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Com bom humor e diversão, vendedores ambulantes driblam a crise

Com bom humor e diversão, vendedores ambulantes driblam a crise

Vendedores: trabalho e conversas bem-humoradas

Texto: Laís Gomes

Foto: Edson Gomes

 1º de maio, 6h30. Flaviano Rodrigues dos Mulatos, 39 anos, morador de Novo Bacabal – MA, chega de moto com o ajudante Vinícius Santos, 19, trazendo um saco de milho para a venda do dia. De short jeans, camisa branca listrada e havaiana, Flaviano, mais conhecido como Flávio, vende milho assado, milho cozido e água mineral na BR-222, de segunda a sábado, para manter a esposa, Mariete Cândido Guajajara, 40, e os seis filhos, com as idades variadas entre 3 e 11 anos. O pai de família começa a organizar a barraca improvisada para se proteger do sol. Vinícius, vestindo um calção vermelho, camisa regata da mesma cor e boné, se apressa em acender o fogareiro para assar alguns milhos e cozinhar os outros. Minutos depois, Flavileny Rodrigues, 22, irmã de Flávio chega numa Biz branca e começa a descascar os milhos.

Flávio vai assando as espigas e colocando na caixa de isopor. Um rapaz se aproxima e ele faz a propaganda: “Vamos comprar um ‘milhozinho’? Esse é ‘do bom’, melhor que o de Bom Jesus (cidade vizinha)”, comenta com um sorriso no rosto. Flávio afirma que o produto que ele vende é melhor, porque ele pega na roça, fresquinho, todos os dias. “O sabor é melhor”. Barulho de motos, carros, buzinas, e carros de som se misturam, formando um “fundo musical” para a venda. O cliente se convence e pede um. Sem luvas, Flávio pega o milho diretamente do fogareiro e parece não se incomodar com o fato de estar quente. A propaganda dá certo: o cliente aprova o sabor e pede mais um para levar. O rapaz se despede e Flávio põe mais milho para assar.

Vinícius comenta que a água já está fervendo e pede para Flavileny colocar os milhos na panela. Flávio se senta, pega o celular e procura por um hino. “Preciso ensaiar pra cantar hoje na igreja”. A música mal começa a tocar e Flavileny questiona: “Que música horrível é essa?!” “Horrível são as músicas de hoje em dia, tenho vergonha dessa geração”, responde Flávio. Em seguida ele coloca várias músicas antigas, na tentativa de provar que elas têm mais letra do que as atuais. Ele larga o celular para atender uma van que se aproxima buzinando, mas deixa a música tocando.

Conversas

“Milho assado, quem quer?! Olha o milho cozido quentinho!” Flávio e Vinícius entram na van com as caixas de isopor, anunciando as suas vendas. Sem sucesso, eles não vendem nada e voltam para a barraca. Segundos depois, outra van se aproxima e lá vão eles novamente. Enquanto isso, Flavileny pega o celular e põe um funk para tocar. “Isso sim é música boa”, afirma ela. Um rapaz chega, senta ao seu lado e começa a descascar o milho em sua companhia.” “Ei, tu tá assistindo La Casa de Papel?”, questiona Flavileny. De imediato ele responde: “Sim, ‘tá massa’ demais. E tu tá assistindo Lúcifer?” “Deus me livre!”, ela responde assustada, fazendo o sinal da cruz.

Flávio e Vinícius retornam para a barraca, alegres pela boa venda. Ao perceber a música que está tocando, Flávio reclama com Flavileny e ela desliga. “Flávio, o milho acabando, é bom buscar mais!”, exclama, na intenção de que ele não brigue mais por causa do funk. Ao conferir a quantidade de milho, ele se apressa para buscar mais. Rapidamente, pega a Biz e sai com Vinícius, ambos sem capacete.

