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A linha 17

A linha 17

Linha 17 liga bairros importantes da cidade

Texto e foto: Marcelo Nunes

A linha 17 é como é chamado o ônibus do bairro “Ouro Verde via São José”. É uma das  mais conhecida em Imperatriz, com mais de três ônibus, que passam a cada 40  minutos, percorrendo quase todos os bairros da cidade, como  Santa Rita, Bom Sucesso, Nova Imperatriz, Centro e Bacuri. A linha é de um bairro periférico e as pessoas que utilizam o transporte vão em direção a escolas, faculdades, empregos e ao comércio. Ao entrar no ônibus, o passageiro sente um clima familiar, todos os estudantes se conhecem, o motorista cumprimenta, é uma festa. Ninguém entende nada muito bem, há muito barulho. Há pessoas de todos os tipos e, entre idas e vindas, muitas histórias se cruzam. Como bons brasileiros e com companheirismo, uns apoiam os outros. A linha 17 é uma linha de guerreiros que mais uma vez repetem a história: periféricos, suburbanos, pobres e honestos que vão desbravar os grandes centros em busca dos seus sonhos.

Há muitos personagens nessa narrativa. Um deles é Naena Silva, de 14 anos, natural de Pedreiras-MA. Ela mora em Imperatriz há nove anos. A jovem de nome singular estuda no Colégio Militar Tiradentes (CTM), no turno matutino. Na sua cidade natal não havia transporte coletivo, logo, ela acha a linha maravilhosa, uma vez que usa todos os dias para ir ao colégio. Segundo a estudante, o maior problema são os passageiros, uma vez que eles não respeitavam o transporte que os locomovem. “Eles riscam as paredes, ficam em pé nos bancos. Se não tivesse o ônibus eles reclamavam. Como tem, eles não valorizam”.

Naena relembra quando os novos ônibus começaram a fazer a rota. Eram veículos menores, porém com ar-condicionado e sistema de som. “Era mais uma manhã comum. Eu estava na parada de manhã cedo, quando de longe avisto aquela coisa pequena. Achei estranho, mas dei com a mão. Ele parou, abriu a porta e eu entrei. Ouvi uma música sertaneja, era do cantor Eduardo Costa. Onde eu morava todo mundo gostava dele, não me traz boas lembranças”, relata Naena. Passando a roleta, conseguiu uma cadeira e sentou-se. Passados alguns segundos, sentiu frio. “Não era que o ônibus tinha ar? Me senti, me achei muito chique”. A passageira considerou a viagem desse dia tranquila.  “Cheguei ao colégio calma”.

Conquista

Mas nem sempre a linha 17 foi assim. Na verdade, não era nem chamada de linha esse percurso que o ônibus faz. Há alguns anos, outra empresa era a responsável pelo transporte público em Imperatriz, a “VBL”. A antiga empresa de ônibus com o passar dos anos não supriu as necessidades dos imperatrizenses. O coletivo é tão importante para o bairro que os estudantes do Colégio Newton Barjonas Lobão (Caic), participaram do movimento “#ForaVBL” para a transformação do transporte púbico na cidade. Francisca Nunes, 47 anos, relembra quando os novos ônibus em carreata pararam pelas ruas, anunciando a nova frota pertencente à nova empresa, que passou a assumir o serviço. “Eu fiquei maravilhada, eu não pegava tanto ônibus, mas meu filho sim. Ele participou do protesto. Eu repreendia, falava: “Deixa de ser besta menino, o governo não liga pro povo não. Agora os ônibus tudo azulzinho, bonitinhos. Me orgulho, acho que alguém olha por nós”.  O movimento Fora Viação Branca do Leste (VBL), foi organizado por alunos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Brenda Herênio Fernandes foi a líder no movimento que destituiu a empresa em 2013.

Como resultado dos protestos, chegou a Imperatriz, em 2016, a empresa Rio Anil Transporte e Logística (Ratrans), com sua frota de ônibus, passando a transformar as rotas em linhas. Antes de Linha 17, o ônibus era chamado somente de Parque São José, enquanto o Ouro Verde fazia outro percurso. Com a extinção da empresa VBL, findou-se também uma profissão que não existe mais na empresa responsável pela linha hoje, que é o cobrador, ou trocador em alguns lugares. Esse funcionário era o responsável por receber o dinheiro dos passageiros e os passes estudantis, que também deixaram de existir com a modernidade da linha.

Estudantes

Ingrid Oliveira Santos, de 20 anos, é mais uma pessoa que depende do transporte. Ela mora no bairro Santa Inês, que é um dos quais a linha faz a rota.  Ingrid tem outras opções de ônibus, mas sempre que o 17 vêm na frente ela o pega, com direção ao mesmo destino, o serviço. Ela trabalha em uma rede de supermercados famosa na cidade. Bate o ponto às 13 horas. E então, às 12 horas, já está na parada, pois é melhor esperar do que perder o ônibus, “Porque ônibus é assim, se você chega antes do horário ele atrasa. Mas, se você atrasar um minuto, ele já tem passado”.

A preferência pela linha é porque ela passa mais cedo e pelo motivo de a linha 15 ser mais cheia de estudantes. A linha 15 é rota do ônibus do conjunto habitacional Sebastião Régis,  um bairro feito pela prefeitura em convênio com a Caixa Econômica Federal para o projeto “Minha casa, minha vida”. “Eu não suporto a gritaria de estudantes”, afirmou Ingrid. “Além do mais, eles não me cedem as cadeiras. Um dia eu fiz confusão, porque eles ficam em pé,  mas com as mochilas nas cadeiras. Falei: ‘Olha, se você não for sentar cede a cadeira. Eu pago a passagem, sua mochila não’. Ele fingiu que não ouviu. Daí sentei e coloquei a mochila dele em minhas pernas. Não demorou muito ele pegou de supetão a mochila. Tu pensa que eu achei ruim, foi? Achei não”. Ingrid diz que pega o ônibus nos piores horários: 12 horas e às 19 horas. “Na ida é na entrada da escola e a volta e na saída. Logo eu, que amo os estudantes”.

Dentro do ônibus dá para ouvir de tudo um pouco, os estudantes são os que mais falam. Alguns comentam sobre provas e a respeito da vida corrida. Outros cantam toda musica que toca no coletivo. Mesmo quando o ônibus não tem sistema de som, eles levam uma caixinha.  Ingrid continua a sua análise dos demais passageiros: “Os jovens gostam de tudo, ouvem sertanejo, funk. E tem uns homens falando rápido, eu não entendo nada Tem dia que eu só queria que eles ficassem mudos. Olha, eu trabalho em pé o dia todo, colocando coisas nas prateleiras. Dai, quando saio do serviço, que penso que me livrei de barulho, daí entro em uma festa”. Mas acaba se conformando: “Só a linha 17 mesmo, como já disse prefiro ela. Se aqui tem esses meninos que fazem barulho, na linha 15 tem mais. Lá não é ônibus de gente não. Dos males o menor: prefiro vim aqui mesmo”.

 

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