“Nós não somos só útero e seios”: Entrevista com Conceição Amorim

“Nós não somos só útero e seios”: Entrevista com Conceição Amorim

Por: Yasmim Costa e Morgana Albuquerque

Do Jornal Arrocha

Igualdade. Autonomia. Empoderamento. São características que definem o feminismo, que desde 1997, em Imperatriz, promove a luta pelos direitos das mulheres. No entanto, os contrários ao movimento têm uma visão deturpada dos princípios defendidos pelas feministas. E para esclarecer e desconstruir alguns conceitos equivocados a respeito do assunto, conversamos com a militante feminista, Conceição Amorim.

Conceição Amorim, 53, é Coordenadora Geral do Centro de Direitos Humanos Padre Josimo. Formada em serviço social e especializada em gestão de políticas públicas em gênero e raça pela Universidade Federal do Maranhão. Em entrevista para o Jornal Arrocha, em colaboração para o Imperatriz Notícias, ela conta das lutas e conquistas do feminismo em Imperatriz.

Conceição Amorim, militante feminista

Conceição Amorim, militante feminista

Jornal Arrocha: Fale um pouco sobre o conceito de feminismo e o motivo de muitas pessoas ainda terem uma visão deturpada do movimento.

Conceição Amorim: Na verdade, o feminismo é um movimento articulado politicamente pelas mulheres para lutar pelos seus direitos. Ele busca literalmente o empoderamento das mulheres, busca garantir o direito das mulheres de acesso à educação, à saúde, aos espaços políticos, com os mesmos direitos que os homens. Essa é a grande luta do feminismo. Portanto, o feminismo também luta pelo direito da mulher decidir sobre seu corpo, decidir se ela quer ou não quer continuar uma relação afetiva, pelo direito dela ser respeitada a partir das suas decisões, quando decide não querer ter tido uma relação afetiva. O feminismo é isso, todo esse pré conceito que se coloca e que se dá papéis para o feminismo, são na verdade instrumentos de combate à luta das mulheres pela igualdade.

J.A: Como surgiu o movimento feminista em Imperatriz?

C.A.: Aqui a gente começou a se articular em 1997 enquanto movimento feminista. Existia o movimento de direitos

Conceição Amorim na manifestação

Conceição Amorim em manifestação

humanos articulado e nós sentíamos a necessidade de começar a dar a resposta política para a questão das mulheres. Já existia o movimento organizado de mulheres da igreja, clubes de mães, pastoral da mulher, mas esses grupos, eles estavam muito voltados para as questões de organização das mulheres da base da igreja católica, em torno de conquistar aprendizado, de poder se reunir, de poder fazer passeios, de colocar a mulher numa situação de aprender determinadas atividades para gerar um pouco de renda. E nós começamos a pautar que havia a necessidade do Estado desenvolver ações políticas para garantir direitos básicos para as mulheres. Imperatriz, em 1997 não tinha nenhuma política voltada para as mulheres. Tinha o regional nas condições mais precárias, com todos os problemas que a gente conhece. Mas, nós não tínhamos nenhuma atenção voltada para a saúde da mulher, no contexto que a gente compreende a saúde da mulher como um todo, e não só como uma questão materna e infantil. Nós não somos só um útero e os seios e nossa saúde não se resume a parir, a criar e alimentar criança. Então o feminismo surge com a participação de pouquíssimas mulheres, estudantes, donas de casas, começamos a assumir inclusive publicamente que éramos feministas, porque até então ninguém nessa cidade se assumia ou se colocava para fazer esse debate do que era o feminismo.

J.A: Quais foram as mudanças na trajetória até os dias atuais?

C.A: Foram mudanças significativas. Primeiro porque a gente consegue perceber que a militância do movimento de mulheres próxima ao movimento feminista conseguiu se empoderar, e se aprofundar nesse debate da questão dos direitos. A gente percebe que isso foi uma conquista muito grande, porque as mulheres começaram a discutir mais politicamente os problemas. As mulheres começaram a ver que elas não estavam sozinhas no mundo, mas que existia outras articulações, então a gente começou a ter contatos com organizações estaduais, com organizações internacionais. E aí foram muitas as conquistas políticas, que a gente considera fundamental, por exemplo, Imperatriz foi a primeira cidade do Maranhão a ter a vara da mulher implantada. Ela foi implantada primeiro que a vara de São Luís. E aí o que vem previsto tudo na lei Maria da Penha, a gente conquista a implantação da vara da mulher, a implantação automaticamente da promotoria da mulher já um ano depois, porque tudo isso se dá a partir de lutas concretas, objetivas. Hoje no Brasil, nós não chegamos a cem varas da mulher, então você ter numa cidade do interior do Maranhão a primeira vara do Estado é uma grande conquista que só se materializou com a luta do movimento feminista, da articulação e das militâncias feministas. Outras conquistas importantes, são os debates que a gente tem gerado e levado para dentro das escolas, de questionamento da questão da violência, dos direitos, e da discriminação das mulheres. Isso foi uma conquista extremamente importante porque o nosso trabalho ele abriu as portas dessas instituições que antes eram extremamente fechadas, isso foi muito importante. E é um movimento respeitado, as mulheres que fazem essa luta são mulheres que pautam na Câmara de Vereadores, que pautam na Assembleia Legislativa, que pautam dentro das universidades. Então, acho que essas conquistas a gente tem que nos impregnar delas porque a gente conquista e depois nem vê a importância delas ao longo do tempo.

