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“Imperatriz tem uma das piores arborizações do país”, afirma engenheiro responsável pela catalogação das árvores da cidade

“Imperatriz tem uma das piores arborizações do país”, afirma engenheiro responsável pela catalogação das árvores da cidade

Texto e fotos de Jacqueline dos Reis Silva

 

"“Mais 80% da cobertura vegetal dentro de Imperatriz são de espécies exóticas, sendo que nós temos uma rica flora.”

““Mais 80% da cobertura vegetal dentro de Imperatriz são de espécies exóticas, sendo que nós temos uma rica flora.”

Aos 37 anos o paranaense Dalton Henrique Ângelo possui um currículo invejável.  Graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) desde 2004 e especialista em Agroambiente pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) é também gerente de projetos pela Fundação Getúlio Vargas e pelo instituto CUOA da Itália. Juntamente a  tudo isso ainda administra em Imperatriz a Eco Equilibrium Consultoria, uma empresa especializada no ramo ambiental. O currículo respeitável afiança mais peso ainda a dura afirmação de que a cidade está entre as piores arborizações do país.

E ele não fala isso de maneira leviana não, há sete anos residindo em Imperatriz, ele que já foi professor da Universidade Federal do Maranhão ( UEMA), atual Universidade Estadual da Região Tocantina , comando um projeto em que foi  levantou a arborização urbana da região central de Imperatriz. Foram medidas e analisadas pouco mais de 2 mil árvores e detectadas inúmeras falhas.  O trabalho de catalogação idealizado pelo professor resultou na sua dissertação de Mestrado e será base para um manual de como conduzir a arborização de Imperatriz. Mas apesar dos dados alarmantes, o pesquisador ainda vê uma oportunidade de mudar esse cenário, desde que, é claro, haja interesse do poder público. Pelo menos o levantamento já apresentar a atual situação.Em entrevista ao Imperatriz Notícias ficasse sabendo mais detalhes do assunto. Confira.

 

Imperatriz Notícias: O senhor é responsável por um trabalho de catalogação das árvores da nossa cidade. Como foi a realização deste projeto?

Dalton Ângelo: Esse projeto nada mais é do que fazer um levantamento da arborização urbana que temos hoje em Imperatriz. Nós escolhemos 228quadras de Imperatriz, um bloco bem grande, o levantamento durou um ano.Pegamos aproximadamente quatro bairros, que chamamos de zona central e zona residencial central pela legislação de zoneamento da cidade. Nós delimitamos e medimos todas essas árvores e identificamos quais são as espécies e levantamos outros paramentos.

IN: Quantas árvores e quantas espécies já foram catalogadas?Quais as espécies mais abundantes em Imperatriz? 

"Plantar por conta própria muitas vezes pode atrapalhar, a não ser que o cidadão saiba como fazer e conduzir"

“Plantar por conta própria muitas vezes pode atrapalhar, a não ser que o cidadão saiba como fazer e conduzir”

DA:Foram 2.643 árvores e aproximadamente 70diferentes espécies. O Oiti é a espécie mais abundante, a segunda mais abundante é o Nim, e a terceira o Fícus. Nenhumas dessas três espécies são daqui da região, a única espécie brasileira é o oiti que não faz parte da flora desta região, ele é mais comum no nordeste brasileiro, e essas duas, o Nim e o Fícus são espécies exóticas. ONim é da Índia e o Fícus da Ásia e Austrália. Mais de 80% da cobertura vegetal dentro de Imperatriz são de espécies exóticas, sendo que nós temos uma rica flora. O que a prefeitura planta é só o Oiti e o Nim e nós temos uma rica diversidade só que não são produzidos por eles.

IN: Imperatriz é considerada o Portal da Amazônia, o que poderia significar uma cidade arborizada e rica em diversidade de espécies vegetais, para o senhor, por que isso não ocorre?

DA: Primeiramente isso não ocorre porque Imperatriz já não tem mais floresta amazônica e a área rural é formada por pasto. Aqui é um ecótono. Aqui é divisa entre o cerrado e a floresta Amazônica, no entanto, o que tem de floresta já foi devastado desde os anos 20 e 30 e nos anos 50, 60 e 70 houve uma intensificação das madeireiras. Tudo que havia de floresta amazônica foi suprimido. É muito difícil encontrar floresta amazônica em Imperatriz, não existe mais. Vai encontrar algum resquício de floresta amazônica dentro de alguma área rural onde alguém preservou parte de sua reserva legal e só. Hoje em dia não existe mais floresta amazônica, basta pegar uma imagem de satélite que vai ver que realmente não tem mais nada de floresta amazônica em Imperatriz.

