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Ela no volante

Ela no volante

Motorista: sorriso por lema

Texto e foto: Michelle Costa

Manhã de terça-feira, o sol ainda parece não surgir com total exatidão no céu. São exatamente 6h20 e quase ninguém se encontra nas ruas do centro de Imperatriz, apenas um volume tímido de pessoas na parada do Camelódromo. O ônibus da linha 020, que tem como destino o bairro Bom Jesus, vem se aproximando. Quatro passageiros já o aguardam e, ao entrar no veículo, eles se deparam com algo não muito comum, que é uma mulher no volante. Ela usa um uniforme composto por calça azul escura e camisa de mangas compridas, óculos de sol rosa e batom da mesma cor, o cabelo liso, acompanhados de mãos delicadas e um rosto sereno. Todos são recebidos com um sorriso e um desejo de “bom dia,” e devolvem o cumprimento com sorrisos e perguntas do tipo “como vai”? A motorista é Juliana Almeida, de 33 anos: “Aprendi a dirigir aos 17 anos em um caminhão. Sempre tive vocação e amor pela rotina. Minha vida é a estrada e não me imagino fazendo outra coisa”.

O estranhamento que a condutora de transportes tão pesados como carreta e ônibus passa, tem relação com o fato de que esses veículos são, na maioria das vezes, conduzidos por homens. Segundo o Detran–MA, o perfil do motorista maranhense aponta que este é, em sua maioria, do sexo masculino. Dos 616.578 habilitados, 467.816 são homens e 148.762 mulheres. Atualmente em Imperatriz, apenas três mulheres atuam como motoristas de ônibus, na linha metropolitana da cidade: Sandra Ribeiro, 34, Marcia Gardênia, 36 e Juliana Almeida, 33. O número expressa uma realidade brasileira, se compararmos com outros estados como, por exemplo, o Rio de Janeiro, no qual apenas 3% dos motoristas de ônibus são mulheres. Percebe-se que os dados ainda mostram uma presença tímida delas trabalhando em veículos de transporte, mesmo fazendo algum tempo que Léa Aguiar saiu de casa, em uma tarde de 1959, e decidiu fazer história, se tornando a primeira motorista de ônibus do Brasil.

No país inteiro observa-se que é mais comum o movimento de mulheres que assumem o volante dos transportes alternativos, às vezes por receio, medo de assédio e para ajudar outras companheiras, como é o caso do aplicativo 99 Taxi. Em outubro de 2016, o aplicativo de táxi lançou um serviço que permite que as suas passageiras escolham ser atendidas por uma motorista mulher. A decisão foi tomada após uma pesquisa da companhia, segundo a qual “60% de um total de 36 mil passageiras ouvidas relataram que gostariam de ter esse tipo de serviço específico para mulheres, pois se sentiriam mais confortáveis e seguras durante a viagem”.

Rotina

No ônibus, o ambiente é dividido entre os que ouvem música no fone de ouvido, e os que aproveitam para tentar repor o sono durante a viagem. A aparência cansada e os bocejos mostram que não foi fácil acordar cedo. São apenas 6h50 e o sol já atravessa as janelas, ameaçando que será mais um dia quente na cidade. A maior parte dos assentos estão vazios e as pessoas seguem em silêncio. Apenas um forte barulho tenta interromper a tentativa de alguns passageiros, que tentam dormir a qualquer custo. É o som da velha catraca, que passa a sensação de que a qualquer momento vai se soltar do piso. Um rapaz de cabelos arrepiados e coloridos lê atentamente um texto acadêmico, algo nítido pelas suas rugas de preocupação. O ônibus quase vazio parece solitário.

No entanto, para quem passa dias na estrada transportando carreta, ser motorista de ônibus é acolhedor, mesmo com alguns incidentes. Enquanto dirige, Juliana relembra um dos momentos de tensão que uma motorista tem que enfrentar. “Uma vez eu estava descendo a rua Ceara e o ônibus começou a pegar fogo, deu um curto-circuito na fiação. Eu desci todos os passageiros rapidamente e fui apagar o fogo”.