J.A: E como o feminismo tem ajudado a empoderar essas mulheres e a mudar o cenário social delas?

C.A: Primeiro, acho que a gente tem uma escuta, um ouvido muito sensível para os problemas que as mulheres vivem, e uma capacidade de intervenção muito rápida próximo a mulher que está necessitando dessa ajuda. Então, desde o começo a gente têm tido a preocupação de fazer formação política, de estudar sobre o controle social, sobre a saúde da mulher, sobre a mulher e a educação, as conquistas, as necessidades políticas e sociais das mulheres. Então, esse empoderamento ele vem a partir dessas informações, dessas formações, de estarmos construindo esse debate nos espaços onde a gente consegue chegar e mesmo onde a gente não chega diretamente, mas indiretamente que a gente possa levar informação através de panfletos. A gente conseguiu construir uma prática nos últimos 15 anos, todo dia 8 de março a gente tematiza, já discutimos a mulher na educação, a mulher na cultura. A gente elabora panfletos, faz propostas para os governos e para os Estados. E esses momentos, são onde a gente tem a grande oportunidade de conversar com as mulheres e discutir com elas, mostrar o quanto a realidade delas tem a ver com nossa luta, e o quanto as conquistas da realidade delas foram frutos das conquistas das mulheres. Então eu acho que tem esse papel importante, essas são formas concretas de empoderamento das mulheres em imperatriz. A gente promoveu a primeira, depois promovemos a segunda plenária municipal de mulheres populares, fizemos várias audiências públicas para discutir temáticas pontuais. É nesse momento que as mulheres vão se empoderando, vão se identificando com a luta do feminismo, vão se reconhecendo nessa luta.

J.A: E o que se tem como resultado dessa luta?

C.A: Penso que temos bastante resultados. Primeiro que nós somos, no Estado, uma cidade onde a gente não responde só por Imperatriz, mas por toda a Região Tocantina, então a gente tem esse reflexo dos outros municípios. Eu acho que a rede de atendimento à mulher que vive em situação de violência é uma grande conquista, porque esse é um problema muito grave que começa desde a infância, desde os primeiros anos das crianças e adolescentes. Tem um número muito alto de meninas que sofrem abuso, essas redes, esses serviços especializados eles são absolutamente necessários. Nós conquistamos a implementação da secretaria de políticas para as mulheres, conquistamos vários debates dentro das Instituições. Então, essas são conquistas que se dão a partir do movimento feminista, e isso nós temos muito claro. Foram várias intervenções, a melhoria em vários programas sociais, e a implementação de serviços. Então assim, se o movimento não está ali junto, discutindo, pautando, ninguém vai pautar, porque o número de mulheres na câmara de vereadores é reduzidíssimo e elas não são mulheres voltadas para os movimentos sociais e para a questão das mulheres. A gente não vê um único debate nessa câmara com relação às condições de trabalho das pessoas que estão no mercado informal e que mais de 80% são mulheres. Então, a gente não tem onde se apoiar, e esses debates tem que surgir de nós mesmas, mesmo quando a gente tem mulheres nos representando. É um enfrentamento muito duro. Pegue o mandato de todas elas e olha qual vereadora tenha apresentado um único projeto na cidade de Imperatriz que viesse fortalecer a autonomia, o direito das mulheres, não existe! Então, essa é uma das grandes derrotas do movimento feminista, a gente não conseguiu sensibilizar as próprias mulheres eleitas a pautarem a questão das mulheres e se sensibilizarem com os problemas das mulheres, a ver a cidade como uma cidade que precisa ser pensada para os homens e para as mulheres.

J.A: As redes sociais contribuem para essa articulação?

