beber (poesia) e Ao Que Vai Chegar (conto). Ainda este ano pretende lançar mais dois livros.
Lília Diniz já morou em vários lugares, tem Licenciatura em Artes Cênicas pela UnB (Universidade de Brasília) e é membra da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) desde 2007. Contribui na formulação de políticas públicas para cultura do município sendo uma das coordenadoras da Fundação Cultural de Imperatriz.
Participa do Fórum Permanente de Cultura de Imperatriz e do Fórum Estadual de Cultura, representando a mesorregião oeste. Faz parte do movimento que ocupou o prédio da antiga Biblioteca Pública de Imperatriz, o Ocuparte. E também é uma das fundadoras do Fórum de Cultura do Distrito Federal.
No dia 11 de agosto, Lília fará a gravação de um DVD em Brasília, o Miolo de Pote em Cantigas e Versos. O espetáculo, que é resultado de apresentações feitas ao longo de cinco anos em cafés, faculdades e escolas, acontecerá às 20h no Teatro do Sesi de Taguatinga Norte – Quadra Norte F, Área Especial 24.
Em Miolo de Pote, Lília espera que as pessoas possam se divertir tanto quanto ela, quando ela está no palco e espera tocar as pessoas com o jeito de ser maranhense. A atriz dá mais detalhes de outros espetáculos, fala de poesia, de suas andanças, cultura e política, confira:
Em quais lugares você já morou?
Quando criança morei em Alto Alegre, povoado de Barra do Corda (onde aconteceu aquele conflito entre índios e não índios em 1901, resultando na morte dos moradores e missionários). Vim para Imperatriz com 7 anos de idade. Aos 18 fui morar no Rio Grande do Norte. De 1994 a 1996 morei em Açailândia, quando fui para Brasília. Retornei para Imperatriz ficando dois anos. Divido minha vida agora entre Imperatriz e Brasília.
Mora em qual bairro de Imperatriz?
Santa Rita. Passei minha infância naquela região, é referência na minha formação cristã (teologia da libertação) e política. Parte da minha família mora lá. Somos 10 irmãos, 5 moram lá.
Algo marcante em suas poesias é uso de expressões regionais. Por quê usá-las?
As expressões que uso são expressões naturais do nosso linguajar interiorano. Aprendi falar usando as palavras que utilizo na minha poesia. Quando comecei escrever queria escrever algo que retratasse nossa identidade, quando conheci Cora Coralina, digo sua poesia, pude perceber que era possível. Fiz disso uma busca e tenho exercitado pesquisa constante de palavras que já estão em desuso e que meus pais, meus tios e uma grande parte do povo dos interiores do Brasil falam, e que são entendidas, por muita gente, como modo de falar errado. Cora disse em um de seus poemas: “Minha bisavó falava no antigo, e eu assimilei aquele jeito de falar e todos diziam que era errado”, isso representa muito pra mim, e funciona como nosso código secreto, assim como em Minas, Rio Grande do Sul e outros estados brasileiros tem seus códigos de linguagem.
Comente sobre o livro "Miolo de Pote da Cacimba de Beber".
Esse livro é uma grande benção na minha vida. Se o primeiro livro me abriu portas, Miolo de Pote me abriu cancelas, janelas, céus... é um livro que traz uma característica própria e tem recebido boas criticas de vários entendidos de literatura no Brasil. Tem historias engraçadas de pessoas que compram e o livro é levado por algum amigo que não devolve, ou alguém que teve que dá de presente e ficou sem, outros que somem, e eu me divirto e acho muito bom saber que é “objeto de desejo”(risos).
Já está na quarta edição, todas as tiragens de mil cópias. Tenho uma grande felicidade de ter meu pai, que é lavrador e artesão e que faz as caixinhas do talo de buriti que aconchegam o livro. Além das ilustrações da Manoela Afonso e da Bia de Melo, minhas amigas gravuristas que deram mais beleza ao trabalho.
Fale sobre o espetáculo "Miolo de Pote em Cantigas e Versos".
Este espetáculo teve sua estréia no Teatro Ferreira Gullar, em Imperatriz em 2006. A direção foi da Anameire Araújo, a produção do maestro Geovane Pietrrin e tive a felicidade de contar com o Aziz Bahury, o Júnior Schubert, Zeca Tocantins, seu Marcelino, Seu João da Cruz, dona Francisca e dona Alice (quebradeiras de coco), e um grupo de quatro atores, que me deram suporte no palco.
