Escola, lugar de enfrentamento de desafios

Escola, lugar de enfrentamento de desafios

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                                                       Flaviana Oliveira (à direita) durante a coletiva

Há desigualdades presentes no processo de formação inicial e a escola deve reconhecê-las para ajudar as crianças, que são afetadas por diferentes condições sociais e econômicas. Essa foi uma das questões tratadas pela coordenadora de séries iniciais da Secretaria Municipal de Educação (SEMED), Flaviana Oliveira de Carvalho. Graduada em Pedagogia, a professora tem Mestrado em Educação Brasileira e Especialização em Gestão Pública. Na entrevista, Flaviana Oliveira  comentou sobre os desafios e dificuldades no acesso à educação infantil, além de destacar ações que combatem o analfabetismo e promovem a relação da escola com os pais*.

De acordo com dados do IBGE, as taxas de acesso escolar aumentaram e as taxas de analfabetismo diminuíram. Dada a sua experiência em educação, a senhora pode afirmar ter observado algum reflexo disso aqui em Imperatriz?

Flaviana Oliveira de Carvalho – Se você amplia o acesso, se amplia a oferta, teoricamente essa oferta tende a desenvolver um trabalho de qualidade. A tendência realmente é que as taxas de analfabetismo diminuam. Na verdade, é essa a ideia. Em relação a esse desempenho, aqui em Imperatriz, nos últimos anos vê-se que os índices do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), por exemplo, cresceram. Infelizmente não vou saber aqui de cabeça trazer para vocês percentuais, até porque não atuo na etapa de ensino que trata exatamente dessas ações. A avaliação nessa etapa, que trabalho, é uma avaliação diferenciada pelo próprio nível de desenvolvimento da criança. Mas ela tem crescido consideravelmente. Algumas instituições mais que outras, existem inúmeros fatores que vão interferir nesse crescimento diferenciado, seja a formação inicial do grupo que está atendendo, de infraestrutura que se oferta, ao tipo de gestão da instituição que ela tem. São vários fatores que vão interferir.

Temos informações que a senhora participou de um grupo de pesquisa, Processo de Avaliação Participativa: a construção, da qualidade de uma instituição de Educação Infantil.  Nos conte um pouco da sua experiência neste grupo de pesquisa.

Flaviana Oliveira de Carvalho – Participei como pesquisadora voluntária quando estava fazendo Mestrado na Universidade Federal do Ceará. Foi um projeto desenvolvido no Núcleo de Desenvolvimento da Criança, que é uma instituição de educação infantil vinculada à UFC e foi uma oportunidade muito rica porque, pela primeira vez, particularmente tive a oportunidade de participar de um processo de avaliação institucional e democrático. Esse processo de avaliação é balizado por um documento que foi construído pelo Ministério da Educação (MEC), que se chama Indicadores de Qualidade para a Educação Infantil. Esse projeto de pesquisa foi a oportunidade de ver professores, equipes de apoio, gestores e pais das crianças discutindo sobre os indicadores e quais são as condições da Educação Infantil. Depois tive a grata alegria de saber, após terminar o Mestrado, que o município de Imperatriz, havia sido escolhido para receber uma formação internacional executada pelo Instituto Avisa Lá, em parceria com Unicef e o MEC, que vinham fazer esse mesmo processo de avaliação aqui em Imperatriz. Quando houve essa oportunidade eu havia recentemente passado no concurso da Prefeitura e me convidaram para compor a equipe técnica da Educação Infantil. Foi mediante o conhecimento que tiveram que tinha participado deste projeto de pesquisa. Pensando nessa dimensão informativa, inclusive é uma coisa que pode servir de incentivo de apoio para alguns de vocês que estão em processo de formação, participar de grupo de pesquisa como etapa muito importante para essa construção do percurso formativo, porque pode abrir mesmo outras oportunidades.

Minha orientadora no Mestrado era uma das coordenadoras do projeto. Nós pudemos discutir várias dimensões, desde as de infraestrutura quanto a formação de pessoal e as práticas pedagógicas, que na verdade acaba sendo o grande alvo da minha atuação, aqui no município. Depois nós desenvolvemos o trabalho que foi muito legal. Ele foi publicado e o material de formação se chama projeto Diretrizes em Ação, que trata da implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil.

