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“O humor do nordestino é o melhor que existe”, diz Rogério Benício, um dos nomes mais conhecidos do teatro imperatrizense

“O humor do nordestino é o melhor que existe”, diz Rogério Benício, um dos nomes mais conhecidos do teatro imperatrizense

Entrevista e Fotos de : Dina Prado

 

“Eu nasci destinado a ser nada, mas eu lutei e luto por todos os sonhos que tenho.”

Nascido em Imperatriz, Rogério Benício tem 32 anos de idade. O ator que tem no currículo, 24 textos montados, destaca o espetáculo, Titanic da Sumaúma ao Embiral, com o que ficou mais tempo em cartaz, sendo também o de maior publico, mais de 12 mil espectadores. Lembra que a jornada profissional começou  cedo, com  14 anos ajudava no escritório onde a mãe trabalhava, chegou a ser Office boy; trabalhou em lojas de informática, porém era mesmo o teatro que pulsava forte em sua vida.

O teatro na vida do ator e publicitário esteve presente desde os tempos de escola. Ele  destaca que começou a fazer as primeiras peças nas atividades da igreja na comunidade Aparecida no bairro Vila Lobão, por meio dessas apresentações a paixão pelo teatro foi aumentando e fez com que buscasse a profissionalização o que se deu através de um curso de teatro na época oferecido pela Fundação Cultural de Imperatriz.

Rogério destaca o preconceito como o obstáculo mais recorrente no início da carreira, preconceito de todas as formas: orientação sexual, amor ao teatro e condição social; nem mesmo a família aceitava seu interesse pelo teatro. A perseverança foi fundamental para o sucesso do ator que está na Cia de Teatro Okazajo desde o início há 14 anos.

Hoje, é um dos nomes mais conhecidos no teatro imperatrizense. A Cia de teatro se consolidou e está sempre com  novos  espetáculos em cartaz, porém ele  diz que não dá para viver só de teatro em Imperatriz, por isso também se dedicou a outra atividade, atuando como publicitário e cuidando da divulgação e imagem de grandes marcas no comércio local entre elas; Paula Bijoux e Portal da Sorte. E  não para por ai,  junto com outros quatro membros da equipe Okazajo há um ano e meio realizam um dos programas de rádio de maior audiência na cidade chamado “Estopim” onde  abordam temas da atualidade, celebridades e entretenimento.

Nesta entrevista, compartilha sua experiência no teatro e faz uma análise sobre a forma como a cultura é tratada na cidade. Rogério nos recebeu em sua sala na agência que trabalha como publicitário, simpático e atencioso fez questão de responder todas as perguntas e não deixou de enfatizar o respeito e carinho que tem por Imperatriz.

 

Imperatriz Notícias: Você viaja frequentemente a trabalho. O fato de você ser de Imperatriz, interior do Maranhão, já atrapalhou ou fechou alguma porta?

Rogério Benicio: Eu já fiz algumas coisas no Rio de Janeiro e São Paulo e o fato de você ser nordestino, atrapalha um pouco, as pessoas não veem você como uma pessoa capacitada. Elas te enxergam às vezes como uma pessoa burra, uma pessoa incapaz, uma pessoa que não tem talento, eles se acham muito superiores intelectualmente, o preconceito existe de verdade. Tem gente que dá valor, tem gente que respeita, mas existe muito preconceito.

IN: Você acredita que esse preconceito existe pelo tipo de humor nordestino?

RB: Não, porque o humor do nordeste para mim é o melhor que existe. Para  mim os melhores humoristas estão no nordeste, os mais talentosos que fazem rir de verdade. A  piada do nordestino faz a pessoa rir sem ofender. O  humor paulistano, o humor carioca, é diferente. Eles  tem que ofender, é um humor que se baseia em política. O  nordestino  ri de si mesmo, o paulista faz a pessoa rir ofendendo ela, falando de gordo, falando de pobre. O  nordestino faz piada de si mesmo, do que acontece com ele, do que acontece com a mãe dele.

IN: É comum ouvirmos que não é fácil fazer comédia. Na  sua opinião, o que é preciso para fazer rir?  

No palco do Teatro Ferreira Gullar, momentos antes do stand up “Feio pobre e viado”

RB: Você tem que ter muita coragem, acreditar no que você vai fazer. Não  pode ter medo. O  medo de fazer comédia é devastador. Você  precisa entender o que está fazendo. A gente busca dentro do cotidiano. O  segredo da nossa comedia é o dia a dia das pessoas, é expor  situações que ela se vê, que ela se diverte.

