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ELES PRECISAM CHORAR: suicídio entre os homens e a repressão dos sentimentos

ELES PRECISAM CHORAR: suicídio entre os homens e a repressão dos sentimentos

TRISTEZA, ISOLAMENTO SOCIAL E MUDANÇAS REPENTINAS PODEM SER SINAIS DE QUE HOMENS PASSAM POR UM PROBLEMA  MUITO SÉRIO: A IDEAÇÃO SUICIDA

O estereótipo faz o homem não buscar ajuda profissional

 

POR DANIELE SILVA LIMA, DANIELLE CAROLINA DOS SANTOS COSTA E LORENA LACERDA LIMA

Na maioria das vezes, eles escondem seus problemas e frustrações, não pedem ajuda, não demonstram que também sentem dor e não querem aceitar o fracasso. Esse é o cenário que pode levar à depressão e ao suicídio os homens, que estão entre as principais vítimas nesses casos. De modo geral, um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que, no ano de 2016, um suicídio acontecia a cada 40 segundos. Em 2015, o mesmo órgão divulgou que foram registrados 800 mil casos de suicídios no mundo, sendo que 75% destes são referentes a países de média e baixa rendas.

O cenário no Brasil também é alarmante, pois o país ocupa o 8° lugar no ranking de países com mais casos de suicídios no mundo, chegando a ultrapassar 12 mil por ano. Seguindo os índices de outros países, no Brasil, os homens são os que mais se matam numa faixa etária entre 15 e 29 anos. Enquanto o índice das mulheres é de 2,6 por 100 mil pessoas, o dos homens salta para os 10,7.

Segundo o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, em 2013, o Maranhão ocupa a 23° posição no ranking brasileiro de suicídio com um índice de 3,5 mortes por 100 mil habitantes. Em Imperatriz, segundo a enfermeira coordenadora das Doenças de Agravo Não Transmissíveis (DANT’S – DVS), Hélcia Gonçalves, no mês de abril deste ano foram notificados em torno de 28 suicídios, ou seja, quase um por dia.

O QUE É O SUICÍDIO?

Do ponto de vista sociológico, é uma ação tomada deliberadamente pelo indivíduo com a consciência de que essa ação irá produzir o resultado pretendido. Além disso, a ideia de consciência torna-se imprecisa, pois uma pessoa com problemas mentais que se coloca em uma situação de risco, dependendo das circunstâncias, pode não ser considerada suicida. Ademais, pessoas que são forçadas a cometer o ato, a ação perde o caráter de suicídio e passa a ser tratado como homicídio.

Para a cientista social Emilene Leite de Sousa, a sociedade tem um papel fundamental no suicídio. “Nós estamos em sociedade, organizados a partir de teias de relações sociais recíprocas. Essas teias invisíveis estão por toda parte, são laços sociais. A razão do suicídio é se há um exagero ao apertar ou afrouxar esses laços, deve existir um equilíbrio”, afirma. Além disso, também aponta as instituições sociais tal como a igreja, escola e a família como as responsáveis em acolher os indivíduos em situações de desespero, tristeza e principalmente de exclusão, uma vez que tudo que fazemos é tentar nos integrar socialmente. “Se o indivíduo se integra demais, ele tende a cometer suicídio, se ele é excluído, ele tende a cometer suicídio”, conclui.

Pedir ajuda é o primeiro passo para melhorar

PERFIL DOS SUICIDAS

Tristeza, perda de interesse em atividades anteriormente prazerosas e sensação de incapacidade são alguns dos sinais de uma pessoa inserida em um quadro depressivo. A assistente social do Serviço Ambulatorial da Rede da Saúde Mental (Caps), Ana Cristina de Assunção Oliveira, analisa que a depressão é o resultado de decepções pessoais, questões de problemas financeiras, traumas ou transtornos mentais tratados indevidamente.

O tratamento incorreto é mais frequente nos homens, visto que são os que menos procuram ajuda, além disso, são os que mais cometem suicídio de maneira mais violenta.  Esse resultado tem relação com a “honra masculina”, como frisa a psicóloga do Caps, Dayse da Silva Chaves. Ter problemas de saúde mental ou falhar na tentativa de suicídio ratifica a sensação de incapacidade que eles sentem diante dos estereótipos existentes de virilidade É importante destacar que todos os possíveis suicidas dão sinais e alertas sobre o desejo de ceifar sua vida.

Infográfico: Daniele Silva Lima

POR QUE OS HOMENS NÃO CHORAM?

“O homem morreu das palavras que não disse”, frisa a assistente social do Caps III, Ana Cristina de Assunção Oliveira ao comentar que o estereótipo de que o homem não chora é resultado da sociedade patriarcal. Nesse contexto, os homens  não podem expor sentimentos, como analisa líder da Articulação Feminista de Imperatriz (AFIM), Conceição Amorim. “Há uma pressão muito grande dentro dessa sociedade, a qual diz que é responsabilidade do homem cuidar da família. Essas pressões acabam sendo mais violentas, eles terminam não suportando. Apesar de toda a construção de que eles são fortes, eles acabam sendo fracos”, reflete.

Por conta dessa cultura machista que ainda persiste, por vezes, eles não são educados para pedir ajuda e sim para resolver todos os problemas sozinhos. Para desestruturar essa ideologia machista, que também diretamente os homens, entra em cena o feminismo, que visa desconstruir esses estereótipos que foram naturalizados e acaba os silenciando. O movimento defende que os homens têm o direito de chorar sem serem recriminados,  segundo Conceição Amorim.

Vídeo: Daniele Silva Lima

 

ONDE PEDIR AJUDA?

Em Imperatriz, o atendimento de saúde mental é realizado no Caps, este dividido em três unidades. Para ser atendido em algum desses centros é necessário um encaminhamento de qualquer profissional de saúde ou educação. Conheça as unidades dos Caps em Imperatriz:

 Tabela:  Lorena Lacerda Lima e Danielle Carolina dos Santos Costa

Garantindo uma melhor qualidade de vida com corpo são e mente sã, Gil (nome fictício) *, paciente do Caps há quatro meses e diagnosticado com transtorno de ansiedade que se não tratado, pode levar ao suicídio, reconhece que teve vergonha de contar para família que tinha um problema de saúde mental e que estava se tratando: “Antes, eu via como lugar para doidos, mas agora eu entendi que não é doido que precisa de psicólogo. Todos nós precisamos ter esse atendimento, conversar é algo que ajuda muito a pessoa”, ressalta.

 

*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado

** Reportagem realizada na disciplina Técnicas de Reportagem (2017.1)

 

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