Ausência paterna pode prejudicar processo de aprendizagem das crianças

Ausência paterna pode prejudicar processo de aprendizagem das crianças

Joselma IMPERATRIZ NOTÍCIAS 2 Joselma Gomes (à dir.):  entrevista na UFMA

“Tudo que o indivíduo apresenta na adolescência e na fase adulta são comportamentos construídos na infância e a questão do pai ausente tem um peso muito forte”.  Essa é a análise da psicopedagoga Joselma Gomes, que trabalha com terapias que buscam tratar distúrbios e transtornos de aprendizagem, principalmente em crianças. Nessa entrevista coletiva, a profissional, que tem Especialização em Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, esclareceu outros detalhes sobre as consequências emocionais geradas pela falta da figura paterna ou materna na vida de homens e mulheres.  O evento contou com a participação dos estudantes da disciplina Técnicas de Reportagem (2016.2), do Curso de Jornalismo da UFMA Imperatriz.

Quais são as principais consequências da ausência paterna para o processo de aprendizagem infantil?

Joselma Gomes – Cada ser humano tem um manejo emocional diferente. Tem pessoas que são mais fragilizadas, outras que são mais resistentes e têm uma capacidade de resiliência (capacidade do indivíduo de lidar com problemas e se adaptar às mudanças) muito maior e que conseguem ultrapassar essas dificuldades com muito mais tranquilidade. Mas na grande maioria dos casos, essa ausência do pai faz com que essa criança retarde esse processo cognitivo formal. Essa perspectiva não deixa a criança abarcar outros universos, como por exemplo, ler, escrever e se relacionar com outros indivíduos.  Tem-se um prejuízo na aprendizagem, dentro dessa concepção de comportamento, que acaba influenciando, porque o ser humano tem dois lados, cognição e emoção, que  estão intrinsicamente ligados, não tendo como separá-los.

Quais são as didáticas usadas para a solução dessas consequências?

Joselma Gomes – Uma das primeiras didáticas utilizadas é resgatar esse pai, saber quem é essa pessoa, quem é esse modelo. Entender essa relação, chamar o adulto e explicar para ele quais os prejuízos que essa ausência pode causar para essa criança. Mostrar que ele teria que cuidar dessa criança no sentido emocional, que está vago e que precisa, de certa forma, estabelecer essa relação pai e filho. Quando o pai não aceita,  há outro procedimento, que é fazer com que outros membros dessa instituição, a família, a qual esse indivíduo pertence, comecem a tentar ocupar esse modelo.  O adulto e o idoso sabem manejar essa situação da ausência, já a criança entra nesse processo de angústia sem saber o que está sentindo.

 Ajudar a criança a buscar uma nova referência é importante para tratar esse trauma?

Joselma Gomes – A criança precisa de um modelo de pai e, se não for alguém muito próximo, ela vai eleger alguém, não interessa a distância. Vai encontrar alguém, porque é do ser humano esse ato de eleger alguém para modelo, para copiar até nas questões de se portar bem ou mal. Então, a gente trabalha para que esse modelo seja um modelo positivo, mas pode vir também um modelo negativo. Essa referência precisa ser identificada por essa criança, seja ela positiva ou negativa e aí é que está o grande problema, porque quando é positivo é ótimo, mas quando esse posicionamento é negativo começa a se ter uma sucessão de outros problemas com esse indivíduo e assim existe uma fragilidade muito grande nesse processo.

Os danos causados por essa ausência são mais evidenciados em meninos ou meninas?

Joselma Gomes –  São mais evidenciados em meninos. Os meninos sentem mais falta do pai. A  paternidade tem uma influência muito grande, apesar de na psicologia existir uma fase chamada de Complexo de Édipo, onde há uma paixão e meninos se apaixonam pelas mães e as meninas pelos pais. Mas mesmo dentro desse processo, o menino tem mais necessidade dessa figura paterna. Então, ele cobra mesmo, alguns meninos dizem nas consultas: “se papai pelo menos me ligasse, estava ótimo”, por essa fala se tira o tanto esse pai faz falta para essa criança.

 Em geral, é possível que as dificuldades geradas por essa ausência possam se curar com o passar do tempo ou é necessário acompanhamento profissional?

 Joselma Gomes – Eu não diria um acompanhamento profissional, mas curar com o passar do tempo não. O ser humano é uma construção e aquilo que não foi colocado vai deixando um espaço. Não dá para algumas coisas serem substituídas, principalmente no lado emocional. Esse indivíduo vai crescer, obviamente, e dependendo do nível de resiliência dele, vai aprender a manejar isso. Ele não vai se importar, vai ser uma área sobre a qual não vai querer conversar a respeito, mas no dia que casar (no caso, os meninos) vai dizer: “eu vou ser o melhor pai do mundo, porque eu não quero que os meus filhos passem pelo que eu passei”. Ele levará essa referência sempre. Eu diria que ele conseguirá superar isso, apesar de na infância ter sido muito mais doloroso.  Isso serve para construir essa capacidade de resiliência ou para se mostrar muito mais frágil, tal qual como era na infância. É algo muito relativo, depende muito de como é que esse indivíduo, enquanto adolescente ou adulto, vai conseguir reorganizar esse emocional que foi tão mexido nessa infância.

 Como identificar se um problema no comportamento e no aprendizado foi causado pela ausência do pai? Quais sintomas a criança pode apresentar?