C.A: Contribuem muito. A gente tem a oportunidade até mesmo de poder divulgar mais o nosso trabalho, desmistificar muita coisa sobre o feminismo. Claro que as redes sociais também tem um papel inverso de limitar muitas pessoas que poderiam estar se juntando ao movimento mais na prática, porque as pessoas acham que militar só na rede social basta. E não adianta ficar o dia inteiro nas redes sociais reivindicando e lembrando todas as nossas conquistas se a gente não for para as ruas denunciar o número exorbitante de feminicídio, o número exorbitante de mulheres que são abusadas e desrespeitadas nas ruas só pelo fato de serem mulheres. Agora as redes sociais nos trouxeram um grande bem, mostraram a verdadeira face do homem brasileiro, estamos tendo que lidar com uma realidade extremamente cruel, vivemos em um País onde os homens nos odeiam, a misoginia é uma coisa assustadora, eles não têm o menor escrúpulo em nos desrespeitarem e nos humilharem nas redes sociais, e fazem isso da forma mais natural possível. Eu acho que a rede social trouxe isso de uma forma muito brutal e que nos deixam um pouco paralisadas. E nós precisamos começar a responder, eles não podem viver sem a gente, mas eles nos odeiam, odeiam as roupas que a gente veste, odeiam quando a gente entra na universidade, odeiam quando a gente dá opinião, quando a gente sabe sobre futebol, eles odeiam as coisas que a gente faz que eles acham que a gente não deveria fazer. E não são pessoas distantes, são pessoas do nosso convívio. Comece a conversar e prestar mais atenção na conversa dos colegas de vocês que vocês vão ver o quanto é profundo isso e o quanto parece que não existe, mas existe, e as redes sociais vieram e demonstraram isso, acho que a gente precisa, inclusive, usar ela para desconstruir.

J.A: Quais medidas são necessárias para que cada vez mais mulheres sejam empoderadas e também diminuir esse número de violência?

C.A: A educação é a porta de entrada para o empoderamento de qualquer ser humano, especialmente das mulheres. A educação precisa ser mais voltada para as mulheres, digo, no contexto de reconhecer as mulheres enquanto sujeito feminino, as escolas continuam nos tratando como se a gente fosse um ser invisível. Quando você entra numa sala de aula, você tem quarenta jovens, entre eles, vinte e sete meninas e treze meninos, e a professora continua dizendo “boa tarde, meninos!”, se reportam o tempo inteiro aos grupos no sentido masculino, nos invisibiliza. Essa invisibilidade está muito presente na nossa educação a partir da própria língua portuguesa, a educação precisa mostrar a linguagem de homens e mulheres. Eu acho que precisa tirar essa invisibilidade, não é verdade que a palavra homem é universal. A humanidade é universal, a raça humana é composta por homens e mulheres, portanto você tem que visibilizar os dois. Quando você invisibiliza um em detrimento de facilitar a linguagem, você está invisibilizando e colocando esse um em situação de inferioridade. Então a educação precisa mudar e fazer educação para todo mundo. É desconstruir a partir das escolas, a escola precisa perceber que dentro dessa sala tem meninos e meninas, meninos têm determinadas necessidades e meninas têm outras necessidades, nós temos diferenças, essas diferenças precisam ser respeitadas, mas não para construir desigualdades, não para nos colocar em situação de invisibilidade. Então eu acho que a educação é fundamental, é necessária, é uma luta insana, mas o empoderamento da mulher passa por aí. Ele passa pela formação da família e pelas relações familiares. A divisão doméstica precisa ser construída no conjunto da família para que possa haver o empoderamento das mulheres, essa questão das relações de igualdade de gênero dentro do seio da família, onde todo mundo tem obrigações ali dentro daquele espaço doméstico. Eu acho que o empoderamento das mulheres passa por não deixar passar nada batido, e eu fico assustada como dentro das universidades, é um dos lugares que as mulheres mais sofrem assédio sexual. Portanto, o empoderamento das mulheres dentro dos espaços educacionais é determinante, porque se você se empodera desde o ensino fundamental, médio, universidade, e chega no mercado de trabalho empoderada, eles vão ter que nos receber de forma respeitosa nos locais de trabalho. Então, as trabalhadoras formadas terminam se tornando reféns recuadas por não estar empoderada o suficiente para peitar, e esse peitar não é sozinha, ele precisa ser coletivo para poder ter ressonância. Eu acho que o empoderamento é isso, ele começa na família, vai para as escolas, vai para o local de trabalho e é uma construção sistemática permanente e depende muito da autonomia das mulheres, e do direito delas ocuparem todos os espaços.

About The Author