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“A castidade é algo que te traz felicidade, caso contrário não será um bom caminho”: entrevista com a irmã Sandra Pargas

“A castidade é algo que te traz felicidade, caso contrário não será um bom caminho”: entrevista com a irmã Sandra Pargas

 Texto e fotos de Fausta Silva

"Eu não vejo dificuldade em ser religiosa, isso talvez porque eu me sinto bem realizada"

“Eu não vejo dificuldade em ser religiosa, isso talvez porque eu me sinto bem realizada”

Sandra Maria Noleto Pargas, natural de Colinas do Tocantins, chegou em Imperatriz entre os 11 e 12 anos de idade e logo teve que trabalhar “fora” para auxiliar financeiramente sua família, de origem modesta. Foi no ofício de ajudante de merendeira de uma escola no bairro Vila Nova, que teve o primeiro contato com as irmãs Canossianas, uma congregação de freiras católicas que atuam com crianças.

Religiosa há trinta anos, irmã Sandra descobriu sua vocação aos 16 anos de idade, em um acampamento de jovens.  “Neste acampamento eu conheci a irmã Neves, que era uma das irmãs a frente da juventude. A posição da irmã Neves com a juventude, reforçou minha vocação”.

Desde que entrou para a ordem já trabalhou em abrigos infantis do município de Araras/São Paulo e foi membro do Conselho Tutelar. Em 2013 foi agraciada com título de cidadã imperatrizense, como forma de reconhecimento aos serviços voluntários prestados na cidade. Atualmente é gestora da escola infantil Jardim Canossa, localizada no Parque Santa Lúcia e colabora na pastoral setor Juventude e pastoral Vocacional na diocese da cidade.

Nesta entrevista, ela fala sobre  vocação e o seu chamado a ser “Mãe de multidões”. Confira!

 

 Imperatriz Notícia – Qual a quantidade de jovens que procuram hoje a vida religiosa?

Irmã Sandra Pargas – Quando eu entrei no noviciado a procura do jovem era grande, mas hoje é bem menor. Nós sabemos que o Brasil está passando por uma crise e consequentemente a vida religiosa também passa pela mesma. Por exemplo: atualmenteconversando com algumas jovens para virem fazer uma experiência de seis meses ou até menos, a maior dificuldade seria deixar a família, muitas delas contribuem financeiramente com sustento familiar.

"Quando eu entrei no noviciado a procura do jovem era grande, mas hoje é bem menor"

“Quando eu entrei no noviciado a procura do jovem era grande, mas hoje é bem menor”

I.N- Quando o jovem se decide pela vida religiosa, como saber qual congregação ingressar?

I.S- A primeira coisa que ele deve levar em consideração é se o carisma é compatível com os seus ideais. Por exemplo: ao observar as Teresianas, pude perceber que o carisma teresiano encaixava –se perfeitamente com as minhas ideologias. Porém, algo maior nas canossianas, me atraiu para que eu escolhesse esta congregação. Escolher o carimã é saber aquilo que fala dentro de você.

I.N-Como é o trabalho das irmãs canossianas com a juventude?

I.S-Nós trabalhamos com os jovens no acompanhamento vocacional espiritual de vida. A fundadora da minha congregação Madalena de Canossa tem uma frase assim: “A educação depende da conduta de toda a vida”, então a nossa maneira de ser no meio da juventude é nessa educação.

 

I.N- Como é a formação das aspirantes ao noviciado?

I.S- Primeiro a jovem faz uma experiência na realidade dela, depois no apostolantado é escolhido uma irmã para acompanhá-la, a provincial é quem faz essa escolha. No noviciado a jovem é acompanhada pela mestra de noviças, ela é quem diz o tempo que a jovem irá ficar, o período oscila entre seis e doze meses e depende exclusivamente do desenvolvimento pessoal da jovem.A seguir, a jovem tem de se certificar se isso é o que ela quer de fato, para que ela possa dar um passo à frente,  o qual chamamos de “apostolantado” . Nessa fase o período também varia de seis a doze meses, dependentemente da evolução da aspirante. Ela é convidada a certificar – se do seu objetivo, a partir de sua conclusão é encaminhada ao noviciado que tem a duração de dois anos: um ano canônico onde ela não faz serviços em pastorais nas comunidades, e no segundo ano ela é liberada pra ir servir em uma comunidade onde ela é maior inserida pra fazer missão. Essa comunidade avalia a jovem freira e sendo aprovada a jovem faz então os votos.

I.N- Em uma realidade de consumismo, qual a atitude da irmã tendo de ser fiel ao voto de pobreza?

I.S- Em relação ao voto de pobreza, tudo o que eu tenho é da congregação, mesmo que as pessoas me vejam com um carro, não é meu!

N.I – E sobre a castidade, como lidar com ela?

I.S – A castidade é algo que você faz por opção e que te traz felicidade, caso contrário não será um bom caminho.  A vida consagrada é buscar essa integração na harmonia. Deus me chamou para ser mãe de uma grande quantidade de pessoas e eu busco viver isso nessa capacidade de amar além, onde ninguém me prende e ninguém é prendido a mim. Eu gosto muito de uma frase que diz assim “O coração de um religioso é uma terra que não pertence a ninguém, só a Deus”. Essa máxima me acompanha desde de meus votos, “quero ser mais de Deus para ser mais de meus irmãos”.

I.N – Qual a dificuldade de ser freira?

I.S -Não vejo dificuldade em ser religiosa, isso talvez porque eu me sinto bem realizada.

I.N- Qual o seu olhar em relação ao casamento homoafetivo?

I.S- Para mim é complicado destacar uma opinião sobre isso. Respeito, quem sou eu para estar aí dizendo o que é certo ou errado? Como educar? Como orientar? Nos casos que já vieram a mim, eu só fiquei ouvindo, não tenho palavras. Penso que temos de pedir muita sabedoria a Deus, porque não é fácil você aceitar algo diferente da sua ideologia, mas o “respeito” eu acredito que seja a chave do negócio; o diálogo, o amor familiar.

I.N- Como o jovem pode conciliar as coisas seculares com as da igreja?

I.S- É um desafio muito grande para a juventude, sobretudo porque o mundo tem muitas ofertas. Então para o jovem que quer ser de Deus, mesmo com tantas ofertas é preciso que ele tenha convicção do que quer, tenha “cabeça” e seja bem orientado, porque tudo é muito chamativo.

I.N- Para finalizar, qual conselho você propõe para juventude nesta realidade em que vivemos?

I.S-. Eu digo que a juventude tem que saber ler a sua realidade, ver as coisas na televisão e ter um olhar crítico, ponderar o que é positivo, o que é vida. E para finalizar, deixo aqui uma frase de Vitor Frankl: “Não importa o que me fizeram, mas o que eu vou fazer com que me fizeram”. Então, essa é a visão! Eu tenho que fazer a diferença.

 

 

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