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Nordeste é a região com o maior número de mães adolescentes

Nordeste é a região com o maior número de mães adolescentes

Texto e imagem: Ariel Rocha e Gessiela Nascimento

Editora: Elane Sousa

Timidez, nervosismo e olhar cabisbaixo são características marcantes em Ana Karollyne Rodrigues da Costa, 17, mãe de Kauan, de dois anos e meio. Karol – como gosta de ser chamada –, tornou-se mãe, de primeira viagem, aos 14 anos. “Ele – pai da criança – era vizinho aqui da frente quando começamos a namorar. Na época, ele tinha 24 anos. Três meses depois, engravidei”, conta.

Na época da gestação, Karol cursava o ensino fundamental. Devido aos sintomas, enjoos e mal estar, ela não conseguiu concluir o ano letivo: “eu passava mais tempo na secretaria do que em sala de aula. Ficava agoniada com o barulho do ventilador e da agitação dos colegas na sala”, disse.

Ana Karollyne, engravidou de Kauan aos 14 anos.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é considerado adolescente o indivíduo entre 12 e 18 anos. Boa parte dos jovens que se torna pai ou mãe nessa idade, não possui estabilidade emocional e financeira definida para arcar com as responsabilidades provenientes da nova função. É nesse momento que os futuros pais procuraram as famílias para relatarem o ocorrido e nem sempre contam com o apoio necessário.

“Primeiro relatei para minha irmã e, em um dia de sábado, nós duas brigamos e ela contou para a nossa mãe. Corri e fui falar pra ele (pai da criança). Ele veio aqui e conversou com a minha mãe. Nós ficamos juntos ainda, mas separamos no ano passado. Foi assim que a minha mãe descobriu. Ela chorou muito, mas aceitou”, relata a jovem, que afirma não ter havido, em casa, diálogo referente a namoro e orientação sexual.

 

Os números diminuem mas, ainda são significativos

O número de adolescentes grávidas no Brasil caiu 17% de acordo com os dados preliminares divulgados esse ano pelo Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Ministério da Saúde. As informações divulgadas revelam que o número de bebês de mães entre 10 e 19 anos caiu de 661.290, em 2004, para 546.529, em 2015. Essa redução é o reflexo de algumas políticas de prevenção e de acesso à informação desenvolvidas pelo Ministério da Saúde.

Para a pedagoga e coordenadora de um centro de apoio a adolescentes grávidas em Imperatriz, Rosângela Silva Lima, o índice de gravidez na adolescência é significativo pela decorrência da desestruturação familiar e da insuficiência nas políticas públicas engajadas em combater esses números. “O papel da educação no sentido da precaução é trabalhar a sexualidade e a prevenção da gravidez na adolescência. Assim, o assunto deve ser trabalhado de forma transversal dentro da escola”, explana a pedagoga.

Em 2015, 18% dos 3 milhões dos nascidos vivos eram de mães adolescentes. Estima-se que cerca de 66% dessas gestações são indesejadas. O Nordeste ainda é a região com o maior número de mães adolescentes, seguido da região Sudeste, com pouca diferença entre os números. Logo após, vem as regiões Norte e Sul. Por fim, a região Centro Oeste.

Fonte: Dados do Ministério da Saúde

 

Um dos fatores para a gravidez não planejada é a falta de orientação a respeito do que envolve a atividade sexual e a pouca informação, tanto de meninas quanto meninos, sobre os métodos contraceptivos. “Existe ainda um certo pudor ao tratar o tema, tanto por parte dos professores quanto por parte da família. A escola tem o papel de ensinar e não de educar. A educação vem da família, que é a base de cada ser humano.”, afirma a pedagoga Rosângela.

Ela acredita que esse processo de orientação deve começar dentro de casa, alertando os jovens para as complicações de criar um filho na adolescência e para os prejuízos escolares nessa fase de formação, pois muitas dessas jovens mães largam o colégio em decorrência da gravidez ou nascimento da criança. Foi o caso de Ana Karollyne, ao engravidar aos 14 anos, que abandonou os estudos ainda no 9º ano e, só agora, depois de dois anos, retornou à escola.

“A sociedade exclui a adolescente grávida”, afirma o Professor de Filosofia da Educação, Romário Santos. Para o docente, a principal porta de exclusão é a própria escola, enquanto processo de socialização secundária. O instituto de ensino deve trabalhar na implantação dos valores sociais, na perspectiva emancipatória do jovem.

O estado gestacional, além de gerar complicações de saúde para a jovem, pode contribuir para uma coerção tanto fora quanto dentro da família, favorecendo a possibilidade da realização do aborto. Vale ressaltar que, no Brasil, essa é uma prática não legalizada, com isso, as adolescentes se submetem de forma irregular a esse procedimento, colocando em risco a própria vida.

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