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Movimentos sociais de Imperatriz protestam contra a cultura do estupro

Movimentos sociais de Imperatriz protestam contra a cultura do estupro

Texto e imagens: José Carlos Almeida

 

Na última sexta-feira, movimentos sociais e feministas tomaram as ruas de Imperatriz, com o lema “por todas elas, pelo fim da cultura do estupro”. O ato fez parte de um protesto nacional, que aconteceu paralelamente em várias cidades, durante esses primeiros dias de junho, motivado pela revelação do estupro coletivo de uma menor no Rio de Janeiro, que chocou o país e trouxe à tona os números alarmantes da violência contra mulher e a cultura da culpabilização da vítima.

Palavras de ordem ecoaram nas ruas centrais de Imperatriz, que foram tomadas pela presença de jovens, professoras, professores, universitários, secundaristas, crianças, mulheres e rapazes, todos pedindo pelo fim da cultura do estupro e por melhorias nas políticas de atendimento às mulheres. O ato foi convocado por movimentos sociais e feministas a partir das redes sociais na internet e dos aplicativos de mensagens instantâneas. Com concentração na Praça de Fátima, os manifestantes seguiram até a Delegacia da Mulher na região central de Imperatriz.

Manifestantes pedem respeito

Além das frases de ordem “a culpa não é da vítima, a culpa é do estuprador” e “meu corpo não é mercadoria”, os cartazes também pediam mais respeito. Além disso, o protesto teve um tom político, expondo cartazes que pediam que os homens ensinassem a respeitar, não as mulheres a temer, fazendo alusão ao machismo que começa desde a alfabetização e, ao mesmo tempo, referindo-se ao governo interino do Michel Temer.

Durante as falas, foi denunciado a ausência de dados sobre a violência na cidade e também o mau tratamento que a mulher, vítima de violência, recebe na delegacia. Houve ainda leitura de poemas, desabafos e declarações de repúdio a setores machistas na cidade.

 

Claricia Dallo da AFIM

Clarícia Dallo, representante da Articulação de Imperatriz (AFIM), aponta que a mobilização na cidade agora que começou e que a manifestação revela que o movimento feminista de Imperatriz só tem a crescer. “Esse movimento não é somente para fazer barulho, temos pautas que vamos entregar à delegacia da mulher, às secretarias da mulher municipal e do Estado, também ao prefeito municipal Sebastião Madeira e ao governador do estado Flávio Dino”.

Ela aponta ainda que o movimento deseja a resolução dos casos de estupro na cidade: “Queremos a divulgação dos dados de violência, a resolução dos casos de estupro que ocorrem em Imperatriz, a casa de ressocialização do agressor, que a Lei Maria da Penha seja cumprida na sua totalidade, que a delegacia da mulher realmente funcione”, concluiu.

Conceição Amorim na manifestação

Conceição Amorim na manifestação

Para Conceição Amorim, representante do Fórum de Mulheres de Imperatriz, a mobilização foi avaliada como positiva. “O ato foi extraordinário. Nesse dias, milhares vão às ruas pelo fim da cultura do estupro. Uma juventude comprometida com a luta pelos direitos humanos, pelos direitos das mulheres e de LGBTs. Foi importante perceber que a juventude dessa cidade está disposta a ir para a luta” .

Conceição lembra que este ano a Lei Maria da Penha completou 10 anos e falou dos próximos passos do movimento. “Vamos dar respostas a outros setores da sociedade que são extremamente machistas, homofóbicos e preconceituosos. Setores, até mesmo, de construção do conhecimento, como escolas e universidades”. Aponta ainda que haverá um estudo de casos de violência, machismo e homofobia que é de conhecimento do movimento.“Vamos exigir também dos governos estadual e municipal ações de políticas públicas para enfrentar a violência contra a mulher e denunciar casos de homofobia e machismo que é de nosso conhecimento”, completou.

Para Sara, integrante da Frente de LGBTs de Imperatriz, a luta faz-se necessária para enfrentar os ataques que movimentos de mulheres e LGBTs vêm sofrendo no País. Ela aponta que LGBTs também são vítimas dessa cultura. “Existe também o estupro corretivo. Muitas lésbicas são violentadas para que se transformem em ‘mulheres de verdade’. Além da violência contra transexuais e travestis, que são estupradas e assassinadas diariamente.”

 

Dados da violência sexual contra criança e adolescentes de Imperatriz

Segundo dados do Centro Especializado de Assistência Social (CREAS), de Imperatriz, das 353 crianças e adolescentes atendidas, cerca de 141 foram vítimas de violência sexual. Desse total, 99 foi abuso e 22 exploração sexual.  Os índices apontam para perigos no círculo mais próximo da vítima: em 72 % dos casos, o pai era o agressor sexual e em 86% algum membro da família, incluindo pai, irmãos, primos, tios e namorado.

Em 2014, foram registrados, no município, mais de 1.000 boletins de ocorrência, o Ministério Publico do Estado. Mas os dados não são oficialmente divulgados. “Há uma falta de transparência nos dados sobre violência contra mulheres e crianças. Os dados são fundamentais dentro da rede de atendimento e enfrentamento da violência contra a mulher e dentro de todos os serviços públicos. Negar a sociedade de conhecer a sua realidade é um crime. O movimento feminista tem exigido das entidades que ofereça e que diga para população os números”, completou Conceição Amorim, do Fórum de Mulheres de Imperatriz.

 

Dados nacionais de violência contra a mulher

As manifestações reiteram como a mulher vem sendo violentada em todos os meios sociais. Na rua, em casa, no trabalho e na mídia. Pesquisas apontam que 48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência (PNAD/IBGE, 2009). Mostram ainda que 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamento, com base na pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (novembro de 2014).

As pesquisas expõem também que 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões todo dia ou, pelo menos, toda semana. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. Os dados são do ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher , da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR).

 A cada 11 minutos uma pessoa é estuprada no Brasil, maioria crianças, meninas, jovens e mulheres. O Brasil teve no ano 2014, em média, 47.646 estupros. É o número oficial apresentado pelas secretarias estaduais da Segurança coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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