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Chiquinho França explica em entrevista porque abandonou a secretaria de Cultura do município

Chiquinho França explica em entrevista porque abandonou a secretaria de Cultura do município

Por: Abner Carvalho

Pauta: Dina Prardo

“É claro, que eu vou torcer pelos nossos artistas maranhenses, pelos artistas de Imperatriz. Mas, o Faber, o foco é música de qualidade”

 Músico maranhense, multi-instrumentista e autodidata, reconhecido nacionalmente por suas composições que misturam o frevo, o chorinho, o baião, o xote e até mesmo a música erudita, ao som do violão, do bandolim e da guitarra. Este é Chiquinho França, que adotou Imperatriz, desde os seus 15 anos de idade, como sendo sua, e aqui formou boa parte dos seus 35 anos de carreira musical. Tendo em suas primeiras inspirações musicais adquiridas através dos artistas que ouvia desde a infância, tais como Raul Seixas, Rita Lee, Chico Buarque de Holanda e da banda inglesa Pink Floyd – que o motivou, mesmo com dificuldades financeiras, a comprar o disco duplo, da banda, “The Wall”, ainda garoto –, Chiquinho França encontrou na música instrumental a sua profissão.

Por conta desse amor à música brasileira, de qualidade, nessa entrevista, o músico faz algumas críticas à cultura musical atual, tanto em Imperatriz como no Brasil; assim como a ação do poder público, com relação a essa questão, e esclarece os motivos de sua saída da Fundação Cultural de Imperatriz, onde ocupou a o cargo de secretário, de janeiro a junho, deste ano. Além disso, revela, comoo Festival Aberto Balneário Estância do Recreio (Faber), poderá alavancar, a qualidade musical, em nossa cidade, apesar de o poder público, ter descontinuado o apoio a esse projeto, que ele defende como um movimento em favor da Música Popular Brasileira.

Serão três dias de programação, previstas para acontecer no início de julho, de 2018, ainda sem um local definido. Mas, segundo o artista, a pretensão é que o evento seja realizado no antigo clube, que levava o nome do festival, localizado na estrada do Balneário, próximo à praia do cacau, ou, mais provavelmente, na concha acústica, que está em fase de construção, na Avenida Beira Rio.

 

Imperatriz Notícias: Chiquinho, logo aos 15 anos, você decidiu sair de casa, para seguir sua carreira artística. Como foram, esses primeiros passos?

Chiquinho França: Olha, com 15 anos de idade, eu já tocava alguma coisa, no violão. Nunca tinha pego numa guitarra. Até que, num parque de diversão, da minha cidade, eu ouvi um anúncio de um empresário, daqui, de Imperatriz, requisitando músicos para formar uma banda. Aí, eu encontrei com esse empresário, mas falei para ele, que eu não poderia vir, pelo fato de ser, ainda, menor de idade, estudando e trabalhando em um turno vago. Então, ele se propôs a conversar com minha mãe. Mas eu achei que ela não ia permitir. Só que minha mãe me surpreendeu! Ela me chamou, e disse que já sabia, que era isso o que eu queria para a minha vida, ser músico. E que deixaria, desde que eu continuasse estudando. Então, saí de casa, para começar uma carreira profissional, aqui em Imperatriz. Muita coisa eu aprendi, aqui. O meu primeiro trabalho profissional, foi realizado aqui. E toda a minha carreira, a minha formação musical, os meus estudos, e até a preparação para viver em qualquer outra cidade. Porque, aqui em Imperatriz… não estou aqui, tecendo críticas, aleatórias, mas, aqui, é a cidade mais difícil, que eu conheço, para se viver de arte e de cultura; apesar de amar essa cidade.

 

IN: Como você compara a relação do público imperatrizense, com a música popular, tanto no início de sua carreira, como atualmente?