Em Brasília não poderei ter todos eles, mas contarei com outros músicos que tem a generosidade de me acompanhar e alguns poetas e cantadores que cantam o nordeste brasileiro pelo Distrito Federal.
Algumas escolas estão entrando em contato para participarem, além do público que tem cumplicidade com o trabalho e os amigos que farão do teatro um pedaço do Maranhão.
Como é a receptividade do povo imperatrizense em suas apresentações?
O povo de Imperatriz é generoso com todo e qualquer artista. Comigo não poderia ser diferente, tenho ido à escolas e participado de alguns eventos na cidade e sempre sou muito bem recebida pelas pessoas, que se identificam com a poesia e a música que proponho. Não tenho do que reclamar.
Como é a receptividade do povo de Brasília e de outros lugares?
O maior termômetro que tenho desta receptividade é a venda do livro Miolo de Pote, já vendi mais de três mil livros, o que é uma feita para uma artista que não dispõem da grande mídia e não reproduz o que essa mídia sugere. Diz um amigo meu que só os “monstros” da poesia conseguiram tamanha façanha (risos).
Em quais locais você já se apresentou?
Já circulei por alguns estados brasileiros, tais como São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí, Tocantins, Rio Grande do Sul e Goiás. Passei por grandes teatros, escolas e outros lugares inusitados, em todos eles a platéia sempre foi muito receptiva, o Maranhão é meu passaporte.
Qual o nome dos espetáculos anteriores? Tem a participação do público?
Em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados acontecem muitos saraus em bares e cafés, os poetas circulam em escolas e faculdades tirando a poesia da estante e declamando, lendo ou interpretando poemas para estudantes. Nestes espaços tenho falado em especial, poemas do livro Miolo de Pote, poemas de Patativa do Assaré e os de Cora Coralina, que fazem parte do espetáculo Cora Dentro de Mim. Além de cantar umas cantigas de minha autoria que permeiam o espetáculo Miolo de Pote, usando um pandeiro para florear a apresentação.
Circulo com o espetáculo Cora Dentro de Mim desde 2002, é um espetáculo construído com poemas de Cora Coralina; circulei três anos com um espetáculo de mamulengo no grupo Roupa de Ensaio-DF; e o mais recente foi um espetáculo especial em minha vida, chamado Folhas de Outono, pude dividir o palco com um dos melhores mímicos da América Latina, Miquéias Paz, em um espetáculo sem falas, só imagem, e de uma beleza impar, com ele concorremos no prêmio Candango de Teatro.
Existe um tema central para todos? Ou cada um tem um tema específico?
Quando o trabalho é relacionado à poesia procuro focar no tema regionalista, falo poesias de Patativa do Assaré, Cora Coralina, Louro Branco e minhas. Até sei poemas de outros poetas, mas guardo para situações especificas. Gosto de falar das coisas simples e com linguajar simples, que seja assimilado tanto pelo analfabeto quanto pelo doutor.
Você faz apresentações ao ar livre?
Faço e gosto muito, a rua é um espaço democrático que põem você à prova em várias situações. Como a platéia é livre ela sente-se no direito de aplaudir ou vaiar, no caso do teatro, a platéia é “ensinada” a aplaudir, e aplaude inclusive espetáculos de baixa qualidade. A rua é uma escola para improviso e termômetro para o ator/atriz/brincante.
Agora em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, estamos passando por um processo de privatização da rua. Os artistas não tem mais a mesma liberdade, tem que ter autorizações diversas, tá esquisita a situação, mas os artistas de rua são livres e logo vão dá uma resposta a essa ditadura.
Qual a importância das apresentações fora do teatro?
Comecei fazendo teatro na igreja, na escola e depois na rua. Minha formação em teatro se deu primeiro na rua para depois ir para faculdade, logo tenho a vocação de camelô, de feirante, de artista de rua. Na década de 90, conheci o movimento Escambo de Teatro de Rua, que existe até hoje, faço parte da rede. Em 1994 quando da minha volta para o Maranhão, eu e o poeta Jorge Gonçalves, lideramos um movimento de teatro de rua, criamos grupos de teatro passando de Itinga até Loreto, formando um total de 15 grupos no movimento Resgate de Teatro de Rua.
