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Literatura em Imperatriz: além das palavras, eternizada em versos e perdida no digital

Literatura em Imperatriz: além das palavras, eternizada em versos e perdida no digital

Escritores debatem sobre como popularizar a literatura local

Texto e foto: Gabriela Almeida

Estima-se que Imperatriz tenha cerca de 250 escritores de todos os gêneros. De acordo com a Academia Imperatrizense de Letras (AIL), é o município que mais publica livros no Brasil. Imperatriz é berço e abrigo de diversos autores. Talvez a água do rio que banha a cidade, ou até mesmo o ambiente interiorano e gracioso sejam fontes únicas de inspiração. Apesar de ser o lugar de sonhos e publicações, não é o calor da febre literária que habita na região de clima tropical, mas, sim, o desconforto do baixo consumo da leitura regional.

“Foi o falecido historiador Adalberto Franklin que chegou a esta conclusão por meio de pesquisa, que a cidade de Imperatriz foi a que publicou mais livros nos últimos anos, como editor e dona de uma editora. Eu não tenho dúvidas que, proporcionalmente, nós somos a cidade que mais produz”, relata o jornalista e escritor membro da AIL, Domingos Ramos.

Acumulando genialidades na escrita e grande número edições, existem problemas que cercam o espaço de visibilidade de quem produz na região, seja pelo pouco hábito de leitura dos moradores ou o baixo incentivo da cultura. “Faltam editais de fomento no Maranhão e acabamos por perder a oportunidade de participar dos nacionais. Aqui também não tem um mercado editorial muito grande, hoje só temos uma única editora na cidade. A publicação tem muitas dificuldades, o livro impresso é muito caro e fica difícil para o autor se bancar e pagar seu próprio livro”, confessa o professor e escritor Marcos Fabio.

Fator comum

É difícil dizer onde se inicia o caos das dificuldades da publicação da cidade. Se é na terna idade em que não há o incentivo da leitura, ou quando o jovem começa a dar os seus primeiros passos e não encontra no ambiente escolar um lugar propício ao incentivo regional, ou mesmo pelo alto custo de publicação para os escritores. Em todo caso, é necessário pensar em soluções para que se perpetue o desejo pela leitura, não a sua falta.

É rodeado pelos livros da biblioteca da Academia de Letras que o presidente da instituição, Raimundo Trajano, debate sobre o assunto e suas soluções. “Acho primordial que haja o incentivo da leitura regional a partir de leis de fomento. Ora, se você mora em uma casa e você não conhece o que está dentro dela, sai e vai lá fora, então você se tornou um morador sem a conscientização das suas raízes. É preciso conhecer as nossas raízes”.

O presidente da academia também frisa a necessidade de se conhecer a região, o que os pensadores locais estão escrevendo. Principalmente para que os interessados possam formar opinião sobre o que acontece em Imperatriz, o que está sendo escrito, falado ou vivido no contexto regional. Enquanto cidadãos, não há como ficar inerte ao que acontece na cidade. E, quando se trata da leitura, é preciso estar ainda mais mergulhado nesse universo que futuramente contará a história nas entrelinhas.

Na criança nasce o leitor

Se o ventre gera a criança, a criança que tem contato com a leitura gera um leitor. É de conhecimento geral que é preciso apoiar o ato desde cedo. “É a partir das famílias o desejo pela leitura deve ser criado, que é embrionária na educação. A escola é um aprimoramento. Muitos jovens trazem consigo a vontade de ler, no entanto, muitos ainda não a possuem, porque nunca foram incentivados a fazer o mesmo”, pondera o presidente da AIL.

É adentrando a casa do escritor de literatura infantil, Gilmar Pereira, que as dificuldades de publicar livros na cidade para esse público especifico começam a ser expostas. A falta do hábito da leitura é um dos maiores fatores. “A quantidade de leitores é mínima e há muitos escritores. Na verdade, acabamos por escrever para a família e amigos”, ressalta o escritor.

No entanto, Gilmar conta como os projetos de incentivo à leitura dos autores da cidade têm dando retorno aos jovens leitores. “Estamos encontrando mais leitores, cativando eles nas divulgações nos colégios. Trabalhando, assim, aos poucos, o entendimento que eles precisam ler”, revela.

Também há dificuldades na compreensão dos jovens leitores que a produção de livros custa caro. “O escritor acaba trabalhando doando livros. As escolas adotam nossos livros, que nós doamos. Na verdade, não temos leitores que têm costume de comprar livros. Pode até ler, mas ainda não foi educado que os livros custam dinheiro”, lamenta Gilmar Pereira.

Para serem lidos

Cada gênero literário encontra suas dificuldades na cidade. A poeta Adriana Moulin expõe que publicar em Imperatriz ou na maioria das cidades do Brasil não é fácil. Apesar de o município ter avançado por se tratar da cidade que mais publica, ainda é mais complicado produzir poemas, gênero da autora. No entanto, Adriana pondera que tem percebido um interesse maior nos últimos tempos e o crescimento do número de leitores jovens neste tipo de literatura.

