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Hora do Almoço

Hora do Almoço

Várias situações na busca de um almoço mais barato

Texto e foto: Viviane Reis

12h05 – Duas filas conduzem imperatrizenses à entrada do Restaurante Popular e Universitário, antigo Viva Cidadão (lugar onde os as pessoas iam para tirar ou atualizar seus documentos), localizado na rua Godofredo Viana. O estabelecimento que serve como Restaurante Universitário da comunidade acadêmica da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), também é aberto à população em geral. Inaugurado em dezembro de 2017, funciona das 11h às 14h de segunda-feira à sexta-feira, com cardápio diversificado. “Como aqui todos os dias. Cada dia é uma coisa diferente. Você precisa ver na sexta-feira, que é feijoada”, comenta a estudante Fernanda Silva, de 18 anos. As refeições balanceadas servem diariamente cerca de mil pessoas (400 alunos da Uemasul e 600 da população em geral), com um valor acessível, R$ 2.  Homens, mulheres, idosos e crianças compõem as extensas filas que, divididas em direita e esquerda, dobram as esquinas.

12h10 – O sol quente leva as pessoas a se protegerem nas poucas sombras que os toldos das lojas oferecem. Outros se acolhem como podem, seja com folhetos, cadernos, bolsas e até com os seus próprios braços. O calor fica razoável, em paralelo ao barulho constante de carros, motos, ônibus e das múltiplas conversas. A calçada estreita tenta acolher as filas enormes, duas cabines de fotos 3×4, quatro carrinhos de picolé e cinco senhores que, sentados, conversam sobre a prisão do ex-presidente Lula: “O Lula nem cometeu nenhum crime”, argumentava um deles, de blusa listrada, óculos escuros, calvo, pele negra, bigode grisalho e calça social, gerando alguns olhares e retruques. Porém, perdiam o foco, a cada momento que a fila andava e o cheiro de comida ganhava proporção.

Pressa

12h15 – Amanda Anielle, 23, estudante do curso de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), chega e logo escolhe a menor fila. “Nunca fiquei na fila da direita, sempre na outra, mas hoje, como vim pela rua Dorgival, vou ficar nessa aqui. Sem falar que ela é sempre menor e ainda vou assistir aula hoje”. Ela precisa almoçar rápido, seu ônibus sai 13h10, com destino à UFMA- Campus Bom Jesus. Mesmo no fim da fila, e sabendo da demora para almoçar, tenta demonstrar tranquilidade. O suor toma conta a cada novo passo, seus cabelos enrolados começam a molhar e a preocupação é notada a cada minuto que consulta as horas em seu smartphone. Na tentativa de amenizar o calor, não pensa duas vezes: troca seus sapatos vermelhos por uma rasteirinha. “Ando sempre com minha salva-vidas na bolsa”. Do outro lado, na fila esquerda, está Maria Oliveira, 42 anos, conversando com sua filha Aline, de 17, e reclamando da demora para adentrar ao local. “A fila já é grande e ainda fica entrando de pouquinho”. É que as filas em que estão são apenas para entrar no restaurante. Falta, ainda, comprar as fichas do almoço.

Durante a espera, figuras surgem todo momento. “Quatro escovas de dentes por quatro reais. É o pacotão de escova! Barato demais! Quatro escovas por quatro reais!”, era o grito que se ouvia de longe. De repente, eis que o dono da voz forte, firme e aguda, aparece. Sua expressão de convicção invoca as pessoas a comprar seus produtos. Em suas mãos, uma caixa grande cheia de escovas coloridas (verde, azul, amarela, rosa, roxa e branca). Numa espécie de malabares, tenta segurar a caixa, pegar as escovas e o troco, que está na pochete, em sua cintura. No mesmo instante, entra um senhorzinho com uma trouxa de roupas nas costas. Transmite sofrimento. Manco da perna direita, entrega um folheto a cada pessoa da fila. “Me ajude! Fui picado por uma cobra pico-de-jaca, tenho uma família para sustentar e não posso trabalhar. Venho por meio desse papel pedir qualquer quantia. Pois, quem dá aos pobres empresta pra Deus”. Ao ver o senhor e sua história, muitos se comovem, distribuindo sorrisos e alguns trocados. No entanto, outros não ajudam, somente devolvem o papel que este o havia dado anteriormente.