Flavileny e o amigo Samuel continuam a conversa. Ela reclama que o celular dela trava muito e por isso quer trocar. Ele diz: “Compra um J7, ele é bom.” “‘Nam!’, Samsung não presta. Já tive um e não gostei”, comentou ela. “Presta sim! O meu nunca travou, e olha que um dia o pai me deixou de castigo e tomou meu celular por dois dias. Quando ele me devolveu tinha mais de duas mil mensagens no ‘zap’. Mesmo assim ele rodou de boa, sem travar”, afirmou Samuel. Alguns minutos depois, Flávio e Vinícius chegam trazendo um saco de milho. “Lá vem mais serviço ‘pra’ mim”, reclamou Flavileny, revirando os olhos. “Boa sorte pra ti, porque eu já indo”, comenta, rindo, Samuel, que se despede e sai.

Flávio coloca suas músicas para tocar novamente e se aproxima do fogareiro, organizando as espigas na grelha.  “Páh!!!” Todos se assustam com o barulho, mas, logo o espanto vira motivo de riso. Um garoto, que estava saindo do comércio com um fardo de arroz, se desequilibrou da bicicleta e caiu. Todos ao redor começam a rir, até que Flávio manda Vinícius ajudar o menino. De repente, um senhor se aproxima, em uma Titã preta, também sem capacete. “E aí seu Zé! Hoje é o Dia do Trabalhador, por isso não te chamei de vagabundo”, disse Flávio, sorrindo para o senhor. “Vá à ‘m…’ e me dê logo um milho”, brincou seu Zé, também sorrindo.

Dancinha

Duas vans param em seguida e Flávio corre oferecendo água e milho assado e cozido. Flavileny para de descascar as espigas e vai ajudar a vender. De shortinho jeans, blusa branca, óculos de sol e cabelo preso, ela corre sorridente em direção às vans. Minutos depois, eles voltam para a barraca. Flávio conta o dinheiro e diz estar feliz com a boa venda em pleno feriado. “Dia 9 é aniversário do meu menino, ele pediu um celular de presente, correndo pra conseguir esse dinheiro”, completou ele. “É rapaz, não fácil pra ninguém, mas eu sei de quem é a culpa: é do Temer!”, comenta seu Zé, encostado na moto, comendo milho assado. Flávio indaga: “A culpa não é só dele, toda essa ‘cambada’ de políticos são corruptos, mas quem paga é a gente. Me preocupo com o futuro dos meus filhos. Quero que eles estudem e sejam bem sucedidos, não quero que sejam como eu.” “‘Cê’ tem razão, a gente trabalha duro pra botar comida na mesa, a gente faz de tudo pra não ver eles sofrer”, afirma seu Zé.“Mas com fé em Deus vai dar certo”, reforça Flávio. “Amém! Vou indo ali, a muier tá me esperando”. Seu Zé se despede e Flávio volta a ouvir seus hinos.

Flavileny reclama novamente dos milhos que tem para descascar e chama Vinícius para ajudar. “Minhas unhas tão quebrando e o esmalte já saiu todo”, alega. Vinícius senta para descascar os milhos e ela fica no celular.  “Flavileny, lá vem uma van, corre!!!”, Flávio grita, apressando a moça. Quando a van para, ela começa a oferecer milho para os passageiros, dançando ao ritmo de Wesley Safadão, que no exato momento, toca no veículo. “É assim que se vende!”, exclama ela, sorridente. Um táxi lotação se aproxima. “Atende aí Vinícius, vai pegando experiência”, diz Flavileny, sentada, comendo milho e mexendo no celular. Uma Hilux se aproxima e Flávio vai atender. Duas vans e um táxi param juntos. Flavileny se vê na obrigação de ajudar a vender, mas ela não se mostra contente. “Já morta de cansada e hoje ainda é terça”, suspira. Flávio repreende a moça e diz que ela deve agradecer porque estão tendo clientes.