Como é feito o acompanhamento pedagógico quando uma criança vem de uma família que teve problema com violência?

Flaviana Oliveira de Carvalho – Existe um setor específico que cuida dessa parte. Em geral, os nossos professores são orientados, inclusive no último congresso houve uma palestra específica para tratar disso e foi ministrada por um defensor público para falar sobre isso, sobre casos de violência como, por exemplo, como os professores podem ajudar a identificar, a denunciar. O professor identifica, informa a direção da instituição, o diretor informa para um setor e o setor vai fazer as devidas investigações, juntamente com o Conselho Tutelar e a Vara da Infância e Juventude. Essas pessoas têm uma formação específica para lidar com esse tipo de situação, por exemplo, eu que atuo com a formação de professores, geralmente, não tenho a capacitação necessária para poder, por exemplo, atender uma criança. Essa equipe é multidisciplinar, tem psicólogos e assistentes sociais, e vão fazer todo o processo de investigação, sempre amparados pelo Conselho Tutelar e a Vara da Infância e Juventude.

A Secad (Secretaria de Educação e Diversidade) foi criada em 2004 e tem a finalidade de trabalhar a questão das desigualdades nas escolas. A senhora acha que as desigualdades nos colégios atrapalham na educação de uma criança?

Flaviana Oliveira de Carvalho – Certamente.  As desigualdades são de todas naturezas e cada indivíduo tem uma condição. É uma condição social, inclusive cognitiva e isso vai gerar resultados diferentes. A gente tem uma ideia de educação, de normatizar tudo e colocar todo mundo dentro de uma fôrma, todos têm que ser iguais. Isso começa desde os pequenininhos, que é a etapa que atendo. A gente vê, por exemplo, uma criança que não se alimentou no dia anterior, não teve alimentação adequada, ela chega na instituição com fome, às vezes não foi higienizada adequadamente, ela não dormiu à noite porque mora em um bar, a família tem um bar e naquela casa a criança não pôde dormir à noite. É diferente o rendimento dessa criança como a outra que tem outras condições. O que a escola pode fazer para amenizar? Essa semana eu ouvi de uma colega dizer que escola não é lugar de comer, escola é lugar de aprender. Mas se eu estou com muita fome como é que eu aprendo? Então a escola tem que ensinar, tem que garantir esse aprendizado. O caminho para aprender é matar a fome, então que a gente mate a fome primeiro, que o espaço educativo dê conta de atender ao máximo possível a todos, porque se tem uma criança que necessita de mais atenção e uma alimentação do que outra, eu não vou oferecer a mesma quantidade de comida, por exemplo. É um exemplo bem básico, mas que pode ilustrar toda essa condição.

Há alguma ação do órgão para que esses pais e mães ajudem essas crianças? Porque o apoio da família é importante para a criança continue na escola.

Flaviana Oliveira de Carvalho – Para a escola isso é muito difícil, conseguir trazer o pai, é sempre muito difícil. A Secretaria de Educação, particularmente na Educação Infantil, desenvolve um projeto, desde 2009  e 2010, se não me falha a memória, que se chama Escola de Família. É um espaço em que os pais são convidados a irem à escola assistir palestra com algum profissional. Há um profissional, um pedagogo, com alguma especialização,  que fale uma linguagem acessível. Como é importante, por exemplo, que os pais acompanhem as crianças, que eles leiam juntos com eles, que respeitem as demandas, as necessidades de desenvolvimento daquela faixa etária. E, claro, que essa escola é desenvolvida mediante a necessidade de cada instituição. Se em  uma instituição a equipe gestora identifica como mais urgente discutir violência, por exemplo,  ainda existe a “cultura da palmada”. A profissional vai lá, promove um trabalho, uma palestra diretamente tratando especificamente sobre isso. Conforme a necessidade e, claro, em casos extremos os pais são levados à justiça. Como existe esse acompanhamento no Conselho Tutelar e na Vara da Infância e Juventude, em alguns casos, a família acaba tendo uma intervenção do Estado, mas isso já é outra dimensão.

 

Equipe organizadora da coletiva:  Ilberty de Oliveira Silva, Matheus Lopes dos Santos, Michele da Costa Souza e Pedro Henrique Barbosa Teixeira

*Essa entrevista coletiva foi realizada com a participação da turma de Técnicas de Reportagem (2016.2)

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