IN: Sobre a necessidade de um paisagismo eficiente em Imperatriz, considera a atual situação da cidade reversível?

DA: Tudo é reversível nesse mundo, nem que demore mais de mil anos. O que acontece hoje é que a arborização urbana de Imperatriz está totalmente inadequada. As espécies escolhidas são inadequadas, mais de 80% das espécies sofrem algum tipo de doença ou algum tipo de injúria, as árvores não tem espaço pra crescerem, as calçadas são inadequadas e o espaço que tem embaixo dela, que chamamos de canteiro ou área de vivência é totalmente inadequado, pois eles fecham com cimento ou com calçada e não deixam nenhum espaço para árvore viver. Então estão inadequadas as espécies, estão inadequados os lugares em que foram plantadas e está inadequada a infraestrutura existente pra isso. Hoje está tudo errado!

IN: Quais são os impactos consequentes da falta de arborização na cidade?

DA: Hoje os impactos desta arborização errada ou a falta de arborização são o psicológico do ser humano, porque o ser humano quer ver verde. À medida que ele vê o verde ele se lembra do avô dele, se lembra da infância… O verde traz benefícios pro psicológico humano. A falta de verde, o acúmulo de cinza, de metal, de asfalto e de calor na nossa cuca, isso faz com que a gente sinta fadiga, se sinta estressado e vai desencadeando uma série de doenças mentais. A arborização urbana traz o sombreamento, consequentemente ela vai trazer o que chamamos de meio ambiente melhorado, o microclima, então, se hoje Imperatriz está com 37º, se você botar uma arborização urbana consegue-se diminuir até 5º dentro da cidade, é muito eficaz. A arborização evita que ocorra enxurradas como ocorrem hoje, por que as árvores tem o papel de interceptar a chuva e diminui a velocidade do escoamento pelas folhas e depois parte vai escoar pelo tronco. Faz com que não cause erosão e faz com que seja infiltrado no lençol freático. Como não tem árvores, a chuva bate diretamente no asfalto, na calçada, no lixo e isso vai entulhar e como Imperatriz não tem galerias subterrâneas suficientes pra escoar, vai causar o que está causando hoje, uma série de alagamentos.

IN: Qual a preparação necessária para uma cidade como Imperatriz receber arborização?

DA: Esse trabalho é justamente isso. Fizemos um levantamento do tamanho das ruas, do tamanho de cada calçada, do comprimento de cada calçada, nós analisamos a fiação, que a fiação também é totalmente irregular. O que também deve ser feito, mas isso a gente não fez, é averiguar onde tem canalização de esgoto, que é um grande problema, pois as pessoas botam a fossa na calçada. Então onde tem fossa não adianta você plantar árvores. Todos esses fatores têm que ser levantados, todos os fatores que existem no ambiente, qual o ambiente da cidade hoje? É rua, é calçada, é casa, e nós analisamos todos os conflitos que a árvore está gerando, como um conflito com uma marquise, com uma calçada, se está muito na esquina, pois há uma lei que diz que as árvores tem que estar a 5 metros da esquina. É uma série de coisas. Hoje, 85% das árvores da arborização urbana de Imperatriz estão em situação incorreta e precária por algum motivo, ou está doente, ou está plantada em local errado ou é a espécie errada. A situação é bem crítica. Eu fiz esse trabalho pensando que ia ser um pouquinho melhor, mas realmente descobrimos que Imperatriz tem uma das piores arborizações do Brasil.

IN: Como escolher as espécies adequadas para a realização deste trabalho na cidade?

DA: O primeiro é que se priorize as espécies nativas da região, o que são as espécies nativas da região? São espécies do cerrado e da floresta amazônica, essas são as espécies nativas da região, por exemplo, alguns tipos de Ipê. O segundo passo para escolher as espécies corretas são espécies que não tenham frutos grandes ou que caiam muitos galhos porque isso pode comprometer o ser humano como por exemplo a mangueira, a mangueira é linda, mas primeiro, a mangueira veio da Índia, segundo, pode   cair manga na cabeça de alguém, por mais que seja lindo, não é adequada para arborização urbana, talvez seja usual para parques. O terceiro passo é escolher espécies pelo tamanho da calçada, se a calçada é menor que 2,50 metros, nem adianta colocar uma espécie lá, ou se for colocar uma espécie, que seja uma de pequeno porte, até seis metros de altura, principalmente por causa da fiação. Onde não tem fiação e uma calçada maior que 2 metros, até 5 metros já dá pra se usar uma espécie de médio porte, de 6 a 12 metros de altura. Espécies de grande porte não são mais recomendadas para arborização na calçada, elas são recomendadas para arborização em parques e praças. Antes de tudo você não pode vir e plantar as espécies tem que conhecer a comunidade, faz-se uma percepção ambiental. Deve primeiro saber a percepção ambiental, o sentimento do ser humano pra a partir daí escolher as espécies adequadas.