 CF: Olha, sempre foi muito difícil, porque a gente não tem uma identidade cultural. É claro que isso não é ruim para a cidade, em termos! Também tem um lado muito bom. Encontra-se de tudo, aqui. E, como bem dizia o nosso querido Adalberto Franklin, a identidade de Imperatriz, é exatamente essa multicultura, entendeu?  Nos anos 80, começava a acontecer o movimento Faber, esse festival, grande, que revelou artistas, como, Neném Bragança, Zeca Tocantins, Luis Carlos Dias, Erasmo Dibell, Carlinhos Veloz, Chiquinho França, Wilson Zara, Lena Garcia e outros. A cidade era mais efervescente, no sentido cultural. Me lembro que, na época, o prefeito era o Ribamar Fiquene, que era um cara, violonista, poeta, e que absorvia bem essa questão. A gente tinha mais apoio e a cidade curtia mais a arte! Então, eu vejo que, hoje, Imperatriz caiu o nível cultural, nesse sentido. Até por conta da invasão dessa música descartável. Não é só aqui, mas no país inteiro. Mas, Imperatriz, tem essa dificuldade, de apoiar, de aplaudir, de incentivare de incluir. E isso precisa ser trabalhado! Eu acho que as políticas públicas podiam abrir os olhos, melhor, e transformar isso.

“Mas, infelizmente, houve uma incompatibilidade, entre as minhas ideias culturais e as do prefeito Assis Ramos. Ele pensa, a cultura, de uma forma totalmente diferente, da que eu penso.”

IN: Você acha, que, mesmo com essa música, descartável, presente em todo o país; lá fora, é mais fácil o artista da MPB se deslanchar?

 CF: É mais fácil, se você for novo. O artista de Imperatriz, mora aqui, produz aqui; é obrigado a fazer show, toda semana. Tocando por qualquer preço. Fazendo um show, sem qualidade, sem um projeto cênico, sem um bom som, uma boa iluminação. Isso tudo é uma “bola de neve”, contrária a ascensão do sucesso. Então, quando você sai, pelo menos é novidade, para público.O estilo é diferente, a música é boa; porque nós produzimos uma música de qualidade. Então, assim, o certo é dar uma saída, mesmo! Eu saí daqui, 20 anos, e consegui muita coisa. Saí por necessidade! E hoje, me tornei um produtor musical, reconhecido no país, e tenho, hoje, a minha música, executada para mais de 100 países, através da Globo Internacional. Recebo os meus direitos autorais e consegui legalizar toda a minha obra. Quando eu fui convocado a vir presidir a Fundação Cultural, eu me alegrei, porque eu pensei: poxa, agora eu posso voltar e ajudar minha cidade, os meus amigos; com essa experiência toda, que eu ganhei! Mas, infelizmente, houve uma incompatibilidade, entre as minhas ideias culturais e as do prefeito Assis Ramos. Ele pensa, a cultura, de uma forma totalmente diferente, da que eu penso. Eu não poderia, jamais, concordar com a cultura que eu fui vítima, de viver à margem de projetos de governo!

 

IN: Mas, você saiu da Fundação Cultural. Como secretário, não seria uma forma mais viável, de trazer essa maximização da cultura musical? Não havia, uma maneira, para tentar fazer com que suas ideias fossem validas?

 CF: Eu negociei de todas as formas! Tentei sensibilizá-lo, com o meu trabalho. Mostrando exemplos a ele. Prometi que em dois anos, a gente ia começar a colher frutos. Porque, o problema da nossa arte, é a falta de qualidade em show. Essa música que vem de fora, ela é descartável, sem conteúdo. Mas eles trazem, o espetáculo!As pessoas querem espetáculo. Então, eu queria usar a ferramenta, a Fundação Cultural, para a gente, primeiro, produzir os nossos artistas, fazendo uma triagem, de quem tem condições, de ir para o palco; quem tem condições, de ir para a oficina, e dar a oportunidade para todos os artistas. Mas também, sem radicalismo! Não era deixar de trazer os shows que a cidade curte. Mas precisaríamos, primeiro, mostrar os dois shows, no mesmo nível. O problema é o seguinte, abre-se o show com os artistas locais, num nível muito inferior. Quando esse artista, nosso, desce, que abrem a cortina do show de fora, é uma humilhação, cara! Nós temos dois produtos, no Brasil, que são respeitados no mundo inteiro: o nosso futebol, e a Música Popular Brasileira, e que, por causa dessa corrupção, de desvio, através de todas as secretarias de cultura, de todo esse país, está acontecendo dois crimes. Primeiro, o desvio de verba [em si]. E a outra é fazer com que a música popular brasileira desapareça do rádio. Além de desviar dinheiro, investem numa música que criança não pode ouvir!

