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Registrar corretamente tentativas de suicídio ajudará no atendimento

Registrar corretamente tentativas de suicídio ajudará no atendimento

“Após uma tentativa de suicídio iremos receber a notificação no sistema e realizaremos uma busca para saber qual o acompanhamento que a pessoa precisará”, ressalta a enfermeira Hélcia Regina Lima Gonçalves

 

 Hélcia (esq): rede busca ampliação do serviço

A coordenadora do Núcleo de Vigilância de Doenças Não Transmissíveis (DANT’S), Hélcia Regina Lima Gonçalves, defende que é necessário intensificar a cooperação entre as instituições de saúde para a prevenção do suicídio em Imperatriz. Entre os procedimentos está a correta utilização da ficha de notificação compulsória para que possam conhecer a realidade dos casos na cidade.

A enfermeira informa que o núcleo trabalha com todas as patologias não transmissíveis.  Para mapear os procedimentos, é adotada uma ficha de notificação compulsória que identifica as agressões que podem ser autoprovocadas, como o suicídio, ou interpessoais, a violência entre pessoas ou grupos. A entrevista foi concedida ao projeto Coletivas, da disciplina de Técnicas de Reportagem, do Curso de Jornalismo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é uma problema de saúde pública. O Brasil ocupa o indesejável oitavo lugar no ranking de países com maior número de suicídios. Como a sra. vê o suicídio, de acordo com sua vivência na área da saúde?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – O suicídio existe desde que o mundo é mundo. Esse fenômeno vem crescendo a cada dia. Hoje, mais de um milhão de pessoas, morre ou tenta morrer por suicídio no mundo e acaba sendo a décima causa de morte no nosso país. São muitas pessoas morrendo. Enquadramos o suicídio em diversas situações, mas vamos falar de duas vertentes: a positiva e a negativa. Para quem quer cometer esse ato é um pensamento positivo, mas, para nossa cultura, o pensamento suicida é negativista, principalmente porque nossa cultura é muito influenciada pala religião, somos em maioria cristãos e, por essa vertente religiosa, vamos ter o suicídio como um ato negativista. Mas para alguns estudiosos, inclusive jornalistas,  é um pensamento positivo.  E o principal pensamento positivo que a pessoas tem: “Eu vou resolver meus problemas”. Como? Com a morte.

Mas nós trabalhamos o suicídio como uma questão negativa, podemos apontar diversas causas. Uma delas é que pessoas que pensa e comete suicídio estaria teoricamente em estado de depressão e a depressão é a grande patologia do nosso século. Vários problemas de saúde vêm da depressão e o suicídio é um deles.

A ficha de notificação compulsória é recente, antes a mesma era somente preenchida pelos médicos, hoje em dia qualquer profissional de saúde que socorreu a vítima tanto no atendimento público quanto no privado é obrigado a preencher e depois encaminhar ao DANT’S (Doenças de Agravo Não Transmissíveis). Após chegar até vocês, qual o processo?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Após uma tentativa de suicídio iremos receber a notificação no sistema e  realizaremos uma busca para saber qual o acompanhamento que a pessoa precisará. A própria ficha possui um espaço especificando o órgão em que a pessoa pode ser encaminhada. Se for criança ao Conselho Tutelar, se for mulher à Delegacia da Mulher ou clínicas, hospitais, posto de saúde, entre outras instituições. Então buscaremos saber se tal pessoa possui algum acompanhamento, não somente no núcleo, mas na atenção básica de forma geral.

