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Bares tradicionais de Imperatriz fecham portas e deixam saudades

Bares tradicionais de Imperatriz fecham portas e deixam saudades

Repórteres: André da Silva Sousa e Suzana Queiroz de Araújo

Pauteiro: Ana Catharina Ramos Valle

Fotógrafo: André da Silva Sousa

Cada cidade tem aquele lugarzinho que todo mundo conhece, o ponto de encontro, a referência. Não é diferente em Imperatriz. Dentre tantos estabelecimentos, alguns se tornaram marcantes, embora boa parte já não exista mais eles sobrevivem na memória dos imperatrizenses. Bares como a extinta Usina, Bar do Tico e a Farmácia do Ambrósio, que atualmente se chama bar do Ambrósio e que tem possibilidade de fechar em breve, são alguns dos locais que um dia foram os mais procurados da cidade, deixando saudade em seus antigos frequentadores.

É certo que a cidade de Imperatriz conta atualmente com um grande leque de alternativas de entretenimento, principalmente as populares “resenhas” entre amigos. Porém, muitos questionam o porquê do desaparecimento de alguns dos bares e casas noturnas mais tradicionais e movimentadas.

“É incrível como alguns lugares ficam marcados na gente! Toda vez que a galera planejava sair para algum lugar sempre vinham na nossa mente os bares mais conhecidos como o Ambrósio e a Usina, cada um com seu estilo e gênero próprio, com certeza fazem muita falta”, conta Lucas Vinícius Batista Sousa, antigo cliente da Usina.

Da Usina de arroz para a Usina do Rock 

De usina de arroz à Usina do Rock

Tida como a primeira casa de eventos voltada para o público amante do rock, a Usina ficou conhecida e adorada entre 2002 e 2016. A ideia surgiu do empresário Lamartine Milhomem Júnior, proprietário do terreno, onde durante muitos anos funcionou uma das primeiras usinas de arroz da cidade. Uma pessoa alugou o espaço, reformou e o transformou em um bar, no entanto, não obteve o retorno esperado e em pouco tempo abandonou o negócio. Com a estrutura do bar pronta, pessoas próximas a Milhomem sugeriram que ele tornasse o local a casa do rock na cidade. A ideia de imediato foi acolhida pelo empresário, que é fã do gênero musical e que possui amizades com diversos artistas.

Até 2016, a casa de show recebia atrações uma ou duas vezes por mês e dava espaço para os artistas locais como Melquiades Dissonante, Antiquarius e Dead Jack se apresentarem e divulgarem o seu trabalho, tanto autoral, quanto covers de bandas consagradas no Brasil e no mundo tal qual Charlie Brown Jr, Raimundos, The Strokes e Arctic Monkeys. Um dos fatores que interrompeu o sucesso da Usina foi o fato de que Milhomem era o único responsável pela organização dos eventos: apesar de amar o projeto, ele diz que se sentia sobrecarregado. “Não durou mais porque… Como a gente fazia uma vez por mês tinha muita dificuldade, ainda não tinha estrutura que a gente precisava”, conta o empresário.

Após encerrar as atividades da Usina, em 2016 Milhomem optou por investir em uma casa de eventos maior e melhor localizada, conhecida como Celebrare Eventos, que recebe cerimônias de casamentos, aniversários e outros tipos de celebrações.  Quanto ao legado cultural deixado pela Usina, o ex-proprietário sente orgulho por ter divulgado trabalhos locais de um gênero que não tinha tanto espaço, levando diversão e boa música ao público de todas as idades que prestigiaram a casa de eventos durante os 14 anos de funcionamento.

A eterna farmácia

Desde 1985 o bar do Ambrósio é referência na cidade e comercializa cerca de 380 tipos de cachaças. O estabelecimento era conhecido como Farmácia do Ambrósio, pois algumas bebidas eram vendidas com a “promessa” de solucionar alguns problemas de saúde como a gripe, dores de cabeça e até dificuldades sexuais. De acordo com a balconista e enteada do proprietário, Maria Dalva Sousa Lima, durante o mandato do ex-prefeito Sebastião Madeira, a vigilância sanitária foi até o local com ordem judicial, determinando que fosse feita a alteração do nome do bar, devido desconfianças de que Josimar da Silva, o Ambrósio, manipulava e vendia remédios ali.

Maria também relembra que o período de maior movimento no bar foi após a repercussão da reportagem feita pela rede Record, a nível nacional no programa Domingo Espetacular, em 2016. Com o passar dos anos a crise econômica abalou o negócio e as vendas foram diminuindo. Atualmente, mesmo com a mudança do nome, o bar do Ambrósio ainda está ativo e é conhecido como farmácia contando com uma fiel freguesia mesmo com o proprietário ausente, por preferir a calmaria da chácara que possui. “Aos 69 anos ele já está cansado e com problema na visão que pode dificultar no momento de fazer as cachaças”, revelou Maria.

Problemas com a justiça e a Farmácia do Ambrósio mudou de nome

Consolidado como um reduto da bohemia local, o bar do Ambrósio sem dúvida é patrimônio cultural da cidade. Maria conta que o nome do boteco surgiu no tempo que o Sr Josimar era pedreiro, seu patrão o apelidou assim, pois todos tinham uma alcunha menos ele. Todas as receitas são criações do Ambrósio e já passam de 380, dentre os variados tipos há aquelas com frutas, raízes, folhas e até animais. A mais popular e vendida é a Cajá com mel, primeira criação do fabricante que apesar de não ter cunho medicinal, é inconfundível graças a seu sabor.

Outro bar também muito lembrado na cidade por realizar eventos para variados públicos sempre mantendo o padrão de qualidade é o Bar do Tico. O advogado e músico Gil Gilmar Salazar da Silva conta que cresceu rodeado de parentes e pessoas próximas que conheciam bem o local e que lá era um lugar eclético, com shows de artistas como Wanderley Andrade, Ray Douglas, Feras do Forró e os tradicionais bailes de Flashback com Djs. Para ele, a cidade perde muito com o fechamento de locais como o Bar do Tico, que funcionou até 2016, já que eles servem de inspiração para novos empreendedores e eram o lar cultural de muitos artistas. “É lamentável porque era lá que os artistas da cidade nasciam, muitas vezes vi cantores amadores se profissionalizarem lá e serem tratados como revelações sabe? Culturalmente é um prejuízo enorme, só espero que outros locais se inspirem na história do bar do Tico e se tornem referência também”, revela Gil.

Outros bares tradicionais da cidade como Zero Grau, O boteco, Coruja, Stop Beer, Rox bar, Kalifa’s, Crafter, Executiva, Itz Club e Romanos pub também fecharam durante os últimos anos, fazendo com que a cidade perdesse as melhores e já consolidadas opções de lazer e entretenimento que perdurou por tanto tempo.

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