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Adoção, ato de amor e responsabilidade

Adoção, ato de amor e responsabilidade

FINAL adoção foto PARA IMPERATRIZ NOTÍCIAS

Humberto Cândido (à direita): reflexões sobre ser pai

“A pessoa tem que ter certeza que quer adotar, que vai dar amor e proporcionar tudo que estiver ao seu alcance”, ensina Humberto Cândido, pais de cinco filhos, sendo dois adotivos

Nesta entrevista para o projeto Coletivas, da disciplina Técnicas de Reportagem do Curso de Jornalismo/UFMA, você vai conhecer os desafios da adoção através da história de vida de Humberto Cândido Soares, pai de cinco filhos, sendo três biológicos e dois adotivos. Filho de mineiros, mas nascido em Anápolis (GO), se casou com Adriana Guidolin Monteiro Soares e foi morar em Imperatriz (MA), lugar onde nasceram seus três filhos biológicos, Brunno Arthur, Caio Phillip e Paulla. Anos depois, quando Humberto estava em uma viagem de negócios no Pará, soube que uma pessoa deixou em sua porta, em uma caixa de sapatos, um bebê de apenas três dias de vida. Após alguns dias, a mãe biológica da criança apareceu e a levou. Mas, com quarenta e cinco dias, retornou com o recém-nascido para a casa de Humberto Cândido. Então, ele e sua esposa solicitaram a adoção na justiça do pequeno João Victor, que atualmente tem 16 anos. Quatro anos depois de acolher o primeiro filho do coração, o casal adotou Allexandra, que agora tem nove anos. Confira então os detalhes dessa experiência que envolve afeto, deveres e cuidado:

Em algum momento, sua esposa, você e seus filhos sofreram preconceito ou discriminação pelo fato de seus filhos serem adotados?

Humberto Cândido Soares –  Sofremos. Primeiramente, quando você adota, tem o preconceito de pessoas próximas. Elas olham e dizem: “que loucura! você é doido, já têm três!” ou “o que você tem na cabeça?”, entre outros comentários. Depois, principalmente com a Alexandra, que é negra, você vê preconceito no olhar. Uma vez, quando levamos as crianças pra vacinar, as pessoas ficavam perguntando com insistência se ela (Allexandra) era nossa filha, querendo saber alguma coisa. Você sente um pouco de preconceito nessa área. Mas, na maioria das vezes, as pessoas acham-na muito bonita. O João Victor também é um rapaz muito bonito e fácil de se relacionar com as pessoas. Então, não tem tanto preconceito assim. Porém, em algumas ocasiões, quando você passa por esse processo, pode ouvir alguma besteira. Por exemplo, “ah, eles podem ser isso, podem ser aquilo”, como se “ser ladrão ou assassino” fosse um gene que se carrega no DNA e várias outras coisas que você ouve. Mas quem fala essas coisas são pessoas ignorantes que pensam que com três filhos era suficiente. Nunca esse tipo de preconceito afetou a gente, nem deixamos que nos afetasse.

Então, você e sua esposa adotaram duas crianças, João Victor e Allexandra, ambas com idade inferior a um ano. Vocês, em alguma ocasião, cogitaram a possibilidade de adotar uma criança com uns dois ou três anos de idade?

Humberto Cândido Soares –  Não. O processo de adoção deles foi uma coisa muito natural. Quando você casa, seu sonho é ter um filho. Mas, existem casos em o casal vai ao médico e este lhes diz que não podem ter filhos, você parte para uma adoção porque você quer um filho. Nosso caso foi diferente, nós já tínhamos filhos, não tínhamos mais esse sonho de ter filhos. Então, a adoção do João Victor, a meu ver, não foi necessidade de ter filhos. Em nosso caso, eles nos adotaram, foi uma coisa diferente, não tem como eu explicar isso para vocês. Isso não partiu de nós, nunca pensamos em adotar.

Quanto ao processo de adaptação entre seus filhos biológicos e os que foram adotados, houve algum problema?

Humberto Cândido Soares –  Não, pelo contrário. Com o João Victor, todos se apaixonaram imediatamente, tanto é que, quando a mãe biológica dele foi à minha casa pela primeira vez para buscá-lo, eu disse que ela só o levaria com autorização judicial, porque que eu tinha a autorização. Se eu o entregasse para ela e acontecesse alguma coisa, eu seria o culpado. Então, ela foi atrás e o juiz permitiu. Quando chegaram lá em casa para levar o João Victor, eu estava viajando, então minha esposa me ligou e disse que o pessoal da justiça estava do lado de fora esperando, eu pedi a ela que os deixasse esperando lá e que conversasse com as crianças para explicar a situação. Ela levou umas duas ou três horas conversando com eles explicando que o João Victor tinha que ir embora, porque aquilo poderia ser um tipo de trauma para eles. Todos já estavam acostumados e gostavam demais dele. Com a Allexandra, a mesma coisa. Logo, todo mundo se apaixonou por ela e não houve problema algum.

Quanto à celeridade processual, vocês tiveram alguma dificuldade quanto a isso durante o tempo que durou o processo de adoção?

Humberto Cândido Soares –  Não. O interessante é que, com a gente, não. Já ouvi muitas histórias sobre pessoas que ficaram muito tempo na fila e que tiveram uma dificuldade muito grande para adotar. Conosco foi tudo muito tranqüilo, o único problema que tivemos foi com a assistente social que perdeu nossa entrevista duas vezes. Na segunda adoção, o interessante é que foi o próprio juiz quem nos colocou contra a parede e exigiu que a gente chegasse a uma decisão, se adotava ou não. Nesses casos, a criança forma um vínculo muito forte. Nós temos maturidade mental para deixar isso de lado, eles não. Se esse vínculo é quebrado, pode gerar um trauma muito grande na criança.

Em sua opinião, o que um casal precisa ter para adotar uma criança?

Humberto Cândido Soares –  A gente já aconselhou vários casais que queriam adotar. Depois disso, o pessoal começou a ter a gente como referência. Vários amigos e outras pessoas indicadas ligaram, conversaram e já foram lá em minha casa para conversar sobre isso. Acredito que a pessoa tem que querer ter um filho e nunca pensar em escolher uma criança porque ela é bonita e descartar outra. Já vimos casos de pessoas que adotaram e depois de quinze ou trinta dias, devolveram. Uma criança não é um objeto. A pessoa tem que ter certeza que quer adotar, que vai dar amor e proporcionar tudo que estiver ao seu alcance.

Existem casos em que os pais escondem de seus filhos que são adotados. Para você, é importante a criança saber que ela é adotada?

Humberto Cândido Soares –  Acho que é direito, porque a gente tem que se colocar no lugar da pessoa. Se eu fosse adotado, eu gostaria de saber. Não digo isso porque eu tenha dois, mesmo antes de adotar eu já pensava assim. Não via nada de errado em contar a verdade porque eu já convivia com amigos que eram pais adotivos. Então, a pessoa tem o direito de saber, já que o problema maior é quando a pessoa é enganada e depois descobre. Isso cria problema, traumas. Além disso, dá a impressão de que a coisa foi feita escondida porque era errada. Conforme a pessoa vai crescendo e você vai falando a verdade, nunca vai haver trauma nem problema. Você tem que se colocar no lugar da pessoa. E se fosse você? Gostaria de saber ou não? Acredito que é melhor contar a verdade, que ser enganado.

 Sobre essa questão da criança ter consciência de que é adotada, você disse que seus filhos sabem da verdade e fazem perguntas sobre o assunto. Você já percebeu alguma tristeza ou melancolia neles pelo fato de saberem que são adotados ou pela cor da pele?

 Humberto Cândido Soares –  Não, pelo contrário. Allexandra é super alegre e divertida. Sempre que ela fala sobre esse assunto, não o faz com pesar ou tristeza, mas com curiosidade. O brilho nos olhos é de curiosidade, não de melancolia. Você percebe quando a pessoa está deprimida e querendo saber alguma coisa porque talvez isso cure a tristeza que ela sente. Mas no caso dela (Allexandra), toda pergunta é por curiosidade ou brincadeira. Outro dia, na escola, ela e outra coleguinha chegaram perto de mim correndo e ela me perguntou brincando “Pai, fala pra ela que eu sou adotiva, ela não acreditando”, então, eu falei “é, você é do coração”. Mas a gente não tem problema com isso. É tudo muito natural.

 Em algum momento foi necessário que as crianças (Allexandra e João Victor) tivessem algum acompanhamento de um psicólogo?

 Humberto Cândido Soares –  Não. Tivemos apenas algumas conversas com o setor de adoção do Estado, mas nada de acompanhamento psicológico. Até hoje, ninguém teve necessidade disso.

Você adotou as duas crianças, já tinha três filhos. Como foi, para você, essa mudança?

Humberto Cândido Soares – As panelas, leite (risos). Eu falo lá em casa, se eu tivesse condição de juntar todo o dinheiro que eu já gastei com fraldas descartáveis e leite, eu não precisaria trabalhar mais na minha vida (risos). As pessoas falam que onde come um, comem dois, sim, é verdade, mas você tem que botar mais comida (risos). Então, custo tem. Quando você pensa nisso (adoção), você tem que pensar no custo. Por exemplo, eu tenho cinco filhos, mas, se eu tivesse só um, eu poderia mandá-lo para os Estados Unidos, eu poderia oferecer umas aulas de balé, judô, inglês, francês. Então, com cinco eu não tenho condição de fazer isso, porque você procura dar o melhor da maneira que pode. Mas isso não impede nada, talvez até ajude as pessoas a correrem atrás. Quando tudo vem de graça, não tem valor.

Equipe organizadora da entrevista coletiva:  Paula Monteiro Soares, Lorenna Silva Sousa e Thais Correia Marinho.

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