Uma das maiores benfeitorias dessa fixa de notificação compulsória é a identificação e recolhimento de dados de pacientes que tentaram suicídio e encaminhamento para a ajuda necessária. Você acha que em Imperatriz essas notificações estão ocorrendo corretamente e está sendo possível atender a população?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Sendo bem realista, ainda estamos iniciando o processo de atendimento à população. Nós estamos começando o processo de ampliação dos nossos atendimentos e conscientização dos profissionais da área de saúde agora. Temos parcerias com órgãos das mais diversas especialidades, pois não envolve só o suicídio, como, por exemplo: Secretária de Trânsito, a Delegacia da Mulher, as UPA’S (Unidade de Pronto Atendimento), o Socorrão, Socorrinho e hospitais privados, onde temos maior dificuldade. Existem tentativas de suicídio e um número considerável nas classes média e alta, mas não conseguimos identificar com clareza, pois são atendidos em hospitais particulares e pedem sigilo e tem esse direito. Só pode fazer a visita, independente se a rede de atendimento é pública ou privada, se a pessoa permitir e, se caso seja tentativa de suicídio, pois se houver óbito, a família é obrigada a nos receber. Tem um sistema que precisa ser fechado com esses dados de forma adequada, o que chamamos de “investigação de óbito”. Eu costumo dizer que ainda é uma situação subnotificada em Imperatriz. Identificam esses casos através do preenchimento da ficha, daí essas notificações vão até a gente, se não for, muitas vezes ninguém fica sabendo.

O suicídio é provocado por uma junção de diversos fatores. De acordo com os dados levantados, quais são as principais causas que levam uma pessoa a cometer suicídio na cidade?

Hélcia Regina Lima Gonçalves –  Diversos fatores mesmo, o suicídio pode estar ligado à depressão, uma questão financeira negativa, às situações de morte, perda de emprego recentemente, casos de divórcio ou perdeu um grande amor. A questão amorosa influencia muito e gera depressão, principalmente em jovens e adultos, entre outros fatores.

Nesse sistema de notificação existe uma classificação para registrar se houve reincidência em casos de suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Temos na ficha um espaço que pergunta se é a primeira vez que a pessoa tenta o suicídio ou se já e consecutivo e será marcado o caso da pessoa. Se for consecutivo a gente pensa: “poxa, essa pessoa não está tendo uma ajuda necessária”. Então fazemos um atendimento para ela o mais rápido possível. Quando eu falo em descentralização para as unidades é porque não conseguimos ir à casa de todos que precisam de ajuda em Imperatriz. Até porque não atuamos somente em Imperatriz, recebemos notificações de várias outras cidades mais próximas, incluindo os estados do Pará e Tocantins, pois essas cidades trazem o paciente para o atendimento aqui nos hospitais municipais.

Pode acontecer de um funcionário da saúde não preencher essa ficha ou não preencher de forma correta? E sem tem alguma punição nesses casos?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Não existe. O profissional irá receber uma notificação para esclarecer o porquê do não preenchimento da ficha. Não haverá punições ou advertências, mas uma orientação dos responsáveis do setor para que possa acontecer a execução dessa tarefa de forma correta. Essa é somente uma das diversas fichas que existem para serem preenchida naquele lugar, por aquela pessoa. Quando você exerce uma função, adquire várias obrigações e você não deve deixar de fazer nenhuma dela se forem suas. Qualquer profissional de saúde pode fazer o preenchimento da ficha do paciente. É claro que logo que der entrada é necessário que se priorize a vida, mas antes desse paciente receber alta, esse procedimento tem que ser realizado. Caso a nossa instituição seja comunicada, mesmo se for um caso que não foi notificado antes, iremos assistir esse paciente da mesma forma. Muitas vezes os parentes, vizinhos ou agentes de saúde nos procuram e, por fim, nos dirigimos até a residência para realizar o atendimento.

A rede pública de saúde tem que trabalhar em parceria de forma coesa. Quais desses parceiros seria o principal?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Os postos de saúde são de suma importância na identificação de ideação suicida. Nos bairros estão os postos de saúde com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde. Eles estão mais próximos da população. Os agentes de saúde é aquele indivíduo que sempre está na sua casa. De alguma forma, ele vai participar da sua vida, ouvindo, observando o que circunda. É chamado de “fofoqueiro”, sempre querendo saber da vida das pessoas, mas na verdade ele quer saber é da saúde da população. O agente de saúde vai visitar e tentar entrar nesse aspecto. Por quê? Vai proporcionar o tipo de ajuda que a pessoa está necessitando e a encaminhará para o atendimento certo.