IN:Como trabalhar a educação ambiental em uma cidade como a nossa?

DA: A primeira coisa que tem que ter investimento. Hoje em dia confunde-se muito educação ambiental com pequenas ações que fazem nas escolas, só que educação ambiental não é só chegar e distribuir muda, isso está muito errado. Não é assim que funciona. Se você for fazer educação ambiental com crianças, tem que ter um pedagogo, um psicopedagogo envolvido, se for trabalhar com adultos, também tem que ter um psicólogo ou um pedagogo. Sempre vai ter que ter alguém que possa transmitir a ciência de maneira correta transformando para a linguagem da população. Uma educação ambiental de qualidade envolve-se todos os atores, quem são esses atores? As Universidades, instituições de ensino, as pessoas que vão aprender, que são as crianças, os idosos, a população em geral, o público alvo. Também precisa da parceria da iniciativa privada, não adianta você fazer algo se a iniciativa privada não está com você, basta andar por onde tem o comércio e ver se tem uma árvore, não tem. A própria iniciativa privada quer mostrar seus painéis de neon e não sabe que seria muito mais agradável ter árvores ali. A educação ambiental deve ser previamente planejada, não tem que ser uma ação de marketing, que é o quea prefeitura e os órgãos fazem hoje, tem que ser algo que seja efetivo que depois você possa contabilizar se foi eficaz ou não.

IN: Quanto custa uma arborização, é muito cara?

DA:Com certeza uma arborização tem custo, veja bem, precisa produzir a muda, então tem que coletar a semente ou coletar um material propagativo, uma parte da árvore que possa se desenvolver. Precisa de pessoas que possam irrigar essas mudas, vão plantar elas. É recomendado que seja feita uma compostagem para não usar nenhum adubo químico, é preciso ter um local (a prefeitura daqui tem um local que está totalmente abandonado), vai precisar de terra, de saquinhos plásticos, mas existem alternativas como a caixinha de leite, dá pra usar materiais reciclados. Vai ser preciso também cuidar e conduzir estas mudas para que elas cheguem a um metro e meio, um metro e cinquenta. O custo é muito variável, o custo de produção de uma muda destas variam entre 5 e 50  reais por muda, dependendo do que foi usado.

IN:Como o cidadão comum pode ajudar nesse trabalho, plantar por conta própria ajuda ou atrapalha?

DA: Plantar por conta própria muitas vezes pode atrapalhar, a não ser que o cidadão saiba como fazer e conduzir. Por isso é preciso da educação ambiental, por que senão o cidadão vai plantar eucalipto na porta da casa dele, por exemplo, e eucalipto não vai gerar uma sombra necessária. Palmeiras, palmeiras são lindas também, mas muitas vezes não geram uma sombra necessária e arborização urbana precisa principalmente de folhosas para geração da sombra. O que o cidadão pode fazer? O cidadão pode cuidar da sua árvore,pode pedir para que a prefeitura venha fazer a poda de maneira correta, e não ele mesmo fazer, e ele pode também fazer com que os vizinhos também cuidem das árvores deles, essa é uma maneira eficaz. Pode também plantar árvore no jardim dele, porque não só nas ruas, mais importante ainda se cada pessoa plantar em seus jardins.

IN: Dentro do nosso país, há alguma cidade que considere um modelo quando o assunto é arborização?

DA:Curitiba é uma cidade modelo, inclusive tem uma divisão que cuida só da arborização urbana. Pra uma cidade ter uma arborização urbana tem que ter uma política de arborização urbana, tem que ter uma lei eficaz, além da lei existe algo que as grandes cidades têm, se chama Plano Diretor de Arborização Urbana, que o Rio de Janeiro tem, Curitiba tem, várias cidades tem. Curitiba, Recife, Goiânia, João Pessoa são cidades que tem arborização urbana muito boa.

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