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Preconceito diminui participação masculina no balé em Imperatriz

Preconceito diminui participação masculina no balé em Imperatriz

Pauta: Matheus Campos Sousa

Repórter: Maria Francineide  Carvalho Aguiar

 

Em pleno século 21, jovens bailarinos sofrem preconceito social em relação à sua arte, que é considerada “coisa de menina”. Em Imperatriz, dos 202 alunos matriculados em escolas de balé, só 3% são do sexo masculino. Para inclusão de meninos no balé, as escolas de dança Ponché e Sumaya Eva oferecem bolsas integrais como forma de incentivo. Apesar disso, reconhecem que a procura masculina no balé ainda é insuficiente por conta do preconceito, o que dificulta as montagens de peças e de apresentações.

Com mais de 150 alunos, a escola Sumaya Eva possui apenas três meninos com idades a partir de 18 anos. Por outro lado, observa-se que na escola Ponché, mesmo com um número menor de alunos matriculados, a presença masculina é superior a 16%.

A escola Carolina Almeida tem hoje 25 alunas matriculadas, com faixa etária de 5 a 50 anos e nenhum homem. Ela diz que não entende o preconceito, já que nos espetáculos os meninos encenam papeis bastante masculinos e que isso poderia ser um atrativo. “No balé clássico o homem tem que ser homem dentro da dança, ele pode ser fora o que ele quiser, mas dentro da dança ele tem que ter postura de homem, porque o homem representa força, masculinidade”, concluiu.

Ela lembra, ainda, que para ser um bom profissional do balé é necessário unir qualidades que envolvem postura, disciplina, simplicidade, equilíbrio força e coragem, além de muito treino. O ganho médio dessa profissão varia de R$ 1mil a 2mil.

Israel Ferreira de Oliveira, bailarino da escola Ponché

Contudo, é importante destacar que muitos jovens bailarinos enfrentam preconceitos não só na rua, mas também dentro da própria casa.  Os casos de atitudes preconceituosas são inúmeros. Temos, por exemplo, pais que defendem que balé, assim como qualquer tipo de arte, não dá futuro, e isso leva jovens a fazerem aulas às escondidas para não serem repreendidos. Um dos fatores que contribui para o afastamento do jovem da dança é a falta de apoio da família.

Nelson enfrenta preconceitos e faz balé em Imperatriz

Os espetáculos realizados pela escola de dança Ponché vão desde a concepção do tema, história, figurino aos famosos espetáculos quebra-nozes e lago do cisne.  “Para nós fazermos o espetáculo o quebra-nozes nós temos que fazer fielmente como criador dele fez, com as músicas Tchaikovsky, criador das músicas de operas, enfim, nós temos que usar unicamente as músicas originais dele sem nenhuma adaptação, as coreografias tem uma linha que você tem que basicamente copia-la”, disse a proprietária e professora da escola Ponché Rosana Feitosa Pires Farias.

Segundo o professor e bailarino da escola de dança Ponché, Lucas Silva Gomes, de 22 anos, na Rússia, onde o balé se destaca, meninos que se interessam pela dança são tratados como quem se interessa pelo futebol e não há tratamento diferenciado. “O preconceito existe em todos os lugares, mas aqui no Brasil é muito forte por causa da nossa cultura brasileira, que é formada em torno do machismo e futebol”, enfatizou.

“Ser bailarino é muito difícil, justamente pela as cobranças que se tem pra ter uma postura, pra ter leveza, pra encaixar tudo ao mesmo tempo”, destacou a professora e bailarina Carolina Almeida.

Com o apoio de sua mãe que sempre acreditou no seu potencial, o bailarino Israel Ferreira de Oliveira, de 24 anos, conta que deixou a cidade onde morava, Tucumã-PA, em busca de novos horizontes. A dança faz parte de sua vida desde os 20 anos de idade e lamenta por não ter iniciado mais cedo por conta de suas condições financeiras. “Preconceito comigo mesmo não teve, sempre tive o apoio de minha mãe, mas infelizmente não foi uma coisa tão cedo, batalhei, batalhei até conquistar, então estou aqui hoje”, destacou.

Filho de pais separados, o bailarino Rafael Santos Rodrigues, de 24 anos, começou sua relação com a dança na adolescência. Ele destaca que, por conta da separação de seus pais, teve que morar com seus avós quando tinha 14 anos.  A partir daí começou a criar gosto pela dança, mas devido às críticas da maioria de sua família dizendo que esse tipo dança era “coisa de mulher”, Rafael entrou em uma tristeza profunda e, aos poucos, deixou de lado o seu interesse pela dança. Já na fase adulta, descobriu que nada o impedia de fazer aquilo que mais gostava, dançar. A partir de então, não se importava mais com a opinião daqueles que o criticavam. “Hoje vendo a minha relação com meus parentes, as pessoas que me criticavam, hoje me elogiam, vejo isso como superação, mas ainda há muito preconceito com homens no balé e nós estamos ai para quebrar essas barreiras”, acrescentou.

Em entrevista, o bailarino e professor da escola Sumaya Eva Nelson Costa Martins, de 23 anos, conta que desde os 8 anos de idade pratica dança e nunca teve apoio de sua mãe. Por outro lado, seu pai sempre respeitou sua vontade e o levava para os ensaios. Sozinho, quando estava com 14 anos, correu atrás do seu objetivo porque não tinha na família o apoio que precisava. Nelson disse ainda que “é muito complicado porque você ver todo o seu projeto, todos os teus planos indo por água a baixo, porque tu não tens um recurso, tu não tens uma família, não tem alguém que possa te ajudar”.

 

 Benefícios do ballet masculino

Os benefícios do balé são diversos para todos que o praticam. A dança praticada por homens além de ajudar a desconstruir uma visão deturpada da masculinidade, o estilo oferece vários ganhos de ordem física e mental. Vale ressaltar, que o balé traz flexibilidade, coordenação motora e disciplina.

O balé aumenta e fortalece os músculos tanto quanto a musculação. Além de toda a musculatura responsável pela postura, a técnica estimula tantos os membros inferiores quanto superiores, por conta de exercícios de salto, sustentação em determinadas posições e força nos braços para carregar as bailarinas.

Não podemos nos esquecer dos ganhos de autoconhecimento e autoestima. Afinal, quem pratica ballet passa a conhecer melhor o próprio corpo, a descobrir as próprias limitações e como superá-las. Assim, o treino e a disciplina favorecem o crescimento pessoal e a uma maior confiança em si mesmo.

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