Como é feita a abordagem com uma pessoa que tentou o suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Nós não podemos ser tendenciosos, em hipótese alguma. Não podemos envolver aspectos religiosos. Eu tenho a minha, ele (paciente) tem a dele, que pode até ser a mesma minha, mas não podemos envolver esse aspecto de nenhuma forma, definindo o que é certo ou errado. Nós devemos descobrir o porquê de tal atitude para fazero encaminhamento mais adequado. Nem todos os praticantes de suicídio possuem problemas mentais, diferente do que a maioria das pessoas pensa. As doenças mentais são diversas e temos que ter cuidado ao analisar cada caso. Por exemplo, tem pessoas que fazem a auto-mutilação, porém não é considerado tentativa de suicídio. A pessoa se corta toda ou decepa partes do corpo, mas não quer provocar sua morte. Ela está agredindo, se violentando e se mutilando, mas nem por isso quer se matar.

Qual e a relação entre álcool, drogas e o suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Os jovens tendem a ir mais para o lado das drogas ilícitas, no início. Alguns procuram para se sentirem melhor, outros, por outro lado, procuram porque já conhecem e sabem que vai “deprimir” seu sistema nervoso central. Entre os jovens e adolescentes, o que mais intensifica o desejo de se suicidar é o uso de álcool, seguido das drogas ilícitas. O uso de álcool está tão livre, porque, mesmo estando lá escrito “proibido a venda de álcool para menores de 18 anos”, vemos muitos jovens de ambos os sexos bebendo livremente.  Nossa forma de nos vestir confunde, os adultos se vestem como adolescentes e os adolescentes se vestem como adultos e não sabemos mais a idade cronológica das pessoas. Por isso você senta em uma mesa de bar, toma uma bebida e ninguém te pede um documento para confirma tua idade, no Brasil ainda é assim. Em outros países, só é possível entrar em bares se apresentarmos documentos de identidade. E, por isso, o alcoolismo tem crescido muito e o suicídio junto, visto que é um dos fatores agravantes.  Isso não quer dizer que vou ficar bêbado e vou querer me suicidar. Algumas vezes sim, outras não.

Qual o perfil das pessoas que tentam o suicídio em Imperatriz, segundo os registros oficiais?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – É mais comum entre mulheres de classe média, na faixa etária entre 13 a 35 anos. As pessoas tentam se suicidar de diversas formas, geralmente por pesticidas, que não é somente remédios para rato. A primeira coisa que quem está pensando em se suicidar procura, porque é mais palpável e mais fácil, é um pesticida, do que uma arma de fogo. É menos doloroso que se enforcar e tentar morrer por asfixiar. Quando você está se auto-mutilando, vai chegar um momento que seu corpo pede tanto para parar que é capaz da pessoa desistir, enquanto os pesticidas agem no corpo, através da corrente sanguínea, por isso ainda está como primeira forma de tentativa de suicídio. Só no ano passado em Imperatriz, tivemos um registro de 32 tentativas de suicídios entre mulheres, destas 22 dos casos foi por envenenamento e 2 intoxicações medicamentosa, apenas 2 por arma de fogo e 1 óbito, ou seja, das 32 tentativas, somente oito casos não foram por tentativa de envenenamento. Já no mês de março deste ano, tivemos 23 tentativas de suicídios e dois óbitos, números que precisam ser combatidos com urgência.

Sua experiência na área da saúde lhe garante uma percepção mais aguçada para notar quando uma pessoa esta precisando de ajuda. Como você faz essa identificação do paciente?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Como enfermeira, recebemos muitas pessoas e podemos perceber pela fala, no momento do atendimento, que ela está enfrentando alguma situação que pode levar ao suicídio. Quando a pensar diz: “eu quero sumir por um tempo”; “quero dormir e não acordar mais”; “quero dormir por três dias”, é preciso ficar atento, principalmente pessoas mais próximas como filho, pais e amigos, independente da idade. A pessoa pode estar com algum problema grave. Para você pode não ser, mas para ela sim. Temos que pensar da seguinte forma: somos indivíduos diferentes, mesmo que passemos pelo mesmo problema, cada um vai agir de uma forma diferente. Então todos nós devemos ficar atentos principalmente para as pessoas mais próximas da gente, assim podemos ajudá-las a tempo.

 

Equipe organizadora da entrevista coletiva/fotos: Bruno dos Santos, Leide Mayara Cruz  e Luciana Bastos.

 

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