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“A doula não faz parto, ela faz parte”: Conversa com Agda Porto, a primeira doula atuante de Imperatriz

“A doula não faz parto, ela faz parte”: Conversa com Agda Porto, a primeira doula atuante de Imperatriz

Texto de Brunna Tavares

Fotos de divulgação

“A doula é uma acompanhante treinada para o parto. E ela não substitui o acompanhante, e o acompanhante não faz o papel da doula porque ele é envolvido afetivamente com a gestante”

Francisca Agda Alexandre Porto, mais conhecida como Agda Porto se formou em Enfermagem na UFMA, atua como enfermeira obstetra no Hospital Macro Regional Dra Ruth Noleto, e é a primeira doula atuante na cidade de Imperatriz. Depois de engravidar e decidir pelo parto normal, procurou uma doula na cidade e não encontrou. “Sempre fui apaixonada pelo processo de gerar, parir e maternar, sentimento esse que se intensificou depois de ter vivido a experiência de dar a luz por parto normal”, comenta. Então, quando sua filha, Luiza Helena, completou um ano, decidiu viajar e começar um curso em Brasília: Doula e Educadora Perinatal.

Assim que voltou para Imperatriz começou a divulgação e os trabalhos sempre com o lema: toda mulher merece uma doula. Atualmente exerce a função na equipe Mama Doula, que defende o parto humanizado em Imperatriz, através de rodas de conversa e cursos para gestante, além do serviço de acompanhamento que oferecem às parturientes. A equipe Mama doula oferece três pacotes diferentes. O Plano Completo, que além de ter a doula à disposição no trabalho de parto, conta com três encontros durante a gestação mais auxílio nas primeiras horas do nascimento e dois encontros durante o puerpério, por R$1.500,00. O Plano Básico, com diferença apenas no único encontro na gestação e sem encontros no puerpério, por R$1.000,00. E a Cesárea Agendada, com um encontro durante a gestação e dois durante o puerpério, também por R$1.000,00. É possível entrar em contato através do perfil da equipe no Instagram, pela página no Facebook e pelo email: [email protected].

Defensora do parto normal, Agda Porto afirma que a doula é essencial para a satisfação da mulher no parto. Acompanha pelo menos três partos por mês, dando assistência para a parturiente durante toda a gestação e também no pós-parto, ajudando na amamentação e afins. Nesta entrevista, Agda Porto fala sobre o real papel da doula, como ele é exercido e também sobre vários fatores que giram em torno da gestação e do parir.

Imperatriz Notícia – Qual o papel da doula?

Agda Porto – O papel da doula é dar apoio físico e emocional para a gestante no processo do gestar, parir e maternar. Então o meu trabalho começa na gestação. E, trago para essa mulher todas as informações que ela precisa saber, sobre as vias de parto, intervenções necessárias e desnecessárias. Se é uma mãe de primeira viagem eu trago pra ela também os cuidados com o bebê, trago segurança. Principalmente se ela está optando pelo parto normal. Durante o parto, vou estar com ela desde o início desse trabalho de parto até o bebe nascer, dando apoio físico, colocando ela em posições que favoreçam o trabalho de parto, e exercícios pra isso também. E vou dar apoio pra ela, mostrando que é forte, que é capaz de parir, que o bebê sabe nascer, e que tudo vai dar certo. Quando o bebê nasce, dou auxílio na amamentação. E depois volto e encontro essa família, para conversar sobre todo esse processo e fechar o acompanhamento.

I.N – A doula substitui o acompanhante?

A.P – A doula é uma acompanhante treinada para o parto. E ela não substitui o acompanhante, e o acompanhante não faz o papel da doula porque ele é envolvido afetivamente com a gestante. A doula está ali pra falar o que cada um pode fazer, pra contribuir, pra auxiliar a mulher a passar por esse processo, e os medos desse momento.

I.N – Então quem é a doula?

A.P – A doula não faz parto, ela faz parte. A gente sempre usa essa frase porque algumas mulheres contratam uma doula achando que a gente vai fazer o parto. E não é isso. A gente vai estar com ela durante todo o processo. Sabe quem é a doula? É aquela mulher que ficava cuidando da parturiente nos partos em casa. Aconteciam os partos em casa, ficava a parteira, a auxiliar da parteira e alguém com a mulher, geralmente era uma mãe, uma tia, alguém da família, que já pariu, dando suporte pra ela, enxugando ela, cuidando dela. Essa é a doula, que hoje voltou, com estudos que evidenciam que ela aumenta a satisfação com o parto.

“Quando uma mulher está consciente de todo o processo do parto, dessas intervenções necessárias e desnecessárias, ela se torna protagonista do parto dela”

I.N – Qual a diferença de uma gravidez mais consciente?