É entre um verso e outro, que a poeta consegue descrever quais são os maiores problemas do gênero que produz. “Muitas pessoas dizem não gostar de poemas. A maioria não tem o hábito de ler poemas e não quer quebrar paradigmas. Muitas pessoas não se atrevem a ler novos autores e outros gêneros literários, alegando que a escrita do poeta é difícil de ser compreendida. Isso não é totalmente verdade. Faz-se necessário ler para poder gostar e desmistificar o poeta e os seus poemas”, estimula.

Quanto vale um livro

O valor de uma obra literária não está apenas no quanto vale ou custa sua publicação, mas o quanto representa na vida do autor. Mesmo com as dificuldades e as barreiras proporcionadas pela vida, os escritores fazem o possível para que o peso de uma boa leitura chegue ao leitor e este adentre nesse universo. De tal maneira que aquele que lê possa entender o quanto vale um livro no seu sentido mais genuíno, no valor da leitura, na formação do ser e nas mil e umas possibilidades de viajar nas palavras.

As publicações impressas são custosas e o valor das palavras eternizadas em paginas é o fator que pesa na hora da publicação. “Um livro custa muito caro, fica muito difícil o autor se bancar. Hoje temos esse cenário, acabamos por transitar para as redes sociais”, conta o romancista Marcos Fábio. “A região é muito grande. Um autor que publica hoje um livro na cidade pode fazer um lançamento, uma palestra anunciando o seu material”, acredita o escritor.

O universo literário pode custar caro. A poeta Adriana expõe outras questões relacionadas aos obstáculos para se publicar um livro em Imperatriz. “O custo e a aceitação são as maiores dificuldades. Um livro bem feito, de boa qualidade e com ilustrações, não sai barato. As nossas tiragens são pequenas, o que encarece ainda mais a unidade. Eu não conto com nenhum tipo de incentivo para publicar. Escrevo desesperadamente, mas publicar já é outra história”, lamenta.

É preciso entender o quanto o livro está aberto a todos e se realmente este valor promove a democracia da leitura. O presidente da AIL, Raimundo Trajano, defende que é de comum acordo entre os escritores o quanto é difícil publicar, principalmente porque não há como promover as obras nacionalmente com a estrutura das grandes editoras. O livro acaba por se tornar caríssimo, o que dificulta ainda mais sua comercialização. Poderia haver um incentivo cultural para publicação desses livros, propõe Trajano.

No deserto da dificuldade, nasce uma flor da esperança. Trajano detalha os projetos da academia no sentido de fomentar a produção de ainda mais livros, como, por exemplo, a intenção de implantar uma editora sem fins lucrativos com o selo da AIL. O desejo é trabalhar para desenvolver a publicação de bons livros na cidade que, claro, irão passar por um crivo da Academia antes de serem publicados. A ideia é continuar com o trabalho do falecido Adalberto Franklin, que fomentava os mesmo incentivos por meio da sua editora, a Ética.

No mundo digital

Diante das dificuldades de publicação na cidade, muito dos escritores transitam e fazem essa migração para o mundo digital. Ultrapassam as barreiras da publicação e democratizam ainda mais a leitura com o auxílio da internet para alcançar o seu público.

Escritoras como Adriana já atingiram o mundo digital. Recentemente ela criou um perfil Instagram voltado para a publicação de trechos de poemas, frases e alguns textos de sua autoria. Adriana acredita que desta forma há maior abrangência de conteúdo e relata que tem gostado dos resultados. No entanto, não abre mão do livro físico, mas a internet é uma necessidade em sua opinião, já que cada vez mais as pessoas se utilizam dessa plataforma. A escritora acredita que não há como fugir dessa plataforma, pois a vida é uma eterna adaptação.

“Eu tenho seis e-books e 18 livros publicados. Os e-books circularam mais e eu consegui divulgar ainda para mais gente. É claro que a sensação de publicar no impresso é diferente. Esse imaginário sobre o livro impresso ainda vai perduram por muito tempo. Os autores ainda não se adaptaram a essa transição”, avalia Marcos Fábio.

Muitos ainda não fizeram essa transição, mas é claro que concordam com o efeito que ela gera e concordam que pode haver benefícios. Gilmar Pereira afirma que, apesar de ter se perdido nessa estrada da publicação por meio das redes sociais, admira muito e acredita que quem está nesses espaços sai na frente.

Do outro lado

Para além dos muros de quem escreve, também é preciso entender como funciona o universo de quem lê. A jovem leitora Aylana Mendes vive em um quarto cheio de livros, conta que gosta de ler desde criança, mas confessa que são poucos os livros regionais ou nacionais que despertam o seu interesse. Ela tem preferência pelas obras internacionais.

“Ultimamente eu leio mais no digital. Apesar de gostar bem mais dos impressos, eles são mais caros e ocupa muito mais espaço. E o livro digital cabe no celular, posso levar para qualquer lugar e ainda vão caber mais e mais livros”. A jovem vive justamente uma transição entre um mundo e outro.

“Desde pequena minha mãe me incentivava a ler”, afirma Aylana. Ela também conta um pouco como a leitura foi significativa em sua vida e na escola. “Ler sempre em ajudou na vida. Muitos livros, apesar de fictícios, têm um conteúdo que passa alguma coisa importante. Além de que ajuda na escola, porque eles trazem um assunto de forma leve e que vai fazer você querer entender”.

 

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