Em uma cidade como Imperatriz, que não dispõem de equipamentos culturais, digo teatros, galerias, cinemas e outros, a ocupação da rua poderia ser uma forma, de além de reivindicar por estes espaços convencionais, ser uma grande vitrine do que temos de produção cultural na cidade, e temos muitas, afirmo sem medo.
Democratizar o acesso à produção cultural de qualidade é um grande desafio, pois o que chega até as pessoas é o que a mídia determina, que elas tem que consumir e gostar. Alguns artistas reclamam e põem a culpa no povo, mas como ele pode gostar do que não ouve e não vê? Como ele pode ouvir um cd de Zeca Baleiro, que custa trinta reais, se ele é estimulado ouvir Sthefanny que custa cinco? Como culpar o adolescente que não recebe uma aula na escola, de um professor formado em artes, que discuta estética, arte e cultura?
Qual foi o lugar mais inusitado em que você já fez apresentações?
Já fiz uma apresentação em um grande canteiro de obras para trabalhadores da construção civil que ficou marcada, no final olhar aqueles homens do trabalho pesado, chorando e vindo me abraçar foi muito forte. É que a apresentação era voltada para o estimulo para alguns voltarem para escola.
O que você acha da cultura de Imperatriz?
Ainda temos muito que descobrir sobre nosso potencial cultural. Temos gente de vários estados brasileiros, é um indício que temos muita coisa boa engavetada. Infelizmente o poder público ainda não se ateve para esse potencial a ser explorado, e as pessoas que vem de outras regiões ficam “despatriadas”, sendo obrigadas a engolir somente o lixo cultural da grande mídia. Como não existe o estímulo, não existe uma política pública voltada para a valorização da diversidade e só existe um tipo de oferta de música, de opção de cinema e do que é alienante, ficamos nessa discussão sobre a cidade ter ou não ter cultura.
O que você tem a dizer sobre a frase que algumas pessoas costumam dizer: "Imperatriz não tem cultura!"?
Se partirmos do principio que cultura é toda produção humana ligada a arte, ao trabalho, religiosidade e comportamento, então essa é uma das mais violentas frases que se pode dizer a respeito de qualquer cidade ou povo. Aqui temos cultura saindo por todos os poros, se pegarmos o simples exemplo do pescador que confecciona sua rede, que conhece o rio ao ponto de saber se estar bom ou não para pesca, as histórias que ele perpetua, seu jeito de se relacionar com a comunidade na qual vive, só nesta figura teríamos vários aspectos da cultura a ser explorado. Acontece que muita gente acha que só quem produz cultura é o artista, o que não é verdade.
Temos por exemplo no imaginário de muita gente, arraigada, a imagem que Imperatriz tem a cultura da violência e se formos estudar a fundo, veremos que este comportamento está ligado a formação da cidade, àqueles que vieram, a forma como vieram e como foram recebidos pelos que já estavam aqui.
A mulher que faz panelada, o sanfoneiro, o vendedor ambulante, o carroceiro, o médico, o advogado, a professora e todo ser social produz cultura, se ela contribui para o desenvolvimento humano ou não, é outra história.
Quais suas considerações acerca das políticas públicas de Imperatriz em relação ao estímulo cultural?
O órgão gestor de cultura no município de Imperatriz é a Fundação Cultural, da qual faço parte hoje, que ainda não acertou o passo para uma gestão que dê conta, de fato, das demandas da cidade. Isso não é exclusividade de nossa cidade. Poucos órgãos gestores conseguiram sair da situação viciada, do modo equivocado de lidar com a produção cultural.
Temos discutido e avançado em alguns aspectos. Já elegemos o conselho que ficou por 4 anos desativado, embora ainda não tenhamos dado conta de dar posse aos mesmos, para que cumpram sua tarefa de fiscalizar e propor políticas públicas para o município. Realizamos a II Conferência Municipal de Cultura que traçou várias diretrizes para uma gestão democrática, descentralizadora e que pense a cultura em suas várias dimensões. O investimento em cultura em 2009 chegou a mais de um milhão de reais, vários grupos foram contemplados, entretanto falta ainda avançar para aprovação da Lei que cria o Sistema Municipal de Cultura e o a Lei de Incentivo à cultura, caso contrário ficaremos fora das novas diretrizes traçadas pelo Ministério da Cultura no campo da gestão cultural.
