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“Não temos grandes diferenças dos procedimentos que são executados lá fora”, garante oncologista clínico sobre o tratamento de câncer em Imperatriz

“Não temos grandes diferenças dos procedimentos que são executados lá fora”, garante oncologista clínico sobre o tratamento de câncer em Imperatriz

Texto e fotos de João Paulo Camelo

 

“No Maranhão a prevalência do câncer de colo de útero está acima da prevalência do câncer de mama. É um dos poucos estados do país em que se tem mais pacientes com câncer de colo de útero do que de mama”

 

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 600 mil novos casos de câncer por ano em 2018 e 2019. O câncer de pele não melanoma é o mais comum e com maior incidência no país. A segunda posição é ocupada pelo câncer de próstata, para homens, e de mama, para as mulheres.

Ainda segundo os dados levantados pelo INCA, no Maranhão surgirão 8.800 novos casos da doença do decorrer dos próximos anos. Vale ressaltar que o perfil dos casos das doenças oncológicas no Brasil varia de acordo com a região.  Nas regiões Norte e Nordeste, o câncer de estômago está mais presente entre os homens, e o câncer de colo de útero mais presente entre as mulheres.

Imperatriz conta com o Unacon (Unidade de Alta Complexidade Oncológica), unidade essa que é credenciada pelo SUS para realizar tratamentos oncológicos para adultos e crianças no hospital São Rafael, da rede privada, que é referência no tratamento de câncer na região.

Em entrevista, o coordenador médico da unidade, Adriano Rêgo, define como “situação cultural” o fato de muitas pessoas buscarem tratamento oncológico em outras cidades. Segundo ele, não há grandes diferenças nos tratamentos realizados em Imperatriz e São Paulo, por exemplo.

Rêgo é oncologista clínico e professor do curso de medicina na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além disso, é responsável pelo projeto credenciado pelo SUS para oferecer tratamento oncológico infantil na cidade pela rede privada. Segundo ele, a parceria público privada para fornecer atendimento tem dado certo, uma vez que se tem mais qualidade por ser gerido por uma empresa privada.

Perguntado sobre os impactos das fake news nos tratamentos de doenças oncológicas, o médico garante que, em muitos casos, por falta de informação correta, optar por não continuar com o tratamento pode ser o maior dano causado.

 

Imperatriz Notícias – Segundo dados de Inca (Instituto Nacional de Câncer), o Brasil deverá registrar 600 mil novos casos de câncer por ano em 2018 e 2019. No estado do Maranhão surgirão 8.800 novos casos da doença nos próximos anos. Há uma justificativa para esses números alarmantes?

Adriano Rêgo – Na realidade, o número de casos oncológicos vem aumentando exponencialmente por diversos aspectos. É multifatorial. O que leva o câncer a está estatisticamente em crescimento? As pessoas estão envelhecendo mais, estão morrendo menos de doenças cardiovasculares. Se estão envelhecendo sem ter doenças cardiovasculares, ela tem mais chance de desenvolver uma doença oncológica, que é um defeito intrínseco na célula. É mais prevalente quanto mais velha a célula for. Outra coisa, os métodos de diagnóstico tem se aprimorado bastante. Então, naturalmente estão diagnosticando mais câncer e as pessoas estão tendo mais câncer por estarem vivendo mais. Outro ponto importante, é que o próprio meio que a gente vive propicia a um maior número de mutações nas células. Então, o uso de substâncias industrializadas, o meio ambiente, as modificações comportamentais, a presença de vírus, e o não tratamento após o diagnóstico favorecem que pessoas mais jovem tenham mais câncer. Outra ponto é que as pessoas estão morrendo menos de doenças não oncológicas, ou seja, as pessoas estão vivendo mais após um infarto, um avc ou uma infecção. O que acontece é que muitas vezes no final desse “funil” pode se desenvolver uma doença oncológica.

I.N – Ainda de acordo com o levantamento feito pelo Inca, nas regiões Norte e Nordeste o câncer de estômago tem uma incidência maior entre homens, e o de colo de útero ainda está mais presente entre as mulheres. Esses tipos de câncer possuem alguma relação com o aspecto regional?

A.R – São duas situações que merecem uma ressalva importante. No Maranhão a prevalência do câncer de colo de útero está acima da prevalência do câncer de mama. É um dos poucos estados do país em que se tem mais pacientes com câncer de colo de útero do que de mama. Isso se deve a alta prevalência de HPV, ao início precoce de atividades sexuais e das infecções transmitidas do homem para a mulher. Outra ressalva importante aqui no Maranhão é o câncer de pênis, o maior índice do país. Sobre a questão do câncer de estômago, aqui o grande problema é que é um dos estados que o rastreio feito através de endoscopia digestiva alta é o mais deficitário que existe no país. É muito abaixo da média preconizada, por isso que nós temos muito [casos de câncer de estômago]. Quando vai se descobrir [o câncer] já está numa fase mais avançada. São lesões pré-cancerosas que poderiam ser tratas por via endoscópica que acabam evoluindo para câncer.

I.N – Então você acredita que se houvesse uma qualidade maior na prevenção e no diagnóstico o número de câncer de estômago no nosso estado seria menor?

