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Jefferson Carvalho: o rosto da música pop imperatrizense

Jefferson Carvalho: o rosto da música pop imperatrizense

Texto: Jonas Lima

Fotos: Arquivo pessoal do artista

 

“Sou apaixonado pela música antes mesmo da fotografia, mas numa cidade pequena a melhor forma que eu consegui de fazer minha música foi justamente crescendo dentro da fotografia”

Imperatriz é uma cidade no interior do sul do Maranhão, com pouco mais de 200 mil habitantes, onde alguns chegam até a dizer que não há cultura, por não haver uma manifestação marcante de identidade. Entretanto, se observa certa preferência da população por estilos musicais como o Sertanejo Universitário e o Forró. Nesse cenário é difícil imaginar que um cantor gay que cante pop possa vir a ter algum êxito. Mas não é impossível.  Jefferson Carvalho é cantor e fotógrafo imperatrizense que chegou para romper barreiras. Atualmente conta com 311 ouvintes mensais no Spotify e com mais de 10 mil seguidores no Instagram. E é nessa plataforma que ele divulga informações sobre o lançamento do seu primeiro EP (Extended Play) intitulado “Surreal” e que já se encontra ao lado de artistas como Phill Veras, Alice Caymmi, Gloria Groove e Tuyo, cantores com o mesmo estilo musical.

O artista entrou nos holofotes com o lançamento de seu videoclipe autoral que leva o mesmo nome do EP, Surreal. O clipe saiu dia 25 de abril de 2018 e já tem mais de três mil visualizações e 419 curtidas. O vídeo retrata um relacionamento homoafetivo em crise e a negação perante um término. Nessa entrevista, Jefferson Carvalho nos apresenta os bastidores da sua criação artística e suas reflexões sobre a música brasileira atualmente. Primeiramente, ele fala um pouco sobre como foi a produção do seu EP que possui seis faixas, sua recepção pelo público imperatrizense, quais são suas referências musicais e a influência da plataforma de streaming, Spotify, para o início de sua carreira. Sobre a música brasileira, o cantor reflete a popularização do gênero pop no cenário nacional, o sucesso da cantora e Drag Queen Pabllo Vittar e a importância da representatividade da comunidade LGBT através de manifestações artísticas. Por fim, ele também revela seus planos para o futuro.

Imperatriz Notícias – Você acabou de fazer o lançamento do seu EP, como foi a produção desse projeto?

Jefferson Carvalho – Foi um projeto totalmente independente. Começamos a gravar os vocais, mas tivemos que dar uma pausa por falta de grana, mas por fim acabamos por conseguir gravar esse EP. Gravei todos os meus vocais em estúdio, mas toda a parte de produção mesmo foi feita em casa, toda a parte de instrumentação, de criação, arranjo, harmonia, foi tudo feito em casa.

I.N As plataformas de streaming, como o Spotify, ajudam a divulgar e a dar espaço para artistas novos?

J.C– Hoje as plataformas digitais vieram como um golpe positivo bem forte, porque as pessoas sempre procuram seu trabalho no Spotify, Deezer, Youtube, então é muito interessante que tenha esse trabalho em todas essas plataformas justamente para engajar a mais pessoas te escutarem.

I.N – Como está sendo lançar um EP de MBP em Imperatriz, um lugar que majoritariamente gosta mais do estilo Sertanejo Universitário?

J.C – Então, acaba que o que eu estou lançando é mais para um POP do que para MBP, mas ainda sim é muito complicado esse tipo de gênero aqui em Imperatriz. A aceitação está sendo interessante porque eu acho que, não só na área de música, mas em toda área tem público para todo mundo. Claro que não é um público forte, mas acabamos nos esforçando para ganhar espaço, e também não estou fazendo trabalho só para Imperatriz. Como já trabalho com rede social há muito tempo com a fotografia, isso acabou facilitando lançar algo que alcançasse tanto as cidades próximas, quanto cidades que eu já passei, como São Paulo, Teresina, São Luis etc. É assim, é tudo uma construção, e como estou começando agora está sendo bem gratificante tudo o que tem vindo.