IN: A cidade de Imperatriz tem sempre uma certa expectativa quando um novo prefeito assume em relação a Secretaria de Cultura e as ações que serão desenvolvidas. Como você avalia as iniciativas da prefeitura no que tange o teatro?

RB: A gente sempre espera que alguém veja, que alguém olhe para cultura. Que  algum prefeito veja. A  gente sabe e respeita que as prioridades sejam a educação, sejam a saúde, a infraestrutura, tudo que a gente precisa, mas a cultura faz parte. Infelizmente  em Imperatriz a cultura se resume à música. Se  você pegar os projetos da Fundação Cultural, todos são voltados para música. Não  é feito nada com teatro, nada. Aqui o Okazajo, o grupo da cidade, nunca foi chamado para um evento da Prefeitura, nunca foi colocado para o aniversário da cidade. A  única vez que a Cia se apresentou em praça pública foi a convite da Cia Pão Com Ovo, de São Luís.

IN: Você acha que o imperatrizense valoriza a arte desenvolvida aqui?

RB: Demais! Se não fosse o nosso público. As pessoas em Imperatriz são muito patriotas, elas respeitam o que é nosso, o que é daqui. Elas  dão força. Vê o tempo da banda Baetz, da Fruta Mel, o Estênio quando estourou, todo mundo apoiou. O povo de Imperatriz é um povo muito bom. Um  povo que respeita sua cidade sua cultura. O  Okazajo não seria nada sem as pessoas daqui. Quando a gente foi na Xuxa as mensagens que recebemos foram muito carinhosas, teve gente que colocou a televisão na porta. As pessoas valorizam, quem não valoriza realmente são os políticos.

IN: Como você gostaria que o  Secretário de Cultura de Imperatriz atuasse?

RB: Que ele olhasse para outros artistas, que não fossem só músicos. Pensasse  no artista plástico, no escritor, no artista do teatro, no poeta. A  cultura não se resume em colocar um palco no meio da rua e colocar gente para cantar, ela é bem mais abrangente.

IN: Você já falou da musica. Do  que você sente falta na cultura de Imperatriz?

RB: Da semana Imperatrizense de Teatro, que era referência, grupos de diversas cidades do Nordeste queriam vir participar. Eu  já assisti a apresentações grandiosas no Teatro Ferreira Gullar e hoje em dia a gente não tem mais nem como fazer esse intercâmbio cultural. Não temos mais a Feira de Artesanato, que tínhamos com apresentações de músicas, rodas de leituras, exposições de artistas plásticos… Imperatriz já foi muito rica culturalmente e hoje em dia o que temos é o carnaval, um são João intimista e os shows particulares.

IN: Você já pensou em desistir da profissão de ator?

RB: Não! Já pensei em dar um tempo por causa da minha profissão de publicitário, que é quem paga meu aluguel e a prestação do carro. Mas  não tem como, o amor fala mais alto, é o que realiza a gente emocionalmente é a profissão de ator, então não tem como parar.

IN: A peça “Cinquenta tons de taca”, gerou grande polêmica durante a divulgação, uma vez que o cartaz na opinião de algumas pessoas fazia uma apologia à violência contra a mulher. Como  é tratar de um assunto sério de forma cômica?

RB: Ali foi um vacilo muito grande da gente. A  gente foi infeliz quando colocou a mulher com o cinto nas costas, até hoje eu me desculpo por isso, jamais vamos cometer outro deslize desses, nós erramos mesmo, nós pecamos na verdade. Eu sou militante engajado na luta das minorias. Nós  estávamos falando da taca da mãe no filho. Tanto  que quando os promotores viram  nosso espetáculo, eles disseram: ‘realmente seu espetáculo é uma diversão’, porém fizemos tudo como eles pediram.

IN: Não podemos encerrar essa entrevista sem falar da polêmica que foi a não realização do show de Pabllo Vittar em Imperatriz no mês de setembro. Você é amigo da equipe que estava organizando o evento e acompanhou tudo de perto. Na  sua opinião o que realmente aconteceu?

RB: Para você vê como as pessoas são patriotas em Imperatriz, elas ficaram com raiva porque Pabllo não veio e ele não veio porque não quis! Ele está num patamar de sucesso, se acha blindado e que pode fazer o que quiser sem ser prejudicado. Ele causou um prejuízo sem tamanho para as pessoas da organização. As pessoas gostam que respeitem Imperatriz, respeitem a sua cidade, eu acho que (a fama) subiu à cabeça e ele está meio estrela.

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