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Agentes ambientais: algumas horas na Ascamari

Agentes ambientais: algumas horas na Ascamari

Texto e foto: Andréia Liarte Barbosa

Zezinho lutou contra o preconceito para fundar a associação

Zezinho lutou contra o preconceito para fundar a associação

Quinta feira, 26 de abril de 2018. O relógio dava em torno de 16 horas. Na Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Imperatriz (Ascamari) era um dia como qualquer outro. Na varanda de uma casa que fica do lado do galpão, duas meninas brincando, uma delas desenhando à mão. ´´O dedo tudo sai errado“, desabafa e fica muito zangada. Um senhor que todos chamam de Cícero por um momento ficou repetindo tudo que a garota que estava desenhando, deixando ela mais chateada. Fundada em 21 de abril de 2010, a Ascamari tem como objetivo a preservação do meio ambiente, a instalação da coleta seletiva, a luta pelos direitos dos agentes ambientais e pela sua organização.

A agente ambiental Maria Anselma Pereira de Sousa, de 57 anos, é catadora há nove e está fazendo sabão junto com sua colega, Irismar Alves da Silva, de 40 anos, também catadora. Para Maria Anselma, a associação é uma forma dos catadores se organizarem para terem consciência e uma qualidade de vida melhor. Segundo ela, existe uma diferença entre trabalhar no lixão e na associação, já que nesta o trabalho tem mais dignidade, os materiais são limpos, enquanto no lixão isso não acontece.

Respeito

Maria relata que alguns movimentos sociais como, por exemplo, a Cáritas, que pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Movimento das Comunidades Populares (MCP), também lutam pelo direito dos catadores, conferindo palestras. Apontam os seus direitos, organizam formações e demonstram como o catador deve se organizar na profissão.

Maria Anselma diz que eles não se consideram mais catadores e, sim, agentes ambientais, pois é uma categoria como qualquer outra. “É onde a gente tem uma grande contribuição na sociedade, que é evitando de enchendo os bueiros de lixo. E tamos tirando muito problema da rua, onde poderia criando mosquito da dengue. Então o catador, hoje, é uma das pessoas que tem grande importância na sociedade”. Maria acrescenta que os agentes ambientais têm plena consciência do valor que representam, mas, mesmo assim, encontram muitas dificuldades. “As pessoas ainda não têm esse respeito. Mistura o lixo, e os órgãos públicos pouco nos ajuda. Porque quanto mais a prefeitura fosse fazendo o plano da coleta seletiva os catadores teria muito mais condições de sobreviver. Ia ter uma renda digna, a cidade ia ficar mais limpa e muito problema de saúde de doença não teria na nossa cidade, né?“, desabafa.

Irismar Alves da Silva, de 40 anos, diz que o sabão caseiro produzido por elas ajuda bastante, pois não é preciso gastar no comércio comprando o produto. Porém, está faltando o principal ingrediente, que é a gordura. Anselma afirma que a Ascamari tinha uma parceria com o supermercado Mateus, mas hoje a empresa não está mais mandando esta matéria prima. Isso levou a associação a organizar várias campanhas para conseguir o óleo de fritura. Para as agentes, antigamente era mais fácil obter a gordura, hoje está difícil.

Dona Irismar desabafa sobre o preconceito que a sua filha sofre, já que muitos dos colegas de sua escola dizem que ela come ou que a roupa da criança vem do lixo. Ou que o caderno foi achado no mesmo lugar. Em seu semblante, dá para notar sua tristeza profunda ao descrever o que acontece com sua filha. “O povo não quer ficar perto da gente porque tem nojo”, queixa-se. Mesmo com todos esses problemas, ela aparenta ser uma pessoa sorridente.

Consciência

O presidente da associação e agente ambiental José Ferreira Lima, de 67 anos, mais conhecido como Zezinho, chega ao local carregando uma mercadoria enorme junto com outro homem. Zezinho está na profissão há 10 anos e, tendo começado voluntariamente, nem pensava que ia ser catador. Contou que estava limpando um lote no bairro Cafeteira e nesse local havia material reciclado. Ele e os seus companheiros colocaram na rua e o pessoal imediatamente foi pegando para si. Era litro de pet, madeira e muitos outros objetos. Depois desse dia, Zezinho percebeu a importância dos materiais recicláveis.

Um tempo depois, Zezinho assistiu ao lançamento de uma cartilha americana sobre meio ambiente na antiga Universidade Estadual do Maranhão (UEMA e agora UEMASUL) e, lendo os artigos de ambientalistas que estavam na cartilha, se interessou pelo assunto. Ele acredita que uma das formas dele pagar à natureza o mal que fez é por meio da reciclagem. Em 2010, por meio do projeto Reciclando Vidas, da Cáritas, no dia 21 de abril, foi fundada a Ascamari. Zezinho diz que não toma remédio de farmácia, prefere os elaborados à base de plantas. Garante que o remédio natural é melhor que o químico. Essa sabedoria que ele tem sobre remédios, aprendeu com outras pessoas.  “O melhor médico é o povo”.

Zezinho revela que acorda três ou quatro horas da manhã, quando percebe que não tem mais sono. Às vezes, quando tem questões da associação para resolver, como fazer contas, atividades para anotar ou quando precisa fazer a seleção dos materiais, dirige-se ao galpão, tranca a porta, acende a luz e fica por lá. Quando ele percebe que está com muito sono, dorme até as 7h ou 8h. O local onde ele mora não lhe parece perigoso. “Eu cheguei aqui, dormi debaixo do pé de pau ali. Aí depois, dormi umas duas noites debaixo do pé de pau. Eu trusse a têia, trusse madeira, não ia deixar aqui porque iam roubar. Ainda veio um cara, eu toquei a lanterna nele, ele montou em riba do arame caiu para trás, dizendo que ia caçar uma égua. Eu digo: mas tu achou foi um cavalo”.

Esforço

De acordo com Zezinho, o local onde ele mora era só buraco. Uma vez, o antigo secretário mandou tirar tudo que tinha na casa: porta, janela, forro e instalação elétrica. Só ficou a telha e uma madeira que é especial. “Isso aqui é só buraco, isso ali ó, né? Isso ali derrubaram tudo: Essas porta aqui, janela, tudo, tudo. Tiraram a têia, tiraram a madeira da casa. O secretário que tava na época não queria com nós”. Ele relata que fizeram uma campanha pedindo ajuda para o prefeito, que, de início, se recusou, alegando que o lote concedido pela prefeitura para a Ascamari custou mais de R$ 100 mil.

Mas, com muita insistência, a prefeitura cedeu várias cadeiras da Secretaria de Educação. Com o dinheiro das cadeiras, os agentes conseguiram mais de quatro mil reais. A associação organizou, ainda, uma feijoada para arrecadar mais dinheiro, obtendo R$ 2.270. Assim, conseguiram comprar portas e madeira e ainda ganharam 11 mil telhas. Depois, fizeram um mutirão. Zezinho conta que o antigo secretário tinha chamado eles de “mendigos”. “Aí ele disse que era uns mindigo que vinha morar pra cá. Aí nós falamo que nós não samos mindigo, nós samos é homem de bem, trabalhador. Agente ambiental”.

 

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