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Jovens que batem ponto

Jovens que batem ponto

É difícil para os jovens conciliar trabalho e estudos

“Não me neguei nada
que os meus olhos desejaram;
não me recusei a dar prazer algum
ao meu coração.
Na verdade, eu me alegrei
em todo o meu trabalho;
essa foi à recompensa
de todo o meu esforço”.

Eclesiastes 2:10

Texto e foto: Gabriela Almeida

São 6 horas e Oliver, 19 anos, está acordando para mais uma jornada de trabalho. Lamenta não poder dormir mais. Tem que despertar um pouco antes para sair junto com sua mãe, seu único meio de transporte, pois não possui nenhum tipo de veículo e o emprego é longe da sua casa. Chega às 7h no local de trabalho, no entanto só bate ponto às 8h. Nesse meio tempo descansa um pouco, esperando revigorar-se, antes que a carga do dia esmague todas as suas forças.

Nesse momento, Pietro, 21 anos, está levantando um pouco mais cedo para fazer caminhada com um amigo, no Fiqueninho, lugar arborizado, bonito, com pista e aconchegante para quem quer se exercitar. “Procura esse tipo de atividade para combater o sedentarismo. É uma forma me sentir bem”, afirma. Seu avô o deixa próximo das 8h no trabalho para bater o ponto. Ele pega o elevador, pressiona o botão do 2° andar e assim começa mais um dia da sua jornada.

Trabalho e sonhos

Oliver liga as luzes e, aos poucos, a biblioteca da faculdade particular na qual trabalha vai ganhando forma. Senta na cadeira próxima ao balcão, liga o computador e gradualmente os colegas de trabalho chegam. As mesas da biblioteca vão sendo ocupadas pouco a pouco pelos alunos da instituição, aptos para estudar e colocar as matérias em dia. E assim vai começando o primeiro período do seu trabalho. A manhã é um pouco mais calma, às vezes alguns estudantes alugam exemplares ou chegam mais títulos para ocupar as prateleiras. Sua função consiste em receber, adesivar, guardar e emprestar livros. De vez em quando, ajuda a fazer planilhas e na pesquisa de bibliografia.

Quando pode, principalmente em dias mais vagos, Oliver pesquisa sobre instrumentos musicais, olha os seus preços e avalia. É a sua grande paixão. “Tenho o projeto de montar uma banda, é mais por causa disso que trabalho, para poder juntar dinheiro o suficiente e dar inicio ao meu sonho”, confessa. Enquanto isso não acontece, convive com alguns estresses de uma jornada de trabalho: alunos um pouco impacientes na hora de fazer empréstimos de livros e, às vezes, ter que pedir silêncio na biblioteca e escutar algumas reclamações. Ou, ainda, ter que aguentar o peso de quem trabalha e concilia a faculdade.

Pietro dá bom dia ao recepcionista da grande empresa para a qual trabalha, sobe as escadas e se direciona à sala de Marketing onde cumpre sua jornada com mais três pessoas. Coloca seu notebook na mesa e liga a fonte no interruptor. Assim começa o emaranhado de fios, pois divide o espaço da grande mesa de reunião com mais duas pessoas e os seus computadores. Ele trabalha na área que gosta, une suas duas paixões em uma só no emprego. Tira fotos atualizando as redes sociais e lida com o marketing, área em que é graduado. “A parte da fotografia que eu mais amo é a de paisagens e pessoas em seu natural. Eu consigo enxergar elas dentro da publicidade. Juntei o útil ao agradável e é maravilhoso. Isso faz com que eu ame mais o meu trabalho”, revela.

Seu dia inicia analisando a sua organizada planilha e verificando quais estabelecimentos precisa visitar para recolher itens para fotografar. Dá uma olhada em todas as redes sociais das lojas ligadas à empresa e procura inspirações. É quando o relógio marca 10 horas que inicia sua longa jornada. Ele usa todo o seu olhar de fotógrafo para escolher o melhor ângulo dos produtos. Quase sempre precisa sair do prédio que trabalha para poder ter mais cenários. Pietro gosta de paisagens naturais e as procura enquanto anda pela rua com sua maquina fotográfica, acompanhado de sua inspiração.