Momento esperado

12h40 – Quatro pessoas faltavam, quando Amanda é surpreendida pelo rapaz que controla a entrada do restaurante. “É estudante? Sua carteirinha por favor!”. Ela, mais do que aliviada, abre sua bolsa, o bolso menor, pega sua carteirinha e o mostra. Porém, seu momento de felicidade se torna em tristeza. “Você não é aluna da UemaSul? Não pode entrar por essa fila, precisa ir para fila da esquerda”. Enquanto fala, o funcionário aponta uma pequena placa que diz: Fila preferencial (Idosos, deficientes, gestantes, mãe com crianças de colo, servidores e estudantes da UemaSul). A jovem parece não acreditar, não tem mais tempo, a outra fila está enorme, e só tem mais meia hora. Se for para outra fila perderá o ônibus e a aula. Então permanece cabisbaixa, olhos cheios de lágrimas, e com um pensamento alto. “Por isso que dizem que o apressado come cru.  No meu caso nem cru”, despede-se do local, seguindo seu destino, com fome e suada. Algumas pessoas demonstram compaixão, porém nada fazem “É assim mesmo, acontece!”. Já para Maria e sua filha, a espera valerá a pena, só há sete pessoas na frente. O grande momento vai acontecer e elas vão, felizmente, almoçar. Quem passa pelo rapaz da entrada respira aliviado. É que depois da escolha correta da fila e da espera, os procedimentos são mais rápidos.

12h55 -Maria e Aline entram, compram as fichas no caixa à sua direita, afinal só há ele. Suas senhas, respectivamente, 856 e 857, passam pela catraca. Mais uma fila, só que esta é mais rápida. O barulho de carros, motos, e ônibus somem e agora o que se escuta são os ruídos de pratos, talheres, copos e das conversas baixas. Paredes, teto e piso, brancos. As mesas e bancos lembram as das universidades americanas. Nas paredes, sinalização nutricional e espaços para lavar as mãos e deixar as bandejas. Os banners prendem a atenção de Aline e explicam a necessidade de se manter uma alimentação saudável. “Acorda menina! Presta atenção!”, diz sua mãe. Bandeja, prato, colher, garfo, faca e guardanapo. Entregam a ficha. Mais uma etapa. Arroz, salada, feijão, frango ao molho, suco de abacaxi, e uma paçoca de sobremesa. “Mais?”, perguntam cinco mulheres de branco, com touca, luvas e bem atentas. “Não, obrigada!”, respondem ambas. Então, sentam no final da segunda e última mesa, perto da porta de saída. Eram perceptíveis os olhares das pessoas a cada nova pessoa que sentava à mesa. Um olhar de comparação, de horror. “Meu Deus, quanta comida, será que a pessoa vai conseguir comer?”. De sorte: “O meu veio mais”. E, assim como da vendedora Cláudia, 33: “Quase colocaram a comida na bandeja ao invés do prato”. E esses olhares ganham vozes. Logo, começam às críticas: “Acho que deveriam ter um pouco mais de cuidado ao nos servir. Não é porque pagamos pouco que devemos sair todos sujos ou ser tratados como somos”. Um senhor que ouvia tal crítica, acaba por fortalecê-la, mas também dá uma solução: “Olha, na portaria tem uma caixinha de reclamação, escreva e coloque seus pensamentos lá”. Mas Maria e Aline, por lembrarem a dificuldade de estarem sentadas, comem agradecidas. Cláudia, indignada, nem ao menos termina de comer, levanta, joga o resto de comida no balde cinza (próprio para isso), o copo plástico no outro cesto, e entrega a bandeja, prato e talheres para serem lavados. Contudo, antes de ir, volta à mesa e deseja um bom almoço a todos. “Até mais pessoal, deixa eu ir trabalhar”. Todos a olham com muita simpatia e, como em um coral, respondem: “Obrigado!”. Assim, ela se despede do local.

13h25 – Maria e Aline terminam, colocam o resto de comida no lixo e as demais coisas para lavar. Assim que levantam, outras pessoas sentam. O ciclo se repete, durante horas. Pessoas entram e outras saem, umas felizes e outras nem tanto, porém satisfeitos por almoçarem. Diferente de Amanda, que nem oportunidade teve de entrar. Lá fora, ainda há pessoas na fila. Faltam poucas fichas, mas Francisca, 65, sem perceber, cativa e dá força às pessoas que estão para desistir. “Hoje vocês não têm o que reclamar. Essa comida é muito gostosa, pouco sal, barata e ainda enche o bucho”.

13h45 – As filas enormes se reduzem a duas pessoas. As fichas estão esgotadas. Sendo assim, antes que chegue mais alguém, os portões azuis marinho são fechados. “Amanhã tem mais!”, dizia com sentimento de dever cumprido, o rapaz que controla a entrada.

 

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