QUEM VEM PARA O DIA DOS PAIS? Falta da figura paterna pode trazer insegurança e ansiedade

QUEM VEM PARA O DIA DOS PAIS? Falta da figura paterna pode trazer insegurança e ansiedade

AS PESSOAS, PORÉM, PODEM LIDAR MELHOR COM ESSES SENTIMENTOS E BUSCAR QUALIDADE DE VIDA

 

Luiz Gustavo e Seu pai2

Luiz Gustavo com o pai: vínculos e aprendizagem

 

POR LIANNA ARRAES, THAISE TORRES E THALYS VINICIUS

“Sou fruto de um namoro, no qual minha mãe engravidou, e meu pai não quis me assumir”, afirma a estudante Thais Magalhães, 18 anos. É corriqueiro ouvir relatos como esse. O abandono e a ausência da figura paterna na vida dos filhos apresentam-se como situações comuns na sociedade atual, aonde um novo modelo de família também vem se apresentando.

Tudo o que o indivíduo apresenta na fase da adolescência e na vida adulta são comportamentos construídos a partir das experiências da infância, sendo assim, a questão da figura paterna ausente tem um peso muito forte nesse contexto. Por isso, é importante o 2º artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que considera como criança os indivíduos de até doze anos de idade incompletos. Já adolescentes são aqueles com idade entre doze e dezoito anos de idade.  Partindo disso, conforme os dados do último censo do IBGE de 2010, Imperatriz-MA tem 97.497 crianças e adolescentes e 3.866 famílias com formação que conta apenas com a mulher e filhos, sem a presença do marido.

Uma infância sem o pai pode ter um peso mais negativo para meninos pelo fato de sentirem mais falta dessa figura e a paternidade acaba tendo uma influência muito maior. Essa presença foi muito forte na vida do estudante Luiz Gustavo Marques, 23. “A presença de um pai influencia até onde a gente não imagina, criamos costumes e gostos muitas vezes por influência desse contato. Um exemplo disso é meu gosto de futebol e o nosso time ser o mesmo”. O jovem ainda relata que em relação aos estudos, seu pai foi um grande incentivador e continuamente o conscientizou da importância da educação.

CAMINHO PARA MUDAR REALIDADE

Através de levantamentos nas escolas públicas da cidade, foram encontradas mais de três mil crianças sem o nome paterno. Devido ao grande número, o Poder Judiciário de Imperatriz iniciou o programa Pai Legal, em 2012, através do Conselho Nacional de Justiça.  O objetivo era conter esses números.

O programa funciona do seguinte modo: um oficial de justiça notifica o suposto pai para que posteriormente o mesmo realize o registro de nascimento, quando necessário, o exame de DNA é disponibilizado gratuitamente e, de imediato, é realizado as alterações na certidão de nascimento. Não precisa de advogado, nem defensor. Para recorrer a esse serviço, é necessário que a mãe apenas se dirija ao Fórum Henrique de La Roque com documentos pessoais e a certidão do filho. Deve informar ainda o nome do provável pai e seu endereço.

Todavia, notou-se que em alguns dos casos os pais não compareciam após a notificação. Foi então permitido às mães a inclusão de representantes paternos, podendo ser declarados “pais” os avós ou tio/tia da criança em questão. Através do programa em 2015, foram feitas 70 averiguações de paternidade, e em 2016 um pouco mais, 79.  Como se pode observar pelos dados disponibilizados, dentro das expectativas do projeto, é baixo o número de pedidos anuais para realização desse procedimento em comparação ao número total de crianças sem o nome paterno no registro.

MUITAS EMOÇÕES E UMA AUSÊNCIA

 

Personagem Douglas (sem pai) com a famíliaFINAL

Douglas (ao fundo) com a mãe e o irmão: infância sem o pai

A neuropsicopedagoga Joselma Gomes esclarece que “cada ser humano tem um manejo emocional diferente, alguns são mais fragilizadas, outros, são mais resistentes e tem uma maior capacidade de resiliência”. A capacidade de resiliência é a habilidade de lidar com problemas e obstáculos pessoais.