 

IN: E como você absorve, essa ideia de trazer, um festival, que é da década de 80, para o contexto musical atual? Esse festival estará aberto aos outros gêneros musicais, ou ele estará mais restrito, àquela roupagem original?

 CF: O Faber, é música de qualidade, é MPB. Música com conteúdo. Será um sucesso, mesmo em meio ao sucesso dessa música descartável. Porque tem muita gente que curte a música brasileira! A ideia do Faber é mais que um festival. É uma campanha. Nós vamos distribuir as camisas, antes que aconteça o festival, para que, Gilberto Gil, vista essa camisa; Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Djavan, Milton Nascimento, Elba Ramalho, Zé Ramalho, enfim, essa galera boa, da música popular brasileira. Você já pensou, todas essas pessoas, dando depoimento, vestindo o Faber, em prol da boa música brasileira, e esse movimento, ser em Imperatriz, do Maranhão, partindo, daquiessa campanha? Isso é maravilhoso para o nosso estado, para nossa cidade! Vamos transformar Imperatriz, na capital da música brasileira! Então, o Faber tem que acontecer, dessa forma. Se for para fazer um projeto pequeno, não adianta se investir muito nesse festival. Ele tem de ser,como a nossa cidade, grandiosa, que se auto sustenta, e que é rica, em todos os sentidos!

IN: Para a elaboração de um projeto como essa dimensão, que você está falando, é necessário, além de boa vontade, apoio financeiro. Como está conseguindo isto?

CF: Olha, o apoio de artistas eu já tenho, está todo mundo se manifestando. Isso aí é a coisa mais fácil! Nós temos uma página na internet, temos um grupo no WhatsApp, que você precisa ver, a quantidade de artistas, de todo esse país, se manifestando, em prol desse movimento! Então, é uma coisa grandiosa. E eu estou tentando, ainda, sensibilizar os dois governos, para eles entrarem, de cara, apoiando esse festival. O governo estadual e o municipal. Agora, existem outras formas de se fazer. Nós estamos recorrendo às duas leis de incentivo. A lei estadual e a lei federal, que é a Rouanet. E já temos pessoas, aí, de muita influência, entrando nesse projeto, conosco. E o festival será, com toda a certeza, realizado, se não no mês de junho, em julho [de 2018], aqui, em Imperatriz.

 

IN: A respeitodos artistas, que vão participar do evento, terá espaço para o artista local, que ainda não é, tão reconhecido, mas que possui esse engajamento voltado à MPB?

 CF: Todos terão a oportunidade de se inscreverem. Ele é um festival aberto para todo o país, entendeu? É nacional! Então, vai haver uma triagem, é importante falar isso, para depois a gente não ter problema. É claro, que eu vou torcer pelos nossos artistas maranhenses, pelos artistas de Imperatriz. Mas, o Faber, o foco é música de qualidade. Coisa que eu não tenho medo, pois eu já conheço a capacidade dos nossos artistas, tanto de Imperatriz, quanto do nosso estado. Mas ele será aberto!

 

IN: E qual será a forma de premiação, aos artistas vencedores, do festival?

 CF: Olha, a primeira ideia é de R$ 30 mil, o primeiro lugar; R$ 20 mil, o segundo e R$ 10 mil o terceiro lugar. E cada artista que já for, na triagem, classificado para o festival, receberá mil reais, para a ajuda de custo, de passagem, de onde ele estiver. Mesmo que esteja morando aqui, já receberá R$ 1 mil, para a ajuda de custo.

IN: Agora, além do Faber, e do show que você, sempre faz, que é o Pink França Floyd, há algum outro projeto, em andamento? Você pretende permanecer na cidade, mesmo tendo saído da fundação?

CF:Eu preciso voltar. Organizar minha família, em São Luis. Vou subir para o Rio de Janeiro; mas, sempre cuidando da campanha Faber. E aí, no próximo ano a gente volta, para realizarmos, esse grande festival da música brasileira. Eu tenho um projeto de fazer um disco novo, com ritmos maranhenses. Só que, modernizado. Fazer essa mistura do regionalismo, da cultura folclórica maranhense, com outros gênerosclássicos, para a gente viajar aí pelo Brasil. Então,eu estou muito empolgado em fazer esse projeto, que também é uma cobrança dos maranhenses!

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