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SUICÍDIO ENTRE MULHERES: a dor da violência que fragiliza a população feminina

SUICÍDIO ENTRE MULHERES:  a dor da violência que fragiliza a população feminina

ESTUPROS E VIOLAÇÕES SEXUAIS  SOFRIDOS NA INFÂNCIA E A TRAIÇÃO DOS PARCEIROS SÃO ALGUMAS DAS CAUSAS DOS SUICÍDIOS ENTRE MULHERES

POR BRUNO DOS SANTOS, LEIDE MAYARA E LUCIANA BASTOS

 

Maria: parceiro violento e separação

O suicídio atualmente é considerado um dos principais problemas de saúde pública em todo mundo. Segundo o último relatório das Organizações Mundiais de Saúde (OMS), as taxas mundiais de suicídio aumentaram em 60% em 50 anos, o que significa o registro de 1 milhão de casos por ano, 3 mil por dia, uma morte a cada 40 segundos em alguma parte do planeta. O Brasil está em oitavo lugar no ranking mundial de países com o maior número absoluto de suicídios. Esse índice perde apenas para homicídios e acidentes de trânsito em mortes por fatores externos (o que exclui doenças).  Para a Organização das Nações Unidas (ONU), o problema é muito mais grave nos países pobres, onde os suicídios  correspondem a 50% das mortes violentas de homens e 71% entre as mulheres.  São 60 mil tentativas de suicídio em todo mundo por ano.

Em Imperatriz, o Centro de Doenças de Agravo Não Transmissíveis (DANT’S) notifica casos de violência interpessoais e autoprovocadas. As notificações compulsórias são fundamentais para identificar vítimas suicidas e encaminhá-las ao atendimento médico especializado. Segundo a enfermeira Hélcia Regina Lima Gonçalves, coordenadora na divisão de Vigilância em Saúde, o suicídio na nossa cidade “ é mais comum entre mulheres jovens, na faixa etária de 13 a 35 anos. Não é uma diferença muito grande, mas diante dos nossos dados, o número de mulheres é superior, sendo a maioria da classe média”.

De acordo com o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) de Imperatriz,  em 2016 tivemos um registro de 32 tentativas de suicídios entre mulheres, destas 22 dos casos foi por envenenamento e 2 intoxicações medicamentosa, apenas 2 por arma de fogo e 1 óbito. Esses números podem ser bem mais elevados, visto que se acredita que tenha um número bem elevado de subnotificações e registros inadequados nas fichas dos pacientes.

VIOLÊNCIA CONTRA MULHER E O SUICÍDIO

Maria*, 32 anos,  foi molestada sexualmente na infância e teve um relacionamento conjugal extremamente violento. Ela pensou em se suicidar algumas vezes durante o casamento, tomou medicamentos, deixou o gás ligado, mas nunca conseguiu “êxito” em suas tentativas de acabar com toda dor e sofrimento. Hoje, já separada, morando com seus dois filhos, tem um novo companheiro, melhorou bastante sua auto-estima, através de ajuda de psicólogos. Mesmo assim, ainda tem momentos de depressão profunda, o que atrapalha sua vida social e o desempenho no trabalho.

As mulheres são as que mais buscam ajuda.  Segundo a assistente social Ana Cristina Assunção Oliveira, do Caps,  “as principais causas que levam as mulheres a procurar ajuda e tentar o suicídio costuma ser o fato de serem vítimas de violência doméstica, estupros e violações sexuais, geralmente cometidas por familiares na infância e traição”.

Maria exemplifica o caso de muitas mulheres com ideação suicida em todo mundo. “Eu vivo em uma montanha russa, com altos e baixos, não tenho mais vontade de me matar, mas às vezes não quero ver ninguém, não sei o que estou fazendo da minha vida, não vejo sentido algum” explica Maria.

Ela enfatiza que o apoio de familiares e amigos foi fundamental para que repensasse suas ações. “O que me ajudou muito foi o fato de encontrar uma amiga que me ouviu e não me julgou. A partir daí, procurei ajuda profissional. Comecei a me aproximar mais das pessoas, mesmo quando não estava com vontade. Era um exercício diário de auto-conscientização para não entrar em crise novamente”.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) afirma que a cada vítima de suicídio, 20 pessoas são afetadas.   João* é ex-namorado de uma jovem de 25 anos que se suicidou há 5 anos. “Eu não percebi que ela precisava de ajuda, achei que éramos felizes e que a tristeza era coisa de mulher, de TPM (tensão pré-menstrual). Ela se isolou até de mim, eu foquei no trabalho que tinha começado. Mas hoje eu vejo que não dei atenção que ela precisava”, analisa.  “Senti-me impotente, incapaz de ajudar ela. Eu e a família dela nos isolamos no começo, fiquei deprimido. Achei que ela estava segura em casa e não ia tentar de novo, que quando ela falava que não tinha vontade de viver, não era sério”, relembra João.

João: tristeza após suicídio da namorada

 

DOENÇAS MENTAIS  E AS DIFERENÇAS

A maior parte dos suicidas pode ter alguma doença mental que não foi tratada  por desconhecimento. As principais doenças associadas ao comportamento suicida são depressão; transtorno bipolar; transtorno relacionado ao uso de álcool e outras substâncias; transtorno de personalidade e a esquizofrenia.

A depressão é uma das mais frequentes doenças, estimando-se  que entre 6% e 8% da população pode desenvolver esse quadro pelo menos uma vez ao ano. Ao logo da vida, até 25% das mulheres e entre de 10% a 12% dos homens também terão pelo menos um episódio depressivo. O transtorno de personalidade atinge entre 10% a 15% da população geral, o que aumenta os riscos de suicídios em até 12 vezes para homens e 20 vezes para mulheres, principalmente no transtorno de personalidade anti-social.

 A psicóloga Suêile Lima, que trabalha na Prefeitura de Imperatriz no Setor de Inclusão e Atenção a Diversidade (SIADI), afirma não há um perfil específico da mulher que tenta o suicídio. “Não há exatamente um perfil fixo, tem todo um contexto. Em grandes cidades, por exemplo, existe um número maior de pessoas cometendo suicídio, talvez seja pelas relações interpessoais serem mais difíceis ou pelo fato de que em cidades menores não tenha uma contabilização apropriada para observar os índices de suicídio como nas cidades maiores”.

A psicóloga Maiara Amorim explica as diferenças de homens e mulheres em relação aos suicídios.  “As taxas de suicídios são maiores entre homens por que eles usam métodos mais violentos, por isso acabam tendo mais êxitos em suas tentativas, e na grande maioria dos prontuários já aparecem com óbito,  por isso fica difícil identificar suicídio. Já as mulheres têm um número 3 vezes mais de tentativas”.

 

Maiara Amorim:  mulheres tentam mais vezes o suicídio que os homens

 

CONHEÇA OS CENTROS DE APOIO

Disponibilizamos alguns locais na cidade onde você pode procurar ajuda  ou indicar a alguém que apresenta algum dificuldades emocionais. Os pacientes são encaminhados aos profissionais de acordo com a necessidade de cada um.

Centro de Referência de Assistência Social (CRAS): Rua Marechal Hermes da Fonseca, 49, Juçara (lembrando que essa é a sede central, mas há CRAS espalhados em  bairros da cidade. Os postos de saúde podem informar o mais próximo)

Centro de Atenção Psicossocial (CAPS): Rua Rafael de Almeida, s/n, Parque Anhanguera, prédio do complexo de Saúde

Centro de Referencia a e Atendimento a Mulher (CRAM): Rua Sousa Lima, 54, Centro.

Centro de Valorização da Vida (CVV): atende em todo território nacional através do número 141 e por chats, e-mails e skype através do site http://www.cvv.org.br/

 

*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado

** Reportagem realizada na disciplina Técnicas de Reportagem (2017.1)

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