De acordo com a psicopedagoga, a natureza do ser humano une cognição (processo para adquirir conhecimento) e emoção e as duas áreas são ligadas e inseparáveis. Por isso, a lacuna paternal pode trazer prejuízos, inclusive na aprendizagem, devido ao fato de que, na grande maioria dos casos, a criança pode retardar esse processo cognitivo formal quando enfrenta situações de insegurança. Essa perspectiva não a deixa abarcar outros universos, como por exemplo, ler e escrever.

As crianças que não contam com a figura do pai apresentam quadros de apatia, níveis de motivação baixa, reações de impulsividade, ou de agressividade. O abandono traz também consigo sintomas de ansiedade que podem induzir a gagueira do indivíduo.

Pode ocorrer também comportamentos agressivos ou de distanciamento dos familiares. É o caso da estudante Thais Magalhães, 18. “Fui rebelde por causa da falta de uma palavra firme. Tudo é gerado em casa, o pai é uma voz que gera temor. Se eu tivesse um pai presente eu teria deixado de errar em certas coisas”, avalia.

Ela relata que chegou a ter visão negativa da própria identidade ao pensar em sua vida como um erro, uma vez que seu pai não a assumiu. A jovem desenvolveu grande carência afetiva, buscou preencher através de relacionamentos, o que trouxe frustrações. Thais lembra que se sentia carente, triste e insegura por não ter uma figura masculina para defendê-la. Encarou ainda constrangimentos em situações familiares, piadinhas e indiferença nas festas do dia dos pais na escola.

O analista administrativo Douglas André, 21, também teve um pai ausente. Ele conta que com 15 anos sua mãe ficou grávida após se relacionar com um homem de aproximadamente 30 anos. O pai o registrou e pagou pensão durante dois anos, depois disso não deu mais notícias. O rapaz relata que esse vazio paternal gerou um sentimento, principalmente na infância, de que não tivesse alguém em quem pudesse confiar, contar seus segredos e se apoiar.

No entanto, para quem teve essa presença acentuada, a situação é totalmente diferente, é o caso da técnica Luanna Oliveira, 25: “A presença do homem contribui no desenvolvimento de autoconfiança e no real significado de respeito e cuidado. Meu pai contribuiu com isso por meio de sua presença”, enfatiza.

Consequentemente, a neuropsicopedagoga Joselma Gomes afirma que esses sentimentos podem ser trabalhados emocionalmente por homens e mulheres para que tenham uma vida melhor. “Esse indivíduo vai crescer e pode aprender a manejar a ausência, não se importar e conseguir superar isso, apesar de na infância ter sido muito mais doloroso. Mas isso servirá para construir uma capacidade de resiliência, ou para se mostrar muito mais frágil, tal qual como era na infância. É algo relativo, depende muito de como é que esse indivíduo, enquanto adolescente ou adulto, vai reorganizar seu emocional”.

SUBSTITUIÇÃO DO PAI

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante ao menor a convivência familiar, seja ela em um seio de uma família natural, ou de adoção. Entretanto, todo ser humano elege um modelo de referência para si, inclusive a criança, que necessita fortemente da figura de um pai e de uma mãe. Contudo, faz-se fundamental  a tentativa de tentar resgatar esse pai.

Caso o resgate da figura paterna ausente não tenha êxito, cabe à mãe encontrar uma maneira para administrar a ausência, de forma a não prejudicar a imagem do pai para a criança. Isso pode ser feito por meio de alguns cuidados como: não se queixar do ex-parceiro, evitar brigas na frente do filho e não usar a criança para se vingar do ex-companheiro. Um modelo de mãe forte auxilia na superação dessa ausência, porque as ligações emocionais são efetivadas a partir do exemplo e do contato físico, com atenção e amor, e  não apenas por meio dos vínculos biológicos.

 

 

 

 

 

 

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