Difícil conciliação

O relógio anuncia meio-dia, é hora do almoço. Oliver bate seu ponto, mas não retorna à sua casa. Seus pais são separados, sua mãe é seu único meio de transporte e só sai do trabalho às 13h. Então, tem que ficar no local do emprego durante esse período. Senta ao fundo da biblioteca, com seu notebook, almoça e, quando termina, começam as atividades da sua faculdade. Ele confessa que, pela rotina pesada de trabalhar de segunda à sexta, em dois períodos, e no sábado em um, é complicado conciliar os estudos com as atividades estudantis. Acaba resolvendo os trabalhos escolares por ordem de importância: o que está mais perto, ele produz.

“Às vezes peso o que é mais importante, não quero negligenciar algo tão relevante quanto a faculdade”, diz Oliver. Conta que começou a trabalhar porque queria mais coisas, apesar dos pais poderem bancá-lo, mas só com o básico. Hoje, seu maior objetivo é comprar os instrumentos para banda e iniciar seu projeto de música independente. Com orgulho, assegura que está sacrificando parte do seu tempo por algo maior e afirma que desistir não é uma opção.

É nesse horário que está mais bem acompanhado, rodeado com as prateleiras de livros e os seus sonhos. “Gosto de musica, artes, qualquer coisa que possa inspirar sentimentos nas pessoas. Não sou muito pretensioso, mas acho que posso conseguir realizar algo importante, deixar um legado e fazer algo relevante no mundo”, confessa Oliver. Sempre que pode, pesquisa pelos livros da biblioteca, já que garante que a da sua faculdade é defasada e não permite pesquisas que precisa no curso.

Pietro bate seu ponto ao meio-dia, é quando terminar seu trabalho de meio período. Reconhece que é a hora mais corrida da sua rotina, pois, como tem que pegar ônibus para voltar para casa, acaba por chegar 12h30, só tendo tempo para tomar banho, almoçar e seguir para a universidade. Na maioria das vezes ele se atrasa, já que demora muito para se arrumar e comer.

Morando com os seus avós e filho de pais separados, Pietro tem um bom relacionamento com a sua família. Conta que trabalha para manter seus gastos, principalmente por causa do seu tratamento de pele, que custa caro. Mas, se um dia precisar, irá optar pela faculdade, pois pesa muito para si no seu currículo ter uma formação. Sua família apoia seu trabalho. “Deixei de ser o vagabundo dentro de casa e tenho reconhecimento. Fico feliz de poder ajudar, às vezes, com algumas despesas de casa”, conta, aos risos

É no ambiente do seu lar que os maiores sonhos afloram. Ele afirma que seu maior desejo é se especializar em fotografia. Enquanto isso cursa faculdade de Comunicação Social para poder enveredar no que realmente deseja fazer e acabou por se graduar em Marketing por quase o mesmo motivo. É um rapaz descolado, ariano, que conhece bastante de moda, de gosto musical eclético, descontraído e que poucas vezes demonstra o que realmente sente como admite e, muitas vezes, deixa transparecer.

Escolhas

Oliver retorna do seu horário de almoço e, já um pouco cansado, às vezes sente dores de cabeça. A parte da tarde é bem mais puxada, o fluxo na biblioteca é grande, também é o turno em que os estudantes se encontram mais apressados para pegar livros emprestados. É o chamado horário de pico do seu trabalho e o mais estressante. Poucas vezes para nesse período, não tendo tempo para descansar e nem olhar seus amados instrumentos. É o momento que não pode pensar em seus sonhos.

“Acaba sendo um pouco desgastante”, anuncia Oliver, suspirando um pouco. Ele revela, dentro da grande faculdade cinza de prédio moderno, que no inicio gostava da ideia do trabalho, mas que a rotina foi o frustrando um pouco. Gosta dos seus colegas e mantém amizade. Gosta mais ainda da ideia de que um dia vai poder adquirir todos os bens que quer. Espera terminar a faculdade que cursa no ensino público e que demonstra gostar muito, apesar de seu maior sonho ser a música.