Virando a esquina, mais uma passageira entra no ônibus e, ao entrar, é recebida com um “bom dia”! No mesmo instante, ela responde com um simpático “bom dia minha querida, tudo bem”? Todo o clima de familiaridade e conforto sentido pelos passageiros dessa linha é logo explicado por Josemar Rodrigues, 72 anos, um homem alto moreno e com um enorme bigode no rosto: “As pessoas se sentem mais acolhidas com o respeito, a delicadeza e o carinho no tratamento com os passageiros. Principalmente com o jeito que ela dirige”.

A forma de dirigir é outra atribuição que encontra fundamento na pesquisa realizada pela Renault Brasil, por meio da hastag #EUDIRIJOQUNEMMULHER. De acordo com a pesquisa, 70% das infrações de trânsito são causadas por homens. Além disso, 65% dos homens avançam no sinal amarelo. No universo feminino, apenas 15% fazem isso. Para completar, 71% dos acidentes de transito são causados por eles.

Trabalho apreciado

Os passageiros estão divididos entre estudantes, aposentados e trabalhadores. Aparentemente ninguém se incomoda em ter uma mulher no volante. Ela conduz com tranquilidade e paciência enquanto passa a marcha. Ana Clara, 19, que pega o ônibus todos os dias para ir à UFMA (Campus Bom Jesus), vai logo dizendo: “Eu particularmente gosto da forma que ela dirige e trata todo mundo com atenção. Isso ajuda a começar o dia sem tanto estresse’’. Mas como é a relação da motorista com os seus colegas de trabalho?  “O clima é confortável, de respeito mútuo e até de certa admiração pela força e coragem que me atribuem, já que a maioria me conhecia antes, por meio do meu antigo trabalho como caminhoneira”, ressalta a motorista.

O pesquisador Marc Auge utiliza o termo “não-lugar” para se referir a locais transitórios que não possuem significado suficiente para serem definidos como “um lugar”. Por exemplo, um quarto de hotel, um aeroporto.  Porém, algo que foi feito para servir apenas de passagem, acaba se misturando com “um lugar’’, já que os passageiros do ônibus falam sobre suas vidas, seus parentes, sempre demonstrando alegria e intimidade com as pessoas e o local. Uriel Almeida, 52, de baixa estatura, dona de uma voz rouca e grave, questiona, por não ver a condutora durante as tardes. Então ela explica para a senhora que “sua rotina começa às 6h da manhã e se encerra por volta das 1h40 da tarde. Por esse motivo, não costuma ser vista durante este período.

O clima é de descontração e, de longe, parece uma reunião de amigos que se encontram diariamente e não apenas passageiros que utilizam o transporte público. É meio-dia e o ônibus, que antes estava quase vazio, agora se encontra cheio depois que passou por algumas paradas durante o trajeto. Alguns idosos estão sentados nos bancos da frente, o corredor está com várias pessoas em pé, conversando e os bancos cheios dividem os passageiros entre os que olham pela janela e aqueles que compartilham música no fone e mexem no celular. A rotina individual de cada um é logo quebrada quando, aos risos, um homem de camisa azul e calça cinza, que se encontra no fundo do ônibus, grita: “Arrocha, motorista, que o ônibus tá cheio, mas a barriga tá vazia! Todos parecem concordar e caem na risada. Depois disso, os passageiros começam a conversar mais alto, e, no quarto banco da fileira à esquerda, duas jovens debatem sobre um lar de idosos que será criado por uma igreja evangélica da qual uma das moças pertence. Uma senhora parece se interessar com a conversa. Relata que devido à pouca memória já não consegue se virar tão bem sozinha. Tudo indica que a senhorinha de vestido lilás e flor no cabelo vai ganhar um novo lar.

 

 

 

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