A.R – Sim. O problema é que tem muita lesão pré-cancerosa que dá sintomatologia. O paciente acaba procurando, mas não tem acesso a uma endoscopia pelo SUS. Ou em muitos casos ele acaba desistindo pela dificuldade trâmite burocrático. Isso faz com que aquela lesão pré-cancerosa acabe evoluindo para um câncer.

I.N – O câncer de próstata é o mais comum da doença entre os homens. Você acredita que isso esteja diretamente ligado à resistência de muitos em relação ao exame de toque retal? 

A.R – O câncer de próstata sem dúvida nenhuma é o mais prevalente, só perde para o câncer de pele. Há uma alta probabilidade de se desenvolver câncer de próstata na história natural do homem. Não quer dizer que esse câncer de próstata vá matar o homem. Existe um estudo na Inglaterra em que foi feita uma necropsia de duzentos pacientes que morreram de outras causas. 70% desses pacientes na Inglaterra tinha o câncer de próstata que não foi diagnosticado, mas não morreram pelo câncer de próstata. Então, o câncer de próstata tá envolvido intrinsicamente com o envelhecimento da próstata. O problema que nós temos quando se entra na questão Norte e Nordeste, é uma questão cultural antiga sobre o homem aceitar o toque retal. Isso acaba contribuindo de forma negativa para o diagnóstico precoce.

I.N – Atualmente se fala muito em tratamentos alternativos ou naturais para o câncer. É seguro?

A.R – Tudo que nós fazemos hoje em qualquer unidade de alta complexidade de oncologia no país, é embasado em protocolo científico. Então, nenhum tratamento alternativo segue uma linha de pesquisa científica homologada. Nenhuma dessas linhas [de tratamentos alternativos] é defendida em uma unidade de alta complexidade, porque não tem embasamento científico.

I.N – Mesmo com o atendimento oncológico oferecido em nossa região, por que ainda há pessoas que procuram tratamento em outros estados? 

A.R – Ainda existe uma situação cultural que a gente não consegue mudar do dia pra noite.

I.N – Nesse caso, então ainda há muitas pessoas que acreditam que o tratamento oncológico em outros estados, como em São Paulo, é melhor que em Imperatriz?

A.R – Na verdade, eu e vários outros [médicos] viemos de São Paulo. O que São Paulo oferece de diferente daqui? Hotelarias, por exemplo. Você vai encontrar hospitais com hotelaria muito mais avançada. Em termos de quimioterapia, não. A quimioterapia é um medicamento, uma ampola, a mesma que é usada lá se usa aqui. Em termos de radioterapia, eu diria que 90% a 93% de tratamento de radioterapia feitos aqui são iguais aos de lá. Vai existir um delta em torno de 7% a 10% que vai depender de maior nível tecnológico. Na cirurgia, eu acredito que nós temos profissionais de qualidade aqui. Não temos grandes diferenças dos procedimentos que são executados lá fora.

I.N – Vivemos em uma época em que surgem diversas fake news diariamente nas redes sociais. Há muitas notícias sobre tratamentos alternativos e remédios para combater doenças oncológicas. Como elas impactam no tratamento oncológico? 

A.R- Nós somos muito lineares no tratamento oncológico. O tratamento oncológico é padronizado. O mesmo que é aqui, é em São Paulo, no Rio. Não há uma diferenciação. O que acontece, é que as notícias que não são verdadeiras podem influenciar o receptor de forma negativa. Optar por não tratar é o impacto maior. Os questionamentos se geram, mas aí a gente vai tirando as dúvidas. Mas o maior impacto seria a interrupção do tratamento e isso é um prejuízo muito grande para o paciente.

I.N – Você acredita que a parceria realizada entre o SUS e a rede privada seja o melhor caminho para se tenha um tratamento oncológico de qualidade?

A.R – Eu acho que é a melhor qualidade do país. O governo, seja estadual ou federal, gerir ele mesmo em termos de alta complexidade é muito ruim, porque não vai haver uma preocupação fundamental chamada qualidade. O funcionário que é do estado não tem aquela preocupação de oferecer uma qualidade, diferente do funcionário de uma instituição privada, que já tem na sua política interna a qualidade. Não existe esse nível de preocupação de qualidade no estado.

I.N – A cura do câncer existe?

A.R – Bem, o termo cura não é um termo científico. Nós não temos esse termo no meio científico. Não existe cura. O que a gente usa na oncologia? A gente usa termos estatísticos na pesquisa cientifica. Na oncologia a gente utiliza os termos sobrevida global e sobrevida livre de doença. Você teve câncer, fez o tratamento e no momento está sem evidência de doença oncológica, então isso é chamado de sobrevida global. A sobrevida livre de doença é quando um paciente fez um tratamento, ficou um período sem a doença; a doença voltou e ele fez um novo tratamento e está sem a doença. Então, se soma esses períodos que ele ficou sem doença e o somatório desses períodos que ele fica sem doença, é o que vai se chamar de sobrevida livre de doença e vai confluir com a sobrevida global. Então, o que nós sabemos hoje, é que gradualmente as sobrevidas globais que antes eram dois anos, três anos, aumentaram. Hoje nós já temos sobrevidas globais bem superiores a 10 anos. Nós temos pacientes que trataram se trataram há 15 anos, 20 anos. Principalmente no câncer de mama, se tem mulheres que estão há décadas sem câncer.

 

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