Um pouco mais tarde, Pietro chega à faculdade, às vezes nem comparece. Ele trabalha em dois empregos: um de carteira assinada, que toma toda a manhã e outro de freelance. Este segundo têm horários pouco flexíveis, quase sempre pela tarde, impedindo que ele cumpra todos os compromissos da sua grade de estudos da universidade. Tem a dificuldade de conciliar os estudos e os dois empregos, mas conta com os amigos para se inteirar sobre aquilo que ele perde. Principalmente com a ajuda de uma amiga e colega de trabalho, que sempre o informa sobre o que aconteceu nas aulas.

“Tenho muita dificuldade para conciliar as duas coisas”, assume.  Reconhece que precisa abdicar de muitas tarefas e, por vezes, não sai no final de semana, exatamente porque é um bom procrastinador, como expõe, entre risos. Ele admite que gosta do ambiente da universidade, um campus de tamanho médio, bastante arborizado. Aprecia mais ainda todo o aprendizado que retém naquele lugar e, principalmente, o fato de poder por em prática tudo aquilo que aprendeu na graduação e o que aprende no novo curso, aplicado ao seu trabalho.

A noite começa a dar seus primeiros sinais, os riscos da claridade do sol vão sendo tomados pela negritude do céu e banhados pela lua. É nesse clima que Oliver chega à sua casa, janta, se arruma em 20 minutos e vai para universidade. Sua aula começa às 18h30. Ele estuda em um local grande, arborizado e com várias salas. É nesse momento que ele sente a disparidade do ambiente de trabalho e da faculdade e de quem a frequenta. Adentra na sala cheia de carteiras, com vários alunos as ocupando, de clima frio e com conversa para todo o lado.

Apesar do cansaço, se esforça ao máximo para conciliar o trabalho e os estudos, ainda mais porque, particularmente gosta desse período do seu curso. O professor entra na sala, os diversos assuntos tratados em paralelo cessam e começa mais uma aula.  Aqui, sofre com as eventualidades de todo estudante. Entende várias questões, mas algumas vezes tem dificuldades normais sobre alguns assuntos. Participa das aulas, apresenta os trabalhos que fez e entrega as atividades. A universidade exige muito e, quanto mais avançam os períodos, mais os professores cobram, conforme assume.

Fim do ciclo

É também exatamente nesse mesmo clima que Pietro sai da faculdade e segue em rumo à sua casa, a pé. Bastante cansado, não conta as horas de chegar ao aconchego do seu lar. Lá também é uma lanchonete, que ainda não está movimentada, é só por volta das 20 horas que inicia o seu horário de pico. Adentra em sua residência. Poucas são as vezes que ele consegue ajudar no estabelecimento comercial.

Tem um pouco de dificuldade de se concentrar nesse horário para estudar. Apesar de ser bastante organizado no trabalho, ter tudo pronto durante um mês e saber o que vai fazer no outro, não consegue aplicar esta disciplina na vida acadêmica. Estuda da melhor forma que pode, organiza seus trabalhos e atividades à medida que a semana passa. Enquanto isso, ele aproveita do conforto do seu quarto bastante organizado e principalmente da sua cama.

Finalmente o relógio marca 23 horas e é nesse exato timing que Oliver e Pietro sentem seus olhos pesarem, é quando o sono dá o seu primeiro aviso. Os ombros caem, o corpo finalmente permite relaxar. É só nessa hora, para esses dois rapazes, que o longo dia se despede. Os sonhos preenchem o silêncio da noite e são recheados de esperança e expectativas. Enquanto esperam para a chegada de mais um dia e a repetição de toda a sua rotina.

Ambos têm desejos, aspirações e sonham, um dia, em ocupar algum cargo significativo na sociedade e fazer algo de grande relevância. Por hora, usufruem o que a vida de quem trabalha e estuda pode proporcionar. Aos poucos vão construindo por esse longo caminho da vida profissional a escada que vai levar até aos seus maiores objetivos. São garotos excepcionais, de grandes qualidades e valores, que enfrentam a dificuldade de jovens que todos os dias batem ponto.

*todos os nomes aqui usados são pseudônimos, a pedido dos entrevistados.

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