A BR–222 é muito movimentada, a todo instante passam carros, motos, ônibus, vans, carretas, caminhonetes e até jumentos. Outra van se aproxima e Flávio comenta sobre a morte do filho do motorista. “Pra um pai, a pior coisa que tem é perder um filho”, comenta ele.  “Eu que o diga! Deus me livre de perder o Benício”, diz Flavileny, se referindo ao filho de 3 anos. Ela vai oferecer milho aos passageiros, mas dessa vez, sem dancinhas. Ao voltar para a barraca, ela comenta sobre o show do Washington Brasileiro que vai acontecer no povoado vizinho. “Dessa vez é aqui perto, vou deixar o Benício com a mãe e vou pro show, dançar a noite toda”, comenta ela, toda feliz.“Deixa de conversa e ‘bora’ trabalhar”, repreende Flávio.

Últimas espigas

Alguns minutos depois, Flavileny olha para o celular e diz que vai para casa almoçar. “Passou da hora d’eu comer, quem come meio-dia é rico, eu como mesmo é 11horas”, avisa, se retirando na Biz. Em seguida, dois meninos chegam com o almoço de Flávio e Vinícius. Eles mal sentam para comer e mais um táxi se aproxima. Entre uma ‘colherada’ e outra, eles se viram nos 30 para conseguir atender os clientes e se alimentar.

Mais tarde, Flavileny volta do almoço, mas logo sai. Ela vai para Bom Jesus, de van, comprar água mineral. Após o tumultuado almoço, apenas Flávio e Vinícius ficam na barraca. Entre um cliente e outro, eles revezam alguns minutos de descanso. Ambos demonstram estar cansados e com sono. “Ainda bem que ventando, porque esse sol não dá trégua”, diz Vinícius.

O fluxo de clientes diminui por um instante. Flávio começa a ver vídeos, descansando na barraca e Vinícius fica sentado num caixote, olhando para a BR. Mais tarde, outra van se aproxima. Flavileny está voltando com três fardos de água mineral. Vinícius se prontifica e corre para ajudá-la. Flávio quebra o gelo para colocar na caixa de isopor com as garrafas de água e, enquanto isso aproveita para comer um pouco de gelo. “Tá muito quente, o gelo ajuda a refrescar”. Devido há vários anos trabalhando no mesmo lugar e convivendo com as mesmas pessoas, Flávio, Vinícius e Flavileny conhecem todos pelo nome.“Ei Leandro chifrudo, tu vai furar o teto da van com tuas ‘gaia’”, diz Flavileny ao motorista da van que acaba de encostar. “Ridícula!”, Leandro revida. Ela entrega uma água mineral para ele e se despede sorrindo.

“Socorro!!!” Gritos vindos do comércio ao lado chamam a atenção de todos. Uma mulher corre assustada ao ver uma cobra jararaca dentro da caixa onde ela colocaria as compras. Neste momento, alguns homens correm para matar a cobra, entre eles, Flávio e Vinícius. Em meio a gritos e pauladas, eles matam a jararaca. Voltando para a barraca, Flávio relembra o dia em que quase foi picado por duas cobras. “Já andei muito perto de morrer por causa de cobra”. Passado o susto, ele conta os milhos que ainda não foram vendidos e se mostra pensativo. “Se não vendermos tudo vou ter que doar o restante, não serve para vender amanhã, muda o gosto”.

Uma ambulância estaciona e o motorista, juntamente com a enfermeira, desce para comprar milho e água. Um caminhão para do outro lado da pista e Vinícius se arrisca entre os carros para vender milho ao motorista. Flávio então para de assar milho: “Tá tarde, não vamos vender tudo”. Ele pede para Flavileny ir comprar um ‘refri’ para encerrarem o expediente. Ela prontamente pega a Biz e vai comprar o refrigerante. Ao voltar, eles sentam juntos para tomar o refresco. “Gosto demais de refrigerante, às vezes acordo de madrugada pra tomar”, diz Flávio, rindo, envergonhado. Nesse momento descontraído, Vinícius dá a ideia de baixar o preço do milho para 1 real, na tentativa de vender tudo. Eles acatam e vendem o restante de milho para um grupo de pessoas que esperam a van para Açailândia. Em seguida, limpam tudo e se despedem. “Graças a Deus!”, exclama Flávio, sorrindo, com as mãos erguidas para o céu, agradecendo por mais um dia.

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