I.N – Como foi o processo de composição das suas músicas?

J.C – Então, quando conheci meu produtor, ele me disse que queria fazer um trabalho comigo, me apresentou algumas músicas que acabei gostando muito, então algumas das musicas do EP são de composição dele, só que do meio para o fim começamos a criar uma história. Foi quando eu decidi que o EP deveria falar de término, mas especificamente do meu término, justamente por que todas as letras que ele me apresentou tinham muito a ver com a minha história, ou seja, mesmo não tendo sido eu o compositor de algumas músicas, elas ainda falam muito de mim.

I.N – O que você espera passar para o público que ouve suas músicas?

J.C – Minhas músicas não falam apenas de término, apesar de ser o foco principal da história.  Com esse trabalho, pretendo mostrar também muita representatividade, eu sou um artista gay que mora no interior de uma cidade e o meu foco é realmente não me esconder dentro desse trabalho. Então todos os meus trabalhos, tanto esse como os outros, sempre vão falar de liberdade, não só a liberdade de gênero, mas liberdade de você ser quem você é, sobre diversidade, liberdade como um todo.

I.N – Atualmente quais são suas inspirações musicais?

J.C – Tenho muita influência no pop, estou gostando muito de várias vertentes dele, porque quem faz pop faz um pouco de tudo. Atualmente estou muito na vibe de R&B e Hip-Hop. Assim, minhas referências fortes são Rihanna e Sam Smith, que são quem eu quero ser como artista, justamente por que cada um atinge um ponto diferente na minha vida como artista e profissional. Além de admirar esses artistas, eu gosto muito de todo tipo de música, eu sou bem eclético, ouço desde reggae até funk. Também gosto muito da galera do cenário independente, e as minhas influências vem também delas, das pessoas que me ajudam a crescer como profissional, como o Neres, Ana Letícia, Ananda Miranda, uma galera que está fazendo música agora e que eu quero que cresça junto comigo. Minhas maiores referências são justamente essas pessoas que fazem de coração mesmo, que mostram uma verdade dentro desse cenário.

“Essa mensagem está crescendo, esses gays tidos como afeminados são a porta para tudo, são um muro”

I.N – Sendo fotógrafo profissional há seis anos, como a fotografia influencia a sua música?

J.C – Sou apaixonado pela música antes mesmo da fotografia, mas numa cidade pequena a melhor forma que eu consegui de fazer minha música foi justamente crescendo dentro da fotografia. Para mim, foi mais fácil me tornar fotógrafo, mas após seis anos eu decidi dar início a esse projeto musical. Eu nunca quis perder minha ligação com a fotografia, porque também é um das minhas paixões. Quando eu comecei a entrar nesse mundo musical eu sempre quis ter uma conexão dentro do mundo da fotografia.

I.N – O crescente sucesso da cantora Pabllo Vittar e outras Drags Queens na mídia representa um espectro de aceitação maior da sociedade à comunidade LGBT?

J.C – Com certeza. Essa mensagem está crescendo, esses gays tidos como afeminados são a porta para tudo, são um muro. Elas que são atingidas para que a gente possa viver em sociedade. São essas pessoas que botam a cara à tapa de forma artística ou não artística, que estão dando oportunidades e estão conseguindo mais respeito para a gente. É incrível a proporção que elas estão tomando.

I.N – Planos futuros? Algum novo projeto em vista?

J.C – Meu plano por hora é trabalhar no meu EP que acabou de sair, já tem muita novidade em frente para esse projeto “Surreal”, lançar mais clipes, alguns remixers com outros artistas. Pretendo fechar esse ciclo com um trabalho bem feito. Além disso, já tenho algumas faixas para serem lançadas com participações de outros artistas tanto da cidade quanto de fora. Estou muito ansioso para as pessoas poderem ouvir isso.

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