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TENTATIVAS DE SUICÍDIO: casos de quem sobreviveu e busca nova vida

TENTATIVAS DE SUICÍDIO: casos de quem sobreviveu e busca nova vida

ESCUTA AMOROSA E APOIO PROFISSIONAL SÃO EXPERIÊNCIAS VIVIDAS POR QUEM , APÓS TENTAR O SUICÍDIO, ENCONTROU MOTIVAÇÕES PARA VIVER

 

 O ideal é ouvir as pessoas  e conhecer suas dores, sem julgá-las

 

POR AMANDA MACHADO CARDOSO DOS SANTOS, ELIZA MACHADO CARDOSO, MANOEL JÚNIOR E MARIANE MORAIS NOGUEIRA

De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil, a cada hora, de dez pessoas que tiveram a tentativa de suicídio frustrada, oito conseguiram superar essa ideia. Em Imperatriz, infelizmente não se tem registrado o número exato de pessoas que sobrevivem à ideação suicida – desejo de cometer suicídio. Sabe-se apenas que em um grupo de 50 pessoas que estão em acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), 50% tem ideação suicida. “Todos os que aceitam o tratamento têm 90% de chance de superar e reconstruir a vida”, afirma a psicóloga Dayse Silva.

A coragem e a determinação são palavras que expressam os sentimentos de José Amaro*, de 47 anos, morador do bairro Nova Imperatriz, de Carla Pereira*, de 26 anos, moradora do bairro Santa Rita, e de Josélio Silva*, de 28 anos, morador do bairro Santa Inês. São pessoas que sobreviveram à experiência dolorosa de tentativa de suicídio. A resiliência é uma característica evidenciada através do diálogo e das batalhas vividas por eles, que outrora perderam totalmente a esperança.

O Ministério da Saúde considera o suicídio como um problema de saúde pública e as estatísticas só aumentam, principalmente entre os jovens de 15 a 29 anos. Ao abordar o tema com o auxílio de profissionais que trabalham com o suicídio, é possível entender os conflitos de cada um, sem julgá-los. Retratar histórias complexas dos que tentaram tirar a própria vida e não conseguiram, acompanhar seus relatos, especialmente das que perceberam, após a tentativa frustrada, uma nova forma de ressignificação da experiência, dando ênfase ao poder de superação do ser humano, é importante e necessário para que outras pessoas, que vivem a angústia e o sofrimento trazido pelo pensamento suicida, percebam que há outras maneiras de encontrar uma saída para situações extremas.

VOZES E VIDA

“Há aproximadamente um ano atrás, comecei a conviver com uma tristeza, me isolava, não queria falar com ninguém. As pessoas que me conheciam estranhavam a minha ausência em festas e reuniões entre amigos. A maioria das vezes, eu estava em casa ouvindo músicas que só alimentavam a minha tristeza. Sentia tanta angústia! Não demorou muito, a dor passou a ser física pela somatização de angústias. Acreditava que minha vida era como uma peça de teatro na qual eu criava meus personagens e apresentava uma péssima atuação. Passei por tantos estágios de aflição que cheguei a ponto de tentar suicídio e ser internado em uma clínica”, afirma José*, que em uma atitude de completo desespero e acreditando que aquela seria a melhor solução para seus problemas, tentou tirar a própria vida.

“Vou aproveitar este momento em que todos estão falando sobre esse assunto. Acredito que agora é o momento de contar, o que eu senti, um completo desespero”. José* relata a complexidade de percebermos comportamentos de risco em pessoas com depressão. Muitas pessoas da própria família ainda não sabiam o que tinha acontecido. “Sempre me incomodou o fato de não falar sobre o assunto. Quanto mais falarmos sobre o assunto, mais pessoas poderemos ajudar”, esclarece José.

Carla* lembra dos dias de angústia e vazio. “Cheguei a um ponto de não aguentar mais a situação sozinha e me deixei ser ajudada. E isso foi fundamental para iniciar o tratamento e conseguir melhorar. Nenhuma pessoa tem culpa de ter um distúrbio psicológico, não é algo que a pessoa decide ter”. “Às vezes queremos falar, partilhar nossas angústias com a família, com os amigos, no entanto a vergonha não nos permite fazer isso com medo de sermos julgadas como fracos, principalmente nós do sexo masculino”, diz Josélio*.

 

O medo de ser julgado impede a partilha do sofrimento

COMO AJUDAR?

Para o psicanalista Jailton Tenório Onofre, existe uma causa para a alteração de comportamentos. Se a família estiver atenta às mudanças e descobrir a causa dessa mudança, ajudará a desconstruir uma ideia e a construir outra, como explica: “ A única forma de interferir é fazendo a leitura das entrelinhas, ou seja, as mudanças de comportamento e movimento do sujeito, da fala do sujeito”. Onofre alerta para a falta de debate sobre as origens e causas da ideação suicida e acredita na informação e no acompanhamento profissional adequado como capazes de frear a concretização da ideia.

É  importante abrir espaço para ouvirmos a voz dessas pessoas que sobreviveram, para compreender e contextualizar os sentidos atribuídos às suas experiências, de tal forma que elas se sintam encorajadas a narrar suas histórias de vida, externando opiniões, crenças e valores em relação às suas frustrações.

De acordo com as narrativas dos sobreviventes, alguns fatores são determinantes no enfrentamento da ideação suicida, dentre eles podemos destacar: o apoio família, os grupos de apoio que promovem a escuta sem julgamentos, a espiritualidade, a medicação e os suportes psicológico e psiquiátrico.

 

*José Amaro, Carla Pereira e Josélio Silva são nomes fictícios para resguardar a identidade das pessoas entrevistadas e de suas famílias.

** Reportagem realizada para a disciplina Técnicas de Reportagem (2017.1)

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