A.P – Quando uma mulher está consciente de todo o processo do parto, dessas intervenções necessárias e desnecessárias, ela se torna protagonista do parto dela. Principalmente as mulheres que querem parir, quando a mulher quer parir ela é protagonista, ou seja, ela que vai parir, o parto é dela. Então quando tem conhecimento não vai ser enganada. Um médico que quer finalizar o plantão, ir pra casa, e quer se ver livre daquele parto, vai chegar para ela com algumas desculpas. Com intervenções desnecessárias. Quando a mulher está empoderada e sabe dessas informações através de embasamento científico, se torna protagonista daquele momento e é capaz de dizer não.

I.N – Você acha que as mulheres gestantes de Imperatriz são informadas?

A.P – Não, infelizmente elas não são informadas. E não é só uma realidade local não, é uma realidade, ainda, nacional. Poucas mulheres quando engravidam vão se informar. Ainda é aquela coisa, aquelas que têm um grau de instrução maior, que planejam a gravidez e que vão pesquisar sobre benefícios de parto, sobre o que é doula, aí sim, essas têm um pouco de informação. Mas nem se compara ao protagonismo que ela precisa ter. Ela tem que estudar mesmo, a fundo, tem que ver realmente o que ela quer e não pode desistir. Uma grávida é muito sensível, muito vulnerável. Se ela não tiver o apoio do marido, da família e uma doula pra estar esclarecendo as dúvidas que venha a ter, acaba desistindo do parto normal no meio do percurso, no meio do caminho. Então eu converso com ela, vejo a bagagem que ela tem e trago artigos, livros, e a gente vai estudando durante toda a gestação. A principal preparação para o parto é a informação.

I.N – Você defende algum tipo de parto em particular?

A.P – Eu defendo o parto normal, de via de parto só existe o normal. A cesariana é um procedimento cirúrgico que está aí para salvar vidas. A mulher entrou em trabalho de parto, evoluiu, aconteceu alguma coisa que não dá pra continuar com o trabalho de parto, alguma coisa real que coloque em risco de vida a mulher ou o bebê. Aí sim se entra com uma cesariana. Não como a coisa está hoje, que os médicos marcam cesárea porque a mulher é magra, gorda, não tem passagem, enfim, inúmeros motivos banais. Simplesmente porque um parto normal leva horas e horas, e uma cesárea é feita em quarenta minutos e tem um custo maior. A cesariana está muito banalizada, o índice ideal de um país, que é de 15 a 20%, de cesarianas realmente necessárias, no Brasil é de 90%.

I.N – A relação doula-gestante é uma relação muito intima certo? Como você lida com isso?

A.P – Essa questão da relação, bom, a doula lhe dá o apoio físico e emocional, o apoio afetivo é da família. Então fica muito bem claro e separado. Claro que a gente cria vínculos, cria um carinho, um cuidado. Mas é uma coisa que tem início, meio e fim. Para algumas a amizade fica pra sempre, algumas mantém contato com a gente.

I.N – Você sente que as mulheres saem das rodas de conversa que a Mama Doula organiza, diferente de como chegaram?

A.P – Nossa! Sim, muito! Você precisa ir numa roda dessas e ver no final, quando a gente está lanchando, a gratidão delas. Na nossa última roda sobre parto normal e cesárea, tinha uma delas que estava com uma cesárea agendada, desmarcou e dez dias depois teve um lindo bebê de parto normal. Elas amam. E essas rodas são voltadas para gestantes, casais grávidos, e interessados no tema, uma mulher que está pensando em engravidar ou que gosta do tema. A nossa ideia é trazer essa informação de qualidade para o máximo de mulheres possível. Mulheres que não têm condição de pagar uma doula ou que não querem uma doula, enfim, que a gente consiga gerar uma rede de apoio, mulheres que cuidam de mulheres.

I.N – O que a equipe Mama Doula defende?

A.P – O que a gente defende é que toda mulher merece uma doula, toda mulher merece respeito e protagonismo no seu parto, e a gente tá aqui pra fazer isso acontecer. Para somar, estar à disposição, para informar. Um dos nossos lemas é que mulheres cuidem de outras mulheres, nós somos como água, mulheres quando se juntam são fortes. Infelizmente a gente tem um sistema que nos prejudica em muitos aspectos, nos diminui, precisamos nos fortalecer e voltar a ser donas do que nos foi tomado, o parto.

I.N – Onde você pretende chegar com a Mama Doula em Imperatriz?

A.P – Nosso objetivo é montar nossa empresa, ter o nosso canto. Pra fazer todas essas rodas, pra fazer oficinas e workshops, oferecer todos os serviços possíveis para uma gestante. Desde a gestação até o parto e amamentação e que ela se sinta em casa. Ter mais doulas, para que esse serviço seja expandido. Implementar mesmo, sabe, aqui na cidade. Para que mais pessoas saibam sobre nosso trabalho, divulgar melhor, a gente tá se fortalecendo para que isso aconteça o mais rápido possível.

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