De qualquer modo ainda estamos nos primeiros anos de gestão deste governo, e espero sinceramente, que possamos avançar além do campo da produção de eventos, para deixarmos de modo consolidado políticas públicas que garantam o fomento da cultura para as próximas gerações.
Qual a importância da Academia Imperatrizense de Letras para a região?
É uma referencia para os escritores da região, mas precisava se abrir mais para ações de incentivo a leitura e a formaçao de novos escritores. A região produz muito, temos muitos escritores desconhecidos e muita coisa pode ser feita em parceria com as escolas, entretanto as academias em geral não conseguem ir além da propria estrutura. A AIL até faz o Salão do Livro, mas somente isso não consegue alcançar o que poderiamos ter de resultados com ações de menor investimento e com maior cuidado com a formação de leitores críticos.
O que você tem a dizer sobre o número de mulheres participantes da AIL?
As mulheres ainda estão se inserindo nos espaços que tradicionalmente foram ocupados pelos homens. Na AIL temos seis mulheres, ainda é pouco. É o reflexo do que temos na sociedade, mas tem muitas mulheres escrevendo na cidade, embora nem todas publiquem.
Além de você e de Zé Geraldo tem mais algum membro da AIL que participa do Fórum de Cultura ou de movimentos socias em favor da cultura?
As academias não tem o perfil de fazer embates políticos, os fóruns nascem do movimento social organizado para, além de propor, também criticar e denunciar a ausência de políticas pública para determinado setor. Da AIL somente eu e Geraldo fazemos parte do fórum, talvez pela nossa história de ativistas que antecede nossa entrada na AIL. Venho do movimento de bairros, de grêmio estudantil, de luta pela reforma agrária e do movimento de mulheres, então é natural que permaneça com tanta inquietação, ainda que esteja dentro de uma instituição tradicionalmente conhecida como recanto dos senhores e senhoras que detém a imortalidade e o conhecimento, e que se encontram para o chá da tarde. Não conheço história de academia de letras que saia do perfil tradicional, a não ser a "Academia Marginal de Letras", no RJ que vem realizando ações nos morros e em diferentes espaços, popularizando a poesia e a música (risos). Mas isso é coisa de marginal. Estive com eles este mês de julho e me deliciei poetando coisas de nossa terra.
Sobre o Ocuparte, quais os resultados? As reivindicações do movimento foram atendidas?
O Ocuparte foi uma ação do Fórum Permanente de Cultura. Lutamos pela preservação do prédio e para evitar uma obra meramente eleitoreira, e fomos além, conseguimos na Justiça o tombamento do prédio, que será o primeiro prédio tombado da região. No governo anterior tivemos uma vitória que foi a aprovação da Lei de Proteção ao Patrimônio, proposta nossa votada e aprovada pela Câmara de Vereadores, embora tenhamos algumas restrições ao texto final, e já estamos discutindo para ser alterada.
Fizemos um acordo na época e cumprimos a risca, entretanto o poder público até o momento não deu conta da sua responsabilidade, que passa pela recuperação e destinação do prédio para atividades culturais e abertura do processo de tombamento.
Este ano o movimento teve duas reuniões com o governo reivindicando a recuperação do prédio. Conseguimos garantir a destinação do prédio para a tutela da Fundação Cultural e uma licitação está sendo feita para reforma do mesmo, estamos esperando o processo que é vagaroso, mas com muita determinação das entidades que compõem o Fórum está andando, e logo teremos o prédio entregue reformado e tombado a quem lhe é de direito: o povo de Imperatriz.
Algumas poesias de Lília Diniz estão disponíveis em seu blog. Para saber o que ela pensa sobre Arte, Cultura e Comportamento navegue no Pensando Cultura. Entre em contato através do e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .
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Comentários
Clarícia Dallo, belíssima entrevista. Te aplaudo.
viva a poeta.
Flor... de ipê... amarelo!!
Amo tu!!
Serviço bem feito! =*
abraços