Joselma Gomes – Muitas vezes apresenta apatia, em nada tem interesse ou, até tem, mas não tanto quanto deveria ter. O nível de motivação é baixo, apresenta reações de impulsividade ou de agressividade. Nada vem diretamente da questão cognitiva, tudo é evidenciado na questão comportamental, porque não tem dano neurológico, tem dano emocional e uma área influencia a outra. É possível que a criança aprenda a ler e a escrever com dificuldade, isso é, dificuldade de aprendizagem. Essa dificuldade não vem por dano neurológico, é construída pelo externo, pode ser uma situação familiar, um abandono paterno ou materno, uma situação de fome ou situação de metodologia da escola.  Essa situação externa ao indivíduo é que chega e faz com que ele agregue ao seu desenvolvimento a dificuldade de aprendizagem. A demanda da ausência do pai na relação traz dificuldade. É uma situação externa que chega e se instala nesse indivíduo. E isso pode ficar para sempre? Pode! Porque estamos falando de infância, estamos falando de desenvolvimento, de construção do indivíduo. Oprimimos o que está se construindo, se a pessoa vai se construindo dentro dessas falhas, dentro dessas lacunas, vai ser um ser humano com dificuldades de aprendizagem.

Existem casos em que o dano emocional se torna irreversível?

Joselma Gomes – Irreversível não, porque não é um dano de natureza neurológica. Mas sim emocional e é reversível, porque vamos pensar que ela cresceu (a criança), identificou que essa falha vem de uma situação paterna que foi mal resolvida ao longo da infância. Ela cresceu e resolveu fazer terapia, tem todas as condições de reestabelecer isso, pode sofrer, chorar, trazer de novo aquele machucado. Mas vai sarar, contudo a cicatriz vai ficar.

Quais problemas de linguagem e comportamento podem ser causados pela falta da autoridade paterna?

 Joselma Gomes –  A gagueira, que é de natureza, na grande maioria das vezes emocional, vem de um quadro de situações de ansiedade. Quanto mais ansioso esse indivíduo é, quanto menos ele consegue manejar as emoções, quanto mais causas de ansiedade geradas, mais poderá causar um quadro de gagueira. Às vezes, até pais que estão nas suas casas, com seus filhos, mas que não os escutam, podem gerar na criança um quadro de gagueira emocional, porque o pai não escuta, não tem tempo e a criança quer falar tudo ao mesmo tempo. Nesse sentido, ela começa a desenvolver esse mecanismo da gagueira até como forma de chamar atenção.

Freud, em um de seus trabalhos, afirma que “na maioria dos seres humanos, tanto hoje como nos tempos primitivos, a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que seu mundo desmorona se essa autoridade é ameaçada”. Na sua concepção, qual momento na vida de uma criança essa autoridade é essencial? 

Joselma Gomes – Na vida da criança isso é essencial em todas as situações, das mais simples, de ter uma festa de pais ou não ter um pai para levar a essa festa, até as situações mais complexas. Eu creio que Freud botou uma dose de exagero no sentido da palavra desmoronar, mas, ao mesmo tempo, eu volto a afirmar que emocionalmente desmorona. O modelo é o pai e a mãe, a autoridade é o pai e a mãe, Freud se refere a isso. São duas figuras que eu acredito que vão está ali para ser o meu suporte. Quando uma delas não está ali, automaticamente isso me desequilibra e eu posso ter sérios problemas, porque um só não vai conseguir fechar a demanda que precisa ser fechada. A mãe é um modelo, o pai é outro. A autoridade é no sentido de os dois (pai e mãe) alinharem o que vai ser decidido.  Eu sempre esclareço aos pais que, se um disser que pau vai virar pedra, o pau tem que virar pedra, mesmo que um dos dois não concorde tem que virar. É dessa tomada de decisão e autoridade que Freud fala, porque faz com que a criança se estruture.

Apesar de tanto a figura materna quanto a paterna serem essenciais para o crescimento da criança, qual seria a pior ausência? Ela sentiria mais a ausência do pai ou da mãe?

Joselma Gomes – Não, tem um equilíbrio. Cada qual tem o seu lugar, essa equação é muito equiparada, por isso que é tão importante emocionalmente falando, dentro dessa perspectiva de desenvolvimento, os dois (pai e mãe) terem o mesmo valor ou o mesmo peso. Os dois desenvolvem coisas diferentes, quadros diferentes, lados emocionais diferentes e acabam tendo o mesmo valor no que se refere à importância. Então se não existe pai, tem uma perda, se não existe mãe, também há.

A senhora gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre essa temática?

Joselma Gomes – Falar de paternidade é muito relativo. Quero deixar essa observação, nem todos vão reagir da mesma maneira.  Tem muitas pessoas que não tiveram pai e estão muito bem, depende muito do nível de resiliência que esse indivíduo possui. Nós já nascemos com essa capacidade de nos refazermos e quando isso é potencializado por uma mãe, por um modelo de mãe forte, essa ausência vai embora. Mas essa lacuna deixa cicatriz e isso complica quando essa criança não é tão resistente. Há uma série de problemas emocionais, cognitivos e sociais. Então, é uma pessoa a qual pode faltar habilidade social, não vai saber lidar com o outro. Tudo que o indivíduo apresenta na adolescência e na fase adulta são comportamentos construídos na infância e a questão do pai ausente tem um peso muito forte.

Equipe organizadora da coletiva : Lianna Carolina, Thaise Torres e Thalys Vinicius

 

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