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Filmes dublados privam lazer dos deficientes auditivos

Filmes dublados privam lazer dos deficientes auditivos

Texto: Erika Nogueira e Even Grazielly

Edição: Mariana de Paula Medeiros

Quem não gosta de ir ao cinema e assistir um bom filme? Para muitos fazer isso é um programa simples, pois é uma atividade leve que costuma agradar grande parte dos públicos. Entretanto, nem todo mundo consegue ter acesso a esse tipo de programação pois existe uma certa dificuldade para uma dessas classes: os deficientes auditivos.

Em Imperatriz, há duas franquias de cinema que estão localizadas nos principais shoppings da cidade, o Cine Star e o Cinesystem, porém ambos não possuem em suas grades sessões legendadas para todos os filmes que estão em cartaz ou em todos os horários. Tornou-se comum exibir os longas metragens com legendas apenas em dias de estreia ou, se muito for, nos horários noturnos da semana estreante, o que impede a ida de muitos que dependem de transporte público.

Segundo um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 9,7 milhões de pessoas que possuem algum grau de deficiência auditiva e que devem ser amparadas conforme a Lei Federal 13.146, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, criada em 6 de julho de 2015, e em vigor desde 2016. A lei prevê a inclusão da pessoa com deficiência com fácil acesso aos bens culturais tais como televisão, teatro e salas de cinema.  Todavia, mesmo tendo esses direitos garantidos por lei, não há igualdade de oportunidades aos não ouvintes ou aos que necessitam de adequação de acessibilidade comunicacional.

A estudante Andressa Ribeiro dá recado para a população

Andressa Ribeiro, estudante de pedagogia, possui deficiência auditiva, mas consegue oralizar algumas coisas. Fã de filmes de romance, comédia e nacionais diz que sente muita vontade de sair para assistir um filme, mas encontra muitas dificuldades, pois os estabelecimentos não estão preparados para recebê-los. “O problema é a questão da legenda. Se tem um filme que eu sei que vai ser legendado, eu vou assistir. Às vezes, é muito difícil por conta do horário. Quando tem a noite, termina muito tarde, aí eu não posso ir. Gosto de ir cedo com um grupo de outros surdos”, desabafa. Ainda há a questão dos filmes brasileiros serem exclusivamente dublados, excluindo os que possuem alguma deficiência auditiva de assistir às produções do próprio país, ficando o entendimento limitado à parte visual.

A lei observa que além de legendas, o ideal seria um tradutor da Língua Brasileira de Sinais (Libras) em teatros, em apresentações de danças, de músicas e cinemas. Para Andressa, há um despreparo até maior: “Se as pessoas entendessem Libras seria bem melhor. Um momento de paz, por que os ouvintes têm o costume só de falar, falar e o surdo enfrenta muitas barreiras, porque há aqueles que conseguem oralizar, mas mesmo assim, ainda é um processo complicado” acrescenta.

O professor de Libras, Caio Henrique Rodrigues, também deficiente auditivo, se queixa do mesmo problema: “A dificuldade que a gente encontra, é que na maioria das vezes o filme não tem legenda, então fica difícil para quem tem um grau de surdez ou para quem é absolutamente surdo”.

O gerente do cinema Cine Star, Ronny Rodrigues, justifica alegando que existe procura por filmes legendados, mas o público ainda é muito pequeno. E é por esse motivo que a sessão de longas metragens legendados está restrita apenas a estreia ou em sessões especiais, como a que ocorreu no dia 07 de abril, após o pedido de um deficiente auditivo para assistir à “Mulher Maravilha” em um horário de exibição à tarde. “Todos os dias, comercialmente falando, não tem retorno nenhum. Agora pela lei da pessoa com deficiência tem que ter um filme legendado”, afirma. O gerente assume também que o cinema ainda não tem preparo para receber este público, pois não há funcionários que saibam falar em Libras, mas que todos os meses ele tem procurado fazer ações sociais, sendo a próxima etapa realizar um treinamento com os funcionários para que os mesmos possam saber como atender melhor pessoas com esse tipo de deficiência.

Como alternativa, Ronny explica que irá exibir filmes legendados em apenas um dia da semana, na quarta-feira, na tentativa de garantir a inclusão, e que visa, assim, ao mesmo tempo, não atrapalhar o financeiro nem o cliente ouvinte. Ele admite que após a procura de pessoas com deficiências auditivas repensou a grade da exibição de filmes e pediu que se juntassem para solucionar a adversidade.  “O problema é que nem todo mundo pode vir no dia da sessão. Nós temos a procura, mas eles demoram muito a vir para o cinema, por isso, sempre temos sessões legendadas nos lançamentos. Às vezes, quando eles vem não, tem. Então pedi a eles que fizessem um grupo no whatsapp para reunir o máximo de pessoas possíveis na sessão de quarta, para que pudéssemos atendê-los”, conta.

A administração do Cinesystem, uma das redes de cinema do munícipio, não quis dar entrevistas. No entanto, funcionários, que optaram por não se identificarem, afirmaram que o cinema não há nenhum preparo para receber pessoas surdas.

Projeto – Em 2007, foi criado um projeto que visa ampliar a Lei Federal nº 10.098 do ano 2000, passando, assim, a prever o seguinte: artigo 17 – As distribuidoras de obras cinematográficas ou videofonográficas para exibição em salas de cinema, e os organizadores de exibições de peças teatrais e demais obras cenográficas são obrigados a legendar as obras exibidas ou a oferecer interpretação do texto correspondente em linguagem compreensível às pessoas com deficiência auditiva. Mas, há dez anos, o projeto ainda não foi consolidado, pois depende da participação popular para entrar em vigor, que é feita por meio de abaixo assinado virtual.

Campanha – Criado em Recife, Pernambuco, o movimento “Legenda para quem não ouve, mas se emociona” existe há 12 anos. E nasceu a partir da necessidade de inclusão de pessoas como a Andressa, por meio da inserção de legendas em filmes brasileiros e estrangeiros. Mas nem todas as cidades aderiram à campanha, Imperatriz é uma delas. Apesar de protestos em Recife, Florianópolis, Caxias do Sul e Campina Grande surgirem através das ações feitas pelo grupo, apenas o estado Pernambuco criou uma lei estadual obrigando legenda em filmes nacionais. Veja um dos vídeos da Campanha, abaixo.

 

Protesto de Danielle Kraus teve milhares de compartilhamento nas redes sociais

Protesto – Um protesto realizado pela estudante surda Danielle Kraus Machado, de 19 anos, no ano passado, em Santa Catarina teve grande repercussão nas redes sociais. Ela foi ao cinema para assistir a duas animações no cinema, mas a empresa não cumpria a lei e só oferecia sessões dubladas. Danielle, então, levou cartazes para a frente do cinema e postou na internet. A postagem rendeu mais de 33 mil compartilhamentos e a repercussão do caso chamou a atenção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santa Catarina, que passou a cobrar acessibilidade em todos os cinemas do estado.

 

Associação – Em 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida como oficial pela Lei nº 10.436, e aperfeiçoada pelo decreto nº 5.626 de 2005, passando a ser a principal forma de comunicação entre os não ouvintes. Mesmo tendo sida estabelecida como língua oficial, ainda há muita resistência para o cumprimento do estudo, principalmente pela falta de conhecimento das pessoas que ouvem. A Associação dos Surdos de Imperatriz (ASSIM)  existe e atua no município desde 1989, mas nem todos os cidadãos têm conhecimento. Atualmente, está localizada na Escola Municipal Educação Bilingue para Surdo Professor Telasco Pereira Filho.

Eu te amo em Libras feito por Antônio Rarissom, presidente da ASSIM

O presidente da ASSIM, Antônio Rarissom, fala que uma das primeiras ações realizada por ela foi em relação às crianças surdas, já que a sociedade desconhecia quem eram os surdos e que eles tinham a possibilidade de autonomia para ir á escola, então a associação começou a trabalhar em prol desse desenvolvimento. “Um dos pontos que a gente lutava era por uma escola que preparasse o surdo primeiramente com sua língua, a Libras, para não ter nenhum tipo de barreira para a sua formação, então os surdos estudavam a língua anteriormente dentro do processo de inclusão. O que não é ruim, desde que o surdo saiba a sua língua”, reitera.

Segundo Rarissom, há em média 300 surdos na cidade, mas poucos sabem dos próprios direitos e a sociedade também não ajuda a melhorar essa situação. “Em qualquer lugar que o surdo vá, precisa estar amparado pela lei de cotas para que ele consiga adentrar em uma empresa e consiga trabalhar, por exemplo, pois a discriminação está aí. Então, o respeito ao surdo também se faz por meio da legislação. As leis existem para que tenha uma igualdade entre pessoas surdas e ouvintes”, completa.

Sobre lei, inclusão e a necessidade de legenda, Andressa Ribeiro deixa um